Artigo – Oganpazan https://homolog.oganpazan.com.br Oganpazan Wed, 20 Aug 2025 15:31:02 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 Os 10 Pilares de Abebe Bikila (BK) ou Pablo Marçal na Etiópia, arrivismo hard em “DRLE” https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/os-10-pilares-de-abebe-bikila-bk-ou-pablo-marcal-na-etiopia-arrivismo-hard-em-drle/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/os-10-pilares-de-abebe-bikila-bk-ou-pablo-marcal-na-etiopia-arrivismo-hard-em-drle/#respond Wed, 20 Aug 2025 15:31:02 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38925 Recentemente o MC carioca BK, um dos nomes mais destacados do Rap brasileiro lançou o filme “Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer”, analisamos os 10 Pilares propostos!

BK

No penúltimo lançamento do BK, Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer (o filme), o arrivismo narcisista, há muito já presente no rap brasileiro, totalmente rendido aos preceitos neoliberais, alcançou talvez o seu ponto mais agudo. Já faz muitos anos que artistas como Filipe Ret entre outros, transformaram a capacidade crítica do Rap em mera performance narcisista, recheada de clichês de auto-ajuda, posando de filosofia existencial. 

Este texto é uma análise semiótica e de discurso, do que subjaz como texto subreptício presente no filme “D.R.L.E” que possui a direção do Vellas. Porém, não conseguimos localizar a autoria das falas e dos textos presentes no filme, o seu escabroso roteiro. No entanto, tomamos aqui o conjunto da obra como assumido por BK, uma representação visual do disco Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer (2025) e consequentemente como reflexo e complemento imagético e ideológico do mesmo.  

No filme que precedeu o lançamento de “DRLE”, último disco do MC carioca BK, Os 10 Pilares do Abebe Bikila – ele mesmo e não a figura histórica – o coach rap contemporâneo no Brasil, encontrou o seu messias mais radical. O filme gravado na Etiópia mescla mistificação histórica e um flerte muito forte com uma noção difusa de Darwinismo Social. O discurso do MC empreendedor de si mesmo, o self made man, agora se porta como líder de um bando nômade – sem nenhum fundamento histórico – convidando seus “colaboradores” a se portarem com o máximo de crueldade possível diante do Outro. 

A forma completamente deturpada que pretende contrapor o Nomadismo – como origem humana – ao Sedentarismo – forma de desenvolvimento das primeiras civilizações africanas –  é no começo do filme, a tese de base  na qual BK pretende assentar a sua visão estética.

“O homem é de origem nômade. O que fica parado atrofia. Perde a força. Vira o elo frágil de um bando que caminha pelo progresso. Um elo que atrasa e deve ser abandonado.”

Essa fala de um mais velho etiope, já nos primeiros segundos do filme, sugere uma confusão conceitual onde o nosso passado e o presente atual, longe de dialogar de forma crítica, é mistificado em nome de um ideal de progresso neoliberal. Confunde o “corre” contemporâneo, no estágio civilizacional extremamente crítico em que vivemos atualmente, com a vida nos períodos Pré-Neolíticos. 

BK

Já faz literalmente uns 10 mil anos, que deixamos de ser caçadores coletores, e passamos a dominar a agricultura e a criação de animais, assentando-nos em aldeias, cidades, etc. Apesar de ainda hoje existirem povos nômades, principalmente no continente africano, a busca por essa “origem” da humanidade, revela o caráter ético e político atual do trabalho do BK. Tanto no filme como no disco, aquilo que se pretendia movimento é na verdade um giro em falso dentro de uma ética de coach e de uma postura política neoliberal que beira o Darwinismo Social. 

A fera mítica utilizada no filme é bastante atual, a entidade que vive nas sombras e ri antes do ataque é no final das contas aquilo que BK pretende escamotear com os seus 10 Pilares, chama-se Capitalismo Tardio. Atualmente, na posição de corredor privilegiado, o artista carioca não possui nenhum escrúpulo em assumir a mesma posição do patrão inclemente, que não permite que uma mãe dê a luz aos seus filhos ou que quer que o seu “colaborador” use fraldas para não ir ao banheiro. 

Como passageiro na classe especial – mainstream –  da indústria cultural, ele observa impassível os que são deixados para trás, para morrer, pois o bando não espera. Sem nenhum distanciamento poético, a construção do roteiro são meras ilustrações em imagens movimento, das teses, que serão expostas ao final. Os ares de pseudo ancestralidade contida no mais velho que narra a lenda, se nos mostra em um esforço mínimo de interpretação como mera mistificação, que parece roteirizada pelo Pablo Marçal. 

Em entrevista recente ao programa Provocações, BK explica que viajou à Etiópia com o disco já pronto e que lá buscava por um lado, a exemplificação do Monstro – nome de uma das faixas do disco – e por outro a ligação do seu próprio nome. Ao chegar no único país do continente africano que nunca foi colonizado – junto a Libéria nação fundada em 1847 por ex-escravizados vindos dos EUA – o que BK nos apresenta é algo totalmente anti-africano: 

“Por isso, o bando não espera. Não faz distinção e nem concessão, amigos, família, amores. Todos ficam para trás.”

BKMetaforicamente, para serem devorados – “membro por membro, osso por osso” – social e no presente histórico para serem esquecidos, abandonados à própria sorte, marginalizados e por que não, mortos. Pois, o monstro atual assim procede e ele não é nem o BK e muito menos o Tempo, que nas religiões e nas cosmovisões de matriz africana possui uma forma cíclica e muito longe da linearidade ocidental proposta pelo artista. E que mesmo ao pensarmos na história da Etiópia, com forte ligação com o Judaísmo, com o cristianismo e com a religião muçulmana, manteve-se independente politicamente. 

Quanto mais BK busca se apropriar da ancestralidade etiope do seu nome, mais distante fica. Abebe Bikila, o maratonista que venceu duas vezes as Olimpíadas, na primeira delas descalço, um exemplo de resistência que está anos luz à frente do Abebe Bikila que parece propositalmente não reconhecer princípios básicos, hoje populares até no jargão das redes sociais como o: Ubuntu. A circularidade como forma e signo de grande parte – senão na totalidade – das bases ancestrais do pensamento africano em todas as dimensões, perde a corrida para um código de conduta que não encontra reflexo no território de onde é anunciado, a não ser como praga colonial inoculada e consequentemente reproduzida. 

O continente africano é um dos principais produtores de diamantes do mundo. Utilizando o diamante como signo de “progresso” e foco principal da “empresa”, BK o artista, esquece ou finge esquecer completamente do “custo” destes, aos países e aos povos africanos. E ao que parece daí deriva o resto, o BK que aparece ao final com uma tocha iluminando os rostos de um “bando” que ouve o patrão recitar os códigos de conduta, os 10 Pilares do neoliberalismo como política e do Pablo Marçal como modelo ético. 

A cultura Hip-Hop que outrora serviu de escola para jovens negros aprenderem sobre a história do continente, sobre as figuras de luta e resistência em África, se converte na imagem proposta em “D.L.R.E.” na mais absoluta mistificação neoliberal. Por vezes, nos lembra aqueles que falam sobre as formas de escravidão em África, antes do colonialismo. E sobretudo, na fixidez das estruturas prontas, o pensamento de BK presente no filme, não viaja, ele está completamente “mumificado pelas substâncias mais banais e comuns”, bandanas lhe atam firmemente e aprisionam o seu pensamento poético, levando basicamente a se tornar um ventríloquo das ideologias hegemônicas do Ocidente.

BK

Ele vai para a Etiópia, mas não há sinais de pensamento político africano, ou mesmo etiope, zero combatividade, nenhuma resistência. Na terra dos reis Menelik II e do honorável Haile Selassie, se comporta como um garoto de recados do Capitalismo tardio, reproduzindo a ética daí derivada. Não apenas preservando as estruturas de opressão, como reforçando e buscando expandi-las em seus aspectos mais permissivos e porque não crueis. 

Sendo assim, o viés sereno e duro com que BK aparece diante da câmera nas cenas do filme, longe de se portar de forma crítica, ou mesmo como um mero observador do status quo – filmado e poetizado – se coloca como administrador e porque não ideólogo de toda a alienação, brutalidade e mistificação que o filme presentifica. Em momento algum, há uma critica à quaisquer dos pontos apresentados e abordados acima. As imagens de época do maratonista Abebe Bikila – única fonte histórica real presente no filme – que tenta ser apropriada como signo da luta por acompanhar o “Tempo”, identificado como monstro, soam pueris. 

O filme se converte dessa forma em manifesto que não está ancorado em nenhuma visão crítica da realidade, um mero panfleto digno do movimento dos Legendários. Uma dureza masculina e negra que não condiz com o atual nível de debate sobre estes temas, uma visão política completamente despolitizante, entendendo política aqui, como a busca do bem comum, aliás não há “comum” na visão do bando que BK cria. Se entendermos o comum como reconhecimento e partilha com o Outro, o que há é o entendimento das relações éticas provenientes meramente de um “utilitarismo hardcore”, o que não mais “serve” é descartado e vale ressaltar, qualquer um – pai, mãe, filho, amores, amigos…

Desta sorte, nos surpreende um pouco a recepção calorosa por parte da crítica e do público, sem nenhum traço de reflexão. No entanto, entendemos que neste filme, BK e sua produção avançaram a um ponto que até então não tínhamos chegado no rap feito no Brasil. As oposições infantis e irrefletidamente reproduzidas sobre vencedores e perdedores, agora possuem um código de conduta que serve de diretriz base para os MC’s/Empresas. 

Os 10 pilares do Abebe Bikila é a primeira sistematização racional – não dá pra chamar de poética ou artística – de todas as frases de auto ajuda e as rimas motivacionais como: “Você é o único representante do seu sonho na terra”, encontra aqui seu estágio final e mais bem elaborado. BK se encarrega de ser o próprio Moisés, porém do Neoliberalismo mais tosco e cruel. A Ego Trip com recurso poético se torna práxis, saindo do campo da fabulação literária para o campo do pressuposto das leis éticas para o estabelecimento da relação entre as pessoas. O fracasso é covardia, a doença é preguiça, e o BK no filme “D.R.L.E” estabelece a norma – das mais crueis –  para os operadores, os gerenciadores da máquina de moer gente, nesta metade de segunda década do Século XXI. 

-Os 10 Pilares de Abebe Bikila (BK) ou Pablo Marçal na Etiópia, arrivismo em “DRLE” 

Por Danilo Cruz 

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Diego 157 Day, e porque devemos louvar esse mestre da nossa cultura https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/diego-157-day-e-porque-devemos-louvar-esse-mestre-da-nossa-cultura/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/diego-157-day-e-porque-devemos-louvar-esse-mestre-da-nossa-cultura/#respond Fri, 15 Aug 2025 17:29:13 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38898 Diego 157, MC e beatmaker que é um dos arquitetos da cultura Hip-Hop no elemento Rap, completa hoje 42 anos, você conhece a história?
Diego 157
Da esquerda Spock MC, Pacato & Diego 157. infelizmente não conseguimos identificar a irmã presente.

Diego 157 é um dos arquitetos da cultura Hip-Hop na Bahia, com mais de 20 anos de produções, o Hobbit da Massaranduba possui uma obra grandiosa e que se confunde com o próprio desenvolvimento do Rap baiano no século XXI. Conhecido inclusive nacionalmente, o trabalho do MC e beatmaker reúne produções diversas entre projetos coletivos e solo, que desde os primeiros passos sempre demonstrou uma imensa qualidade e relevância. 

É próprio da indústria cultural capitalista e supremacista branca brasileira produzir, por um lado, o esvaziamento de culturas pretas e periféricas e por outro, ignorância e invisibilidade, mesmo dos maiores mestres do nosso povo. Por isso, mais do que elogios e tapinhas nas costas, é preciso sempre lembrar de não esquecer o que “as areias do tempo” pretende encobrir. 

Diego 157
Formação oficial Coscarque, Diego 157, Lord e DJ Poeira

O primeiro registro fonográfico de Diego 157 a que tivemos acesso foi o projeto “H.U.N. – Hip-Hop Underground Nordestino”, em um EPzinho de apenas 4 músicas mas que é um documento histórico brutal. Dito & Feito foi gravado há quase 20 anos atrás, em 2006 e o grupo era formado pela tríade Diego 157, Lord, Coscarque e DJ Poeira, é mole? De acordo com Cosca: “O grupo possuía como agregados que se identificavam com o trabalho, nomes como Baga, Betinho, Victor Haggar, Spock MC, Sinho Representativo, MC Sardinha, Man-Doin e DJ Jarrão aka DJ Jarron”. 

Com beats produzidos por Cosca e Diego 157, sob a atenta “Super Visão” de Spock MC, o disco é um dos primeiros – senão o primeiro – registros de um rap com estética underground, do nosso estado. Houve um tempo, onde artistas de bairros diferentes se frequentavam e colaboravam com cenários muito próprios, por exemplo, no caso do H.U.N duas escolas fundamentais para o rap de Salvador dialogavam e produziam o futuro. São Caetano e Cidade Baixa/Subúrbio Ferroviário. Não posso deixar de pensar como esse EPzinho serviu para mostrar possibilidades e formar também, outros tantos MC’s e beatmakers que anos depois iriam formar outros tantos projetos importantes para a nossa história. 

Diego 157
Capa do projeto Coletivo 071, idealizado pelo grande DJ Índio

Um ano depois, em 2007 Diego 157 colabora com outro projeto que não está sequer nas plataformas de streaming mas que é também um marco desconhecido de grande parte do público: O Coletivo 071. Imagine aí jovem incauto, Daganja, Dimak, Sereno, Fall Clássico, Spock, Aladdin, Diego 157 em um mesmo projeto? Pois é, é essa a “gang” poderosa reunida no EP Todo o “Dom que Deus nos Reservou”, por uma iniciativa do grande DJ Índio que tocou e produziu os beats.

Estes dois trabalhos guardam riquezas que deveriam ser de conhecimento público, porém estamos falando de uma época onde era muito difícil divulgar trabalhos, onde o acesso a tecnologia – hoje comum – era uma batalha. Mas, não faltava qualidade inventiva. Infelizmente, esses dois registros sumiram da internet com a queda do Myspace, porém se você ainda ouve MP3 como os antigos Incas, vou deixar um link para download aqui

Apesar do rap acontecer desde os anos 90 em Salvador, em termos fonográficos, é nos anos 2000 que se começa a moldar um modo próprio de se fazer o rap em nossa cidade e estado. Trabalhos como os dos grupos Quilombo Vivo, Júri Racional, Testemunhaz e OQuadro (Ilhéus) e a expressão nacional alcançada pelo Afrogueto, através do Prêmio Hutuz, lançaram as bases para um Rap orgulhosamente baiano e nordestino. 

Capa e contra capa do clássico disco lançado pelo Juri Racional – Por Todos os Meios Necessários em 2005

Em 2009, Diego 157 se junta a Spock MC e ao Man-Duin lançam o disco “A Cria Rebelde” de um dos grupos mais fodas da nossa história: “157 Nervoso”. Composto por 12 músicas, com participações de Aladdin e Léo Souza, trazia uma lírica que mesclava a ginga underground com ideias muito fortes de revolução social e denúncia política. Um disco que bate muito bem até hoje, como tudo que Diego colocou a mão, não possui data de validade. 

A passagem do tempo, e a atenção diante das mudanças históricas é sempre importante para não perdermos o bonde da história e muito menos nos tornarmos engessados. Escutar 157 Nervoso é voltar para um tempo onde o rap se constituía como uma verdadeira arma de luta político racial e de classe, onde se entendia que depois da raça, e que vivíamos em uma sociedade onde a burguesia nos esmaga através de diversas tecnologias de opressão. 

Diego 157

Em “A Cria Rebelde” o discurso é revolucionário e muito bem embasado, o trio de MC’s Diego 157, Spock e Man-Duin estavam longes de serem meros panfletários. O tempero singular baiano se deu pelas produções presentes no disco de nomes como Armeng, DJ Índio, de DJ Leandro e do próprio Diego. Muito próximos de outros grupos nordestinos como Clâ Nordestino e Gíria Vermelha, pregando morte a burguesia e o levante do povo preto, mas com identidade lírica e sonora próprias. “Enfia no cu a sua lei que nos garante liberdade, seu american way of life e a burocracia das universidades”, dá bem a visão política que permeia todo o disco. 

Apesar de todo o disco possuir uma coesão estética e não existir ao longo do play momentos de baixa, a música “Ancestrais” (prod. DJ Leandro) me parece um clássico do rap nordestino. Utilizando um sample de forró, a construção desse beat é aulas demais, e obviamente é acompanhado na excelência pelo trio de MC’s. Enfim, um clássico que para a sua sorte está presente nas plataformas de streaming.

Não bastasse em pouco tempo de carreira fonográfica, Diego 157, já ter marcado seu nome no cenário que hoje é história, ele também passa, a partir de 2009 a se tornar um dos melhores beatmakers do país. Finalista de concursos de beat com nomes hoje nacionalmente conhecidos como Coyote Beats e Efieli, ganhou concurso na cidade e participou da Liga dos Beats em São Paulo em 2010. 

Diego 157 Em 2009, o artista lançou uma mixtape: “Originais & Remixadas Vol.1” que trazia remixes de nomes do rap feito aqui no nordeste, com o clássico Inquilinus de Pernambuco, do sul com o paranaense Cabes, e de nomes como Emicida e Rodrigo Ogi. Nas palavras do Felipe Schmidt à época: 

“O projeto serve até como uma ferramenta para “educar” novos fãs do rap. É que Diego, antes de apresentar sua versão, solta a original. Outro ponto legal e digno de nota é a quantidade de artistas nacionais remixados, algo que não é muito comum por aqui. Das 12 faixas do trabalho, oito são made in Brazil. Mas, em meio a percussões brasileiras e samples tranquilos, é a voz infantil apresentando a mixtape do pai logo no início a parte mais emblemática da parada. E foi só o início, o prelúdio para a criatividade que transbordaria até o último segundo da audição. Enfim, fiquem com os remixes de Diego 157.”

Após a dissolução do 157 Nervoso, Diego 157 segue com Man-Duin com o projeto Niggaz com quem lançou uma outra pedrada em 2011, mais uma das gemas que só quem é de fato conhece. Os teleguiados pelo hype, os amantes de famosos, não conhecem. “Single’s” é exatamente isso, um agrupamento de singles com participações de peso como Daganja, Eleitos, Galf AC, Victor Duarte e Spok. Vou deixar o player marotamente aqui:

Este ano, outro trabalho essencial do Diego 157, que hoje se tornou um documento histórico, é o EP “Antes da Mixtape”, que completa 10 anos agora em 2025. Certamente, é um dos discos do rap nacional que mais ouvi na vida, no ano em que foi lançado lembro de sair de Macaúbas para o Planeta dos Macacos em São Cristovão ouvindo no repeat. E ao longo dos anos não perdi esse hábito. 

Porém, nunca resenhei mais profundamente esse trabalho, algo que farei daqui para o fim do ano, mas não posso deixar de apontar para o fato de que um dream team da rima participa desse disquinho. Nomes como Ravi Lobo, Galf AC, Baga, Xarope MC, Seth aka Jhomp (NPN), Brown Santana, José Macedo aka Zé Atumbi , Man-Duim e Oddish. Um EP pesado seja pelas participações, pelo próprio Diego 157 suas rimas e beats, dúvida? Dê o play:

A partir de 2015, o Oganpazan passou a registrar os trabalhos lançados por Diego 157, sejam os seus outros EP’s ou o excelente disco do coletivo Fraternidade Maus Elementos, outros tantos trabalhos que marcaram época do Rap baiano e nacional. Hoje, Diego completa 42 anos e segue como um dos pilares da nossa cultura. Esse pequeno perfil é um exercício de admiração, e um informativo para quem está de touca dentro e fora do Hip-Hop baiano, de que sim, temos um mestre vivo, produzindo, e devemos – que tem compromisso com essa cultura – louvarmos seu trabalho enquanto aqui ele está. 

Vida longa Diego, um brinde a sua vida e a sua obra, o rap e a cultura Hip-Hop baiana agradece. 

-Diego 157 Day! Porque devemos louvar esse mestre da nossa cultura!

Por Danilo Cruz 

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Alra Alves e a laje da “Ruera”, “Nosso Lugar” como território de uma festa do real Hip-Hop! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/12/alra-alves-e-a-laje-da-ruera-nosso-lugar-como-territorio-de-uma-festa-do-real-hip-hop/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/12/alra-alves-e-a-laje-da-ruera-nosso-lugar-como-territorio-de-uma-festa-do-real-hip-hop/#respond Tue, 12 Aug 2025 13:40:16 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38862 Alra Alves é uma das grandes no Rap feito no Vale do Paraíba, aliando produção ao fomento da cultura Hip-Hop!
Alra Alves
Os dois discos da Alra Alves

Alra Alves proporcionou no último domingo, no dia 10 de agosto ocorreu a comemoração de um ano do Estúdio Ruera, e através das dezenas de vídeos nos stories dos participantes da festa em sua 3º edição, a sensação era de que a Cindy Campbell reencarnou em São José dos Campos, no Vale do Paraíba. Porém, não se trata de imitação e sim da continuidade da cultura Hip-Hop em suas bases mais essenciais. A festa contou com a discotecagem do Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops, do DJ Loucas e do DJ Diniz, e a participação dos e das MC’s Mattenie, Killabi, Janvi e Meire D’origem. 

Em uma época onde muitos curtem mega festivais, festas em clubes luxuosos, a Laje da Ruera carrega o DNA de uma festa onde a comunhão é visível, mesmo a pouco mais de 2.000 km de distância. E isso não é por acaso, mas é o fruto de uma caminhada que começou em 2016 e que tornou o sonho e as dificuldades em combustível de luta para que em 2024 a MC e produtora cultural conseguisse construir o primeiro estúdio de uma mulher no Vale do Paraíba. 

Em uma conversa por telefone, alguns meses atrás, Alra Alves nos contou que começou a rimar em 2016 em rodas de freestyle na porta do Sesc de sua cidade. Já em 2017 ela participa da Cypher Mente Milionária junto às MC’s Preta Ary, Thamara e Eliza Branca. No ano seguinte, foi a vez de participar do último episódio do projeto de Cyphers do beatmaker Símio, “Bruxaria”, dessa vez ao lado de Wicca, Ninah, Laís, Gabi Killabi e da Meire D’origem. E como é bom ver registro mais antigos e sobretudo do início de carreira de artistas. Ali, já é fácil perceber a destreza de Alra tanto junto à MC’s contemporâneas suas, como diante de suas influências.  

Ainda em 2018, Alra Alves deu o start no seu primeiro projeto solo com o clipe single da faixa Ruera, onde conseguiu em um videoclipe com direção do Silvio Cesar, plasmar uma espécie de carta de intenções. Abordando suas origens no pixo e a “facilidade” em escolher e ser escolhida pelo underground, como local de criação e estética.  

Infelizmente, nesta altura não a conhecíamos, e nem sempre o que entra no nosso radar se transforma em texto, porém em 2019 ouvimos muito o disco de estreia da Alra Alves: “Ruera”, que se transformou em 2025 em uma marca. Com beats do Noise System, Tio Galera, Raul Rondé, Símio, Veiga e Murilo Beats, Alra Alves impressionava com um disco de boombap under na melhor tradição do Vale. 

Dona de um flow e de uma voz capaz de cantar as partes melódicas com excelência, as 8 faixas que compõem esse disco de estreia apresentam a afirmação de um feminino combativo, denunciando diversas opressões. Em “Ruera”, Alra Alves trouxe a essência do rap de rua e suas vivências, sem apelo pop, mas também abordando questões que lhe atravessam, como as questões referentes a violência contra mulheres, a violência policial, questões de opressão de classe e de saúde mental. 

Influenciada por nomes como Meire D’origem e Preta Ary MC’s próximas, Alra Alves esperou e sobretudo trabalhou por 5 anos desde o lançamento de “Ruera” para construir o seu Estúdio. E nesse processo encetar e oportunizar alguns projetos que são os mais importantes para a nossa cultura, pois formam uma base sólida de produção de arte e de público. Muitos não percebem, mas existem os produtores e mantenedores da cultura e ao mesmo tempo, artistas mais sólidos, onde suas linhas são bio-grafias (linhas escritas de vida) contra culturais, e existem as vedetes do mainstream. 

Alra Alves Essa distinção é de fundamental importância, para compreendermos a cultura Hip-Hop hoje, em um momento de investida da indústria cultural que visa sobretudo diluir até o nível de água de salsicha, uma arte que surge da combatividade. E neste sentido, não há apenas um privilégio masculino, isso também vem ocorrendo – como não poderia ser diferente – com o rap feito por mulheres. Outra é a vertente de uma MC como Alra Alves, que sem milhões na conta, construiu para a cultura o que nenhuma das MC’s que estão no Hype construiu. 

Sem se curvar para falar a língua da cultura dominante e os seus tiques nervosos, onde muitas outras, se comprazem em falar das “vadias invejosas”, Alra Alves oportuniza e visibiliza outras MC’s. Produtora e também beatmaker, Alra Alves criou o Projeto Guia que tem apresentado jovens nomes como Azurah, Baloo, Jéssica Sales e a Nwazz. Porque é como disse o Don L: “se você não traz ninguém, não fala que você é Hip-Hop”.

Superando a falta de grana e acesso, Alra Alves tem feito micro revoluções, e o seu disco lançado este ano: “Nosso Lugar” é mais do que um mero objeto estético, mas condensa a essência de sua trajetória de valorização do seu lugar no mundo e na cultura Hip-Hop. Mas ao mesmo tempo, a construção de uma perspectiva de horizonte aberto, que lhe dê e que ela possa partilhar com os seus e as suas noções de progresso coletivo. 

Neste novo EP, composto por 5 faixas produzidas por DJ Kaizen, Marci VSR, Kadow, Jazzkey, GAD e Blaze Boy e traz feats com a MC Janvi e o trompetista Rafael Jarcem. Como já deveria ser de conhecimento público, a Alra Alves alia a militância coletiva no Hip-Hop à excelência como MC e atualmente beatmaker e produtora cultural. Neste novo EP ela se apresenta em outra faceta diferente do trabalho anterior, aqui a MC do Vale se mostra menos agressiva mais ainda assim com uma contundência proveniente da força dos seus versos. 

Progresso coletivo e paz, lutas diárias pela sobrevivência sempre em vistas de criar condições de dignidade, amor e diversão, a manutenção de sua criança interior como impulso brincante e lúdico para seguir criando. “Calma e Elegante” rimando e cantando, seja na parceria com a Janvi, ou no duelo de flows com o trompetista Rafael Jarcem na faixa que encerra o EP, “Zona Sul”, Alra Alves entrega excelência em seu trabalho. Esta última faixa ganhou um videoclipe do grande Jean Furquim nomes por nós já conhecido há alguns anos. 

O audiovisual é um excelente resumo semiótico de tudo dito até aqui, com cenas de dentro do estúdio Ruera onde a MC é captada escrevendo e rimando, mas sobretudo pelas ruas de sua quebrada. Cenas de feira livre, de apresentação da MC na rua, churrasco rolando, da turma no campinho do bairro. A rua é a mãe do Hip-Hop, e ainda no clipe, uma imagem icônica coloca a Alra Alves em uma bifurcação de ruas, dois caminhos, com ela de um lado e o trompetista Rafael Jarcem do outro. A representação imagética que nós entendemos como a cultura Hip-Hop de um lado e a música rap do Outro. Sem possibilidade de escolha, Alra faz o rap do lado da cultura Hip-Hop… 

-Alra Alves e a laje da “Ruera”, “Nosso Lugar” como território de uma festa do real Hip-Hop!

Por Danilo Cruz 

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Santa Cena, a importância da força coletiva negra e periférica no cenário do rap sergipano! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/04/santa-cena-a-importancia-da-forca-coletiva-negra-e-periferica-no-cenario-do-rap-sergipano/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/04/santa-cena-a-importancia-da-forca-coletiva-negra-e-periferica-no-cenario-do-rap-sergipano/#respond Mon, 04 Aug 2025 16:38:56 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38811 O coletivo Santa Cena no cenário do rap sergipano, nos convida a pensar sobre a importância da perspectiva coletiva no Hip-Hop!

Santa Cena

 

As últimas movimentações do Santa Cena, coletivo de Sergipe, deixam claro que o grupo segue firme na sua proposta de valorização da juventude preta periférica. Os laços que fizeram com coletivos de fora da capital são a prova cabal disso, Primeiro, com a Exorbitmob, mob de Itaporanga d’Ajuda, foi lançado o clipe de ‘Urubus’. Depois, com a Street79, da Barra dos Coqueiros, lançaram a cypher Tétano Clã. Em ambos os casos, o que o Santa Cena faz é juntar forças e recursos com verdadeiras potências do rap sergipano. Apesar disso, para entendermos melhor o que é o Santa Cena e a virada de chave que representa, analisaremos o primeiro álbum da mob.

Há pouco mais de um ano, no dia 13 de abril de 2024, foi lançado o álbum ‘Santa Cena é o trem’. O projeto contou com 10 faixas, além de uma introdução não musical e reuniu 19 artistas, de dentro e fora do Santa Cena. Só de mc’s, foram 10, DLOK, NDS Hiata, Black Ice, Manu Caiane, Dani DK, Mali, BW, Weiny, Lubrisa e NG Lampião da Rima (também responsável pela articulação).

O time ainda contou com a presença de Eufórico, Duck e Oldproduções na produção fonográfica, mix, master e captação de vozes; Camila Geovana e Precioza na produção geral; Felipe de Jesus na fotografia; Somb e Dalvam Dexter na capa; e, por fim, Luan Allen, responsável pelos setores de identidade visual, articulação e capa. Um projeto grandioso e que, apesar de jovem, tem entalhado no corpo as marcas de um passado mais longínquo.

Junto a faixas inéditas, o projeto reúne os sucessos já conhecidos. Por isso, a história do álbum é indissociável da história do próprio coletivo. E de fato, a ideia do álbum surge com o nascimento do próprio Santa Cena. É isso que nos diz Luan Allen: 

Santa Cena
NG Lampião da Rima durante gravações

“A ideia de criar o álbum surgiu logo nas primeiras reuniões entre eu e Lampião da Rima, ainda no início do Santa Cena. Esse conceito inicial foi tomando novas formas e possibilidades quando começamos a dialogar com outros agentes. Mas foi no terceiro momento, com a chegada da produção musical de Eufórico e Duck, que o projeto realmente alcançou sua forma definitiva.”. 

Assim, para entendermos o que o projeto representa, precisamos, antes, entender o que o Santa Cena representa. E para isso, as palavras de NG Lampião da Rima nos fornecem uma luz: 

“O Santa Cena representa a pura verdade, a pura garra, correria, vontade de viver de um sonho, um futuro novo, um novo amanhã. Santa Cena representa quem é descredibilizado pelos seus sonhos, pelo seu corre.”

E por isso, ainda nas palavras de Lampião, em entrevista para o podcast Desdobro: “Principalmente qualquer lugar do estado, qualquer lugar do nordeste, aonde tiver uma favela, aonde tiver uma quebrada, um sonho, ali vai ter um Santa Cena”.

Sediado no Santa Maria, o bairro que dá nome ao Santa Cena, alguns anos atrás sequer poderia ser chamado de bairro. Antigamente conhecida como Terra Dura, a localidade na qual se situa o bairro sempre foi alvo do descaso governamental e por isso sempre foi vista de forma estigmatizada por grande parcela da população aracajuana. O atual nome do bairro foi tirado do canal Santa Maria, que serviria de ligação entre os rios Poxim e Vaza barris, mas sua construção foi abandonada em 1902. Além disso, em 1988 o local passou a servir de aterro sanitário, suprindo a necessidade do município após a desativação da lixeira do bairro Soledade.

Em resposta ao estigma generalizado acerca da Terra Dura, o Santa Cena nasce como uma ferramenta de perspectiva. Não é proposta do coletivo mascarar a realidade do Santa Maria ou de qualquer outra quebrada dos seus integrantes, mas vê-las de um ângulo pessoal, que revela a beleza e potência desses lugares. A depender de com quem se converse, o Santa Maria sempre será lembrado como um aterro sanitário, mas se mudarmos nosso interlocutor, saberemos que a Terra Dura é terreno fértil e como disse o Racionais Mc’s: “Até no lixão nasce flor”. 

Santa Cena
Luan Allen

É daí que surgem Luan Allen e NG Lampião da Rima. Fundadores do Santa Cena, as  carreiras dessas duas potências da pretitude periférica se confundem com a história do Santa Cena. No caso de Luan, apesar de já trabalhar como videomaker de alguns nomes do rap sergipano, e de outros gêneros, é no Santa Cena que seu trabalho alcança um novo patamar técnico e de reconhecimento: 

“Depois que o Santa Cena nasceu, muitas responsabilidades surgiram junto, e outras demandas que fui entendendo durante o processo – desde questões de relações até burocracias voltadas a músicas, eventos e estratégias. Mas isso também trouxe muito retorno positivo enquanto movimento. Recebi muitas falas sobre como o Santa Cena trouxe uma nova perspectiva de organização, de visibilidade para artistas e conceitos. Minha carreira ganhou um novo peso depois de todos esses trabalhos.”. 

No caso de NG, um dos maiores nomes do rap sergipano, senão o maior, sua carreira já caminhava com rentabilidade antes do Santa Cena. O mc é cria das batalhas de rima, já foi campeão estadual e disputou o regional, já vinha consolidando o seu trabalho enquanto mc de estúdio e participou de músicas extremamente relevantes pra cena local, como Sergipe Gangstar da F.B.S. (Família Bocas Secas). É inegável, contudo, que seu trabalho é realçado a partir de sua parceria com Luan Allen. Se antes disso a sonoridade de NG já era impecável, agora também o seu audiovisual é. E isso permitiu a criação de clássicos instantâneos do rap Serigy: os clipes de ‘Flow Lampião’ e ‘É a rua’ e toda a união sonora e estética do álbum ‘NG tá em kasa’.

Apesar de sediado no Santa Maria, não é só de lá que os integrantes do Santa Cena vieram. Durante seus anos de existência, o grupo já contou com dezenas de artistas e colaboradores de diversos bairros e cidades do estado. como é o caso de BW e Mali. Vindo do Castelo Branco, BW é um dos artistas mais influentes da cena. Sua estética de drill seria exemplo para outros artistas e o mesmo pode ser dito de sua estética audiovisual, especificamente no clipe de Saweetie. O artista iniciou no Santa Cena logo no início da sua fundação e fala um pouco sobre o que o álbum representou para a sua carreira:

“O álbum reuniu artistas de cada uma das 4 zonas da cidade e estado, então são vários mundos, e a proposta do álbum era abranger diversas temáticas e permear várias estéticas, então foi algo realmente importante e notório para minha carreira. Máximo respeito, só colaboração incrível junta!” 

Santa Cena
BW

Mali, por sua vez, é natural de Estância e nos fala um pouco da importância do Santa Cena para sua carreira: 

“Entrei no Santa Cena a convite de NG e de Luan, e foi uma oportunidade do sonho de artista, trabalhar profissionalmente se tornar real, de não precisar produzir beat, me gravar e compor sozinha, pois era a perspectiva única de melhorar enquanto artista. Além disso, o reconhecimento da minha arte como potência pra compor o Santa Cena elevou minha auto-estima e afirmou minha identidade”. 

Santa Cena
Mali

Assim, fica evidente que o lugar no qual nasce o Santa Cena é muito mais espiritual que geográfico. A vivência no Santa Maria é experienciada para além do espaço no qual o bairro se localiza e isso permite que exista mais proximidade entre as vidas de jovens pretos periféricos do que distância entre suas moradias. Com isso, a sede do Santa Cena deixa de ser um lugar físico para se tornar um lugar interpessoal no qual coexistem artistas do Santa Maria, Castelo Branco, Rosa Elze, São Conrado, Barra dos Coqueiros e por aí vai. Porque, de certa forma, todos residem no mesmo bairro, cidade, estado ou país, que é a periferia, local ou globalmente! 

Santa Cena
Camila Giovana

Não é à toa que o álbum, e os visualizers que ele gerou, contou com a presença massiva de agentes periféricos em todas as etapas de produção, até os mais altos postos de articulação. Camilla Giovana é produtora executiva do Santa Cena, foi produtora geral do projeto e nos conta um pouco do que a concretização do álbum representa pra ela:

“Representa o poder da transformação de perspectivas em relação à história do Rap Sergipano e aos profissionais que atuaram na produção do álbum. Esse lançamento contribuiu para que eu me enxergasse enquanto uma real produtora e me fez sentir capaz de alcançar/almejar outras colocações.” 

Algo semelhante é dito por Precioza, que, junto com Camila, foi produtora geral do álbum: 

“O álbum teve um impacto positivo, principalmente por me fazer ser reconhecida dentro de um cenário majoritariamente masculino. Foi uma das primeiras vezes que isso aconteceu, ainda que de forma sutil.”

A importância do Santa Cena, então, é evidente. Não só por reunir agentes pretos periféricos em seu entorno, mas por possibilitar a existência de suas carreiras. E isso ocorre tanto no caso de quem fica por trás das produções, como quem fica à frente delas, e quanto a isto, eufórico (eufo) e NDS Hiata são ótimos exemplos. Para eufo, sua entrada no Santa Cena foi marcada pela insegurança: 

“Minha entrada no Santa Cena foi mais um desafio pra mim, porque eu entrei e não sabia nem pilotar o FL [programa de produção musical] direito. Na minha cabeça, eles iam ver que eu era amador pra carai no bagulho e me tirar.” 

Quanto a NDS, o artista já tinha um trabalho reconhecido como mc e produtor, chegando a fazer o beat de diversas músicas de Bidu, um dois maiores nomes do rap sergipano, mas é com sua entrada no Santa Cena que ele lança o grosso do seu trabalho enquanto mc. Singles, videoclipes, a participação no álbum do Santa Cena e o lançamento do seu primeiro álbum. O convite para participar do coletivo foi como um resgate da sua carreira artística:

 “No tempo eu tava também passando por alguns problemas e estava meio afastado da música. Eu digo que o Santa Cena me resgatou. E aí, mano, foi só sucesso. Vários projetos passaram pra nós tudo certinho. Saiu meu primeiro trampo que foi o  Cypher. Depois da Cypher foi só porradeiro.”

Quem já foi ao Bate Cabeça do Santa Cena sabe que “porradeiro” é a palavra mais certeira que NDS poderia ter escolhido. Capturado pela lente de Somb, o evento inunda a DOCA, não só de pessoas e de clássicos do coletivo, mas também de sentimento. A auto-estima e a euforia são registrados nos olhos, sorrisos e vestuários de quem participa do show. Ao som de ‘É a rua’, a DOCA treme como se uma locomotiva passasse por cima. E assim, o Santa Cena faz jus à alcunha que dá nome ao álbum. Sobre isso, o próprio SOMB nos relata o seguinte: 

“Eu enxergo que o Bate Cabeça do Santa Cena é algo muito importante pra nossa cena. É como se fosse uma voz, meio que pra dizer que estamos aqui, porque representa muito os artistas negros e periféricos. O que minha lente vê nesses Bate-Cabeça’s é essa forma de ocupar, essa forma de o Santa Cena mostrar que os jovens negros periféricos têm capacidade de ocupar todos os espaços.”

Não é difícil definir o Santa Cena, e justamente por isso é fácil perceber a sua força. Santa Cena é um coletivo de jovens pretos periféricos que viram na própria realidade à sua volta uma possibilidade de mudança e o álbum é um marco da operacionalização dessa mudança. 

Toda a representatividade periférica que o Santa Cena traz em tudo o que faz é fruto de um ideal comum, a vitória do povo preto periférico. Por isso, o Santa Cena é também um movimento, de corpos, sentimentos e ideias. Todos juntos com um único propósito e vontade, sem que isso ocasione a negação de suas raízes e as suas singularidades. Nessa perspectiva, Santa Cena é o futuro, o presente ou mesmo o passado, mas, antes de tudo, Santa Cena é o trem.

-Santa Cena, a importância da força coletiva negra e periférica no cenário do rap sergipano!

Por Marcos Roberto 

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