Rap Nordeste – Oganpazan https://homolog.oganpazan.com.br Oganpazan Fri, 22 Aug 2025 15:33:03 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 Oddish do velho testamento voltou, plantando a Dissgraça contra Baco Exu do Blues! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/oddish/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/oddish/#respond Fri, 22 Aug 2025 15:33:03 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38950 Oddish, MC conterrâneo de Baco Exu do Blues, retirou alguns esqueletos do armário e soltou uma diss pesada!
Oddish
Oddish

Oddish é um dos grandes nomes da história do Rap Baiano, o Mc possui uma caminhada oriunda das batalhas, onde durante anos foi um nome simplesmente imbatível. Em 2014, ele lançou seu primeiro disco solo: “Ponteiros Voam Como Jatos”, um disco sujo e cáustico, que deu o start para sua obra fonográfica de modo irremediavelmente baiano, trazendo samples do Igor Kanario e cuspindo barras. 

Integrando o bando “Fraternidade Maus Elementos”, Oddish foi uma das peças psicóticas utilizadas no clássico recente: “Eles Não Vão Perdoar” de 2015, e daí o MC seguiu trampando com seus parceiros de grupo e soltando diversos singles nos anos 2017-2018. Oddish retornou ao cenário em 2021, com o consistente disco Onironauta. O disco que chegou na pista com a produção do Degraus Beats, trouxe participações do Teagacê e do Dactes. 

Ao longo de sua obra, Oddish trabalha meio numa perspectiva o Médico & o Monstro. O Monstro é o que chamo de Oddish do velho testamento, cuspindo sujeira de modo muito único e com uma identidade muito baiana. O Médico é o Felipe Castro, lidando com os seus demônios internos, expondo-os em lírica numa pegada mais alternativa. Exemplo disso, é o seu EP lançado no ano passado: Âmago. 

Hoje ao meio dia, o Monstro ressuscitou e veio inclusive com as características iniciais, reeditando a sua inspiração em outro Parmalat: Igor Kannário. A faixa “Breja na Sacada” é um diss pesada ao rapper seu conterrâneo e desafeto: Baco Exu do Blues. Oddish tirou uns esqueletos do armário, algumas coisas que são comentadas na cena baiana, e produziu uma diss que dá gosto de ouvir pela já conhecida qualidade lírica do MC.

 

As linhas de soco que Oddish disparou atacam elementos diversos da construção artística do Baco Exu do Blues e a sua virada pop, como o seu novo Rebranding, mas vão além e expõem questões “supostamente” vivenciadas juntos, por isso o título “Breja na Sacada”. Além de usar os títulos de algumas das faixas do Baco como parte da construção da diss.   

Será que haverá resposta? Até hoje, Baco nunca respondeu as diversas linhas que recebeu e nem as diss abertas de ataque, então é aguardar!

-Plantando a disgraça? Oddish do velho testamento voltou com uma diss para Baco!

PorDanilo Cruz 

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Diego 157 Day, e porque devemos louvar esse mestre da nossa cultura https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/diego-157-day-e-porque-devemos-louvar-esse-mestre-da-nossa-cultura/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/diego-157-day-e-porque-devemos-louvar-esse-mestre-da-nossa-cultura/#respond Fri, 15 Aug 2025 17:29:13 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38898 Diego 157, MC e beatmaker que é um dos arquitetos da cultura Hip-Hop no elemento Rap, completa hoje 42 anos, você conhece a história?
Diego 157
Da esquerda Spock MC, Pacato & Diego 157. infelizmente não conseguimos identificar a irmã presente.

Diego 157 é um dos arquitetos da cultura Hip-Hop na Bahia, com mais de 20 anos de produções, o Hobbit da Massaranduba possui uma obra grandiosa e que se confunde com o próprio desenvolvimento do Rap baiano no século XXI. Conhecido inclusive nacionalmente, o trabalho do MC e beatmaker reúne produções diversas entre projetos coletivos e solo, que desde os primeiros passos sempre demonstrou uma imensa qualidade e relevância. 

É próprio da indústria cultural capitalista e supremacista branca brasileira produzir, por um lado, o esvaziamento de culturas pretas e periféricas e por outro, ignorância e invisibilidade, mesmo dos maiores mestres do nosso povo. Por isso, mais do que elogios e tapinhas nas costas, é preciso sempre lembrar de não esquecer o que “as areias do tempo” pretende encobrir. 

Diego 157
Formação oficial Coscarque, Diego 157, Lord e DJ Poeira

O primeiro registro fonográfico de Diego 157 a que tivemos acesso foi o projeto “H.U.N. – Hip-Hop Underground Nordestino”, em um EPzinho de apenas 4 músicas mas que é um documento histórico brutal. Dito & Feito foi gravado há quase 20 anos atrás, em 2006 e o grupo era formado pela tríade Diego 157, Lord, Coscarque e DJ Poeira, é mole? De acordo com Cosca: “O grupo possuía como agregados que se identificavam com o trabalho, nomes como Baga, Betinho, Victor Haggar, Spock MC, Sinho Representativo, MC Sardinha, Man-Doin e DJ Jarrão aka DJ Jarron”. 

Com beats produzidos por Cosca e Diego 157, sob a atenta “Super Visão” de Spock MC, o disco é um dos primeiros – senão o primeiro – registros de um rap com estética underground, do nosso estado. Houve um tempo, onde artistas de bairros diferentes se frequentavam e colaboravam com cenários muito próprios, por exemplo, no caso do H.U.N duas escolas fundamentais para o rap de Salvador dialogavam e produziam o futuro. São Caetano e Cidade Baixa/Subúrbio Ferroviário. Não posso deixar de pensar como esse EPzinho serviu para mostrar possibilidades e formar também, outros tantos MC’s e beatmakers que anos depois iriam formar outros tantos projetos importantes para a nossa história. 

Diego 157
Capa do projeto Coletivo 071, idealizado pelo grande DJ Índio

Um ano depois, em 2007 Diego 157 colabora com outro projeto que não está sequer nas plataformas de streaming mas que é também um marco desconhecido de grande parte do público: O Coletivo 071. Imagine aí jovem incauto, Daganja, Dimak, Sereno, Fall Clássico, Spock, Aladdin, Diego 157 em um mesmo projeto? Pois é, é essa a “gang” poderosa reunida no EP Todo o “Dom que Deus nos Reservou”, por uma iniciativa do grande DJ Índio que tocou e produziu os beats.

Estes dois trabalhos guardam riquezas que deveriam ser de conhecimento público, porém estamos falando de uma época onde era muito difícil divulgar trabalhos, onde o acesso a tecnologia – hoje comum – era uma batalha. Mas, não faltava qualidade inventiva. Infelizmente, esses dois registros sumiram da internet com a queda do Myspace, porém se você ainda ouve MP3 como os antigos Incas, vou deixar um link para download aqui

Apesar do rap acontecer desde os anos 90 em Salvador, em termos fonográficos, é nos anos 2000 que se começa a moldar um modo próprio de se fazer o rap em nossa cidade e estado. Trabalhos como os dos grupos Quilombo Vivo, Júri Racional, Testemunhaz e OQuadro (Ilhéus) e a expressão nacional alcançada pelo Afrogueto, através do Prêmio Hutuz, lançaram as bases para um Rap orgulhosamente baiano e nordestino. 

Capa e contra capa do clássico disco lançado pelo Juri Racional – Por Todos os Meios Necessários em 2005

Em 2009, Diego 157 se junta a Spock MC e ao Man-Duin lançam o disco “A Cria Rebelde” de um dos grupos mais fodas da nossa história: “157 Nervoso”. Composto por 12 músicas, com participações de Aladdin e Léo Souza, trazia uma lírica que mesclava a ginga underground com ideias muito fortes de revolução social e denúncia política. Um disco que bate muito bem até hoje, como tudo que Diego colocou a mão, não possui data de validade. 

A passagem do tempo, e a atenção diante das mudanças históricas é sempre importante para não perdermos o bonde da história e muito menos nos tornarmos engessados. Escutar 157 Nervoso é voltar para um tempo onde o rap se constituía como uma verdadeira arma de luta político racial e de classe, onde se entendia que depois da raça, e que vivíamos em uma sociedade onde a burguesia nos esmaga através de diversas tecnologias de opressão. 

Diego 157

Em “A Cria Rebelde” o discurso é revolucionário e muito bem embasado, o trio de MC’s Diego 157, Spock e Man-Duin estavam longes de serem meros panfletários. O tempero singular baiano se deu pelas produções presentes no disco de nomes como Armeng, DJ Índio, de DJ Leandro e do próprio Diego. Muito próximos de outros grupos nordestinos como Clâ Nordestino e Gíria Vermelha, pregando morte a burguesia e o levante do povo preto, mas com identidade lírica e sonora próprias. “Enfia no cu a sua lei que nos garante liberdade, seu american way of life e a burocracia das universidades”, dá bem a visão política que permeia todo o disco. 

Apesar de todo o disco possuir uma coesão estética e não existir ao longo do play momentos de baixa, a música “Ancestrais” (prod. DJ Leandro) me parece um clássico do rap nordestino. Utilizando um sample de forró, a construção desse beat é aulas demais, e obviamente é acompanhado na excelência pelo trio de MC’s. Enfim, um clássico que para a sua sorte está presente nas plataformas de streaming.

Não bastasse em pouco tempo de carreira fonográfica, Diego 157, já ter marcado seu nome no cenário que hoje é história, ele também passa, a partir de 2009 a se tornar um dos melhores beatmakers do país. Finalista de concursos de beat com nomes hoje nacionalmente conhecidos como Coyote Beats e Efieli, ganhou concurso na cidade e participou da Liga dos Beats em São Paulo em 2010. 

Diego 157 Em 2009, o artista lançou uma mixtape: “Originais & Remixadas Vol.1” que trazia remixes de nomes do rap feito aqui no nordeste, com o clássico Inquilinus de Pernambuco, do sul com o paranaense Cabes, e de nomes como Emicida e Rodrigo Ogi. Nas palavras do Felipe Schmidt à época: 

“O projeto serve até como uma ferramenta para “educar” novos fãs do rap. É que Diego, antes de apresentar sua versão, solta a original. Outro ponto legal e digno de nota é a quantidade de artistas nacionais remixados, algo que não é muito comum por aqui. Das 12 faixas do trabalho, oito são made in Brazil. Mas, em meio a percussões brasileiras e samples tranquilos, é a voz infantil apresentando a mixtape do pai logo no início a parte mais emblemática da parada. E foi só o início, o prelúdio para a criatividade que transbordaria até o último segundo da audição. Enfim, fiquem com os remixes de Diego 157.”

Após a dissolução do 157 Nervoso, Diego 157 segue com Man-Duin com o projeto Niggaz com quem lançou uma outra pedrada em 2011, mais uma das gemas que só quem é de fato conhece. Os teleguiados pelo hype, os amantes de famosos, não conhecem. “Single’s” é exatamente isso, um agrupamento de singles com participações de peso como Daganja, Eleitos, Galf AC, Victor Duarte e Spok. Vou deixar o player marotamente aqui:

Este ano, outro trabalho essencial do Diego 157, que hoje se tornou um documento histórico, é o EP “Antes da Mixtape”, que completa 10 anos agora em 2025. Certamente, é um dos discos do rap nacional que mais ouvi na vida, no ano em que foi lançado lembro de sair de Macaúbas para o Planeta dos Macacos em São Cristovão ouvindo no repeat. E ao longo dos anos não perdi esse hábito. 

Porém, nunca resenhei mais profundamente esse trabalho, algo que farei daqui para o fim do ano, mas não posso deixar de apontar para o fato de que um dream team da rima participa desse disquinho. Nomes como Ravi Lobo, Galf AC, Baga, Xarope MC, Seth aka Jhomp (NPN), Brown Santana, José Macedo aka Zé Atumbi , Man-Duim e Oddish. Um EP pesado seja pelas participações, pelo próprio Diego 157 suas rimas e beats, dúvida? Dê o play:

A partir de 2015, o Oganpazan passou a registrar os trabalhos lançados por Diego 157, sejam os seus outros EP’s ou o excelente disco do coletivo Fraternidade Maus Elementos, outros tantos trabalhos que marcaram época do Rap baiano e nacional. Hoje, Diego completa 42 anos e segue como um dos pilares da nossa cultura. Esse pequeno perfil é um exercício de admiração, e um informativo para quem está de touca dentro e fora do Hip-Hop baiano, de que sim, temos um mestre vivo, produzindo, e devemos – que tem compromisso com essa cultura – louvarmos seu trabalho enquanto aqui ele está. 

Vida longa Diego, um brinde a sua vida e a sua obra, o rap e a cultura Hip-Hop baiana agradece. 

-Diego 157 Day! Porque devemos louvar esse mestre da nossa cultura!

Por Danilo Cruz 

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“Ágil”, Áurea Semiseria segue altiva ao longo de uma trajetória de 10 anos no rap! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/11/agil-aurea-semiseria-segue-altiva-ao-longo-de-uma-trajetoria-de-10-anos-no-rap/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/11/agil-aurea-semiseria-segue-altiva-ao-longo-de-uma-trajetoria-de-10-anos-no-rap/#respond Mon, 11 Aug 2025 21:57:27 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38851 Em um belo audiovisual, Áurea Semiseria apresenta uma reflexão sobre o seu corre nesses últimos 10 anos no rap e na cultura Hip-Hop.

Áurea Semiseria

Eu nunca vou esquecer do vozeirão que me arrepiou no Pelourinho cantando Zé do Caroço da mestra Leci Brandão, então chamada Áurea Maria. Era 2016 e de lá pra cá, pude acompanhar o desenvolvimento muitas vezes atomizado, dela que se tornou Áurea Semiseria. Muitas participações, cypher’s, e o primeiro EP Roxo GG (2017) – minha camisa segue aqui. Ser uma MC preta, gorda, LGBTQIA+ e nordestina não a impediu de chegar na Letônia, com escala na Inglaterra. 

Porém, é uma luta que muitas vezes parece ser inglória, sobretudo por conta de uma indústria que visa apagar produções como as de Áurea Semiseria, em uma cidade como Salvador que está mais para túmulo da música. Mas também, porque a maioria das pessoas tendem a esquecer o “corpus” de um trabalho construído ao longo de uma década, sem investidores e sem hype algum. 

Nestes últimos dez anos, tendo acompanhando de perto os movimentos do Rap baiano, não é exagero algum dizer que Áurea Semiseria é um dos nomes que foram responsáveis pela qualidade e diversidades de produções. Não é preciso lembrar que durante à última década surgiram e sumiram diversos artistas, talentosos também, mas que não seguraram o rojão da invisibilidade e não foram se ligaram para a necessidade de ser “Ágil”, neste jogo. 

Com uma rápida passagem pela Balostrada Rec., onde gravou e lançou duas track: Onze (prod. Owé) e o clássico contemporâneo TUDUDUDU (prod. 2Kike), Áurea veio se movimentando, buscando saídas para não estagnar e murchar. No ano passado lançou o seu primeiro álbum “Semiseria” com beats do El Lif Beatz, ÉoCROSSS e do Mu540. O disco trouxe feats da Iza Sabino, da Una e do Big Bllakk e apresentou uma concepção estética sólida e a sua versatilidade como MC capaz de rimar em qualquer tipo de beat. 

-Leia a resenha da nossa colunista Mara Mukami sobre o último disco da Áurea Semiseria!

Versatilidade que levou a artista baiana ao Brasil Grime Show, que esse ano a colocou no single “Isqueiro” junto a lenda Deize Tigrona. É essa a definição sobre ser “Ágil” e é de certa forma o tema do bonito audiovisual recém lançado por Áurea Semiseria e gravado no ancestral parque São Bartolomeu tendo a Pedra de Xangô como “cenário”. Com direção de Paulo Jordan e produção musical da dupla Saboya & OG Bahia, o single nos relembra que a MC de Cajazeiras pulou de revelação à veterana sem escalas, mas com muita luta.

O videoclipe publicado no canal da produtora Complexo Nine, é simples e certeiro, com uma produção muito bem feita. A música é uma reflexão destes últimos 10 anos no cenário do rap baiano e brasileiro, sobre as oportunidades e as concessões negadas pela artista. Ao mesmo tempo, afirma-se na luta apesar da vontade de desistir – algo que tenta a muitos artistas independentes – e a dificuldade de se manter no jogo.  

O beat swingado chegado pro boombap, linha na qual Áurea Semiseria começou, dialoga musicalmente com o jogo de cintura necessário para se manter na ativa, para enfrentar as dificuldades. E o que podemos concluir disso tudo é que a MC já está há muito tempo escolada, e seguirá dando aulas.  

-“Ágil”, Áurea Semiseria segue altiva ao longo de uma trajetória de 10 anos no rap!

Por Danilo Cruz 

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Dário Inerente em swingue crítico, “Bloco na Rua” é uma afirmação da força do Rap Baiano! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/06/dario-inerente-em-swingue-critico-bloco-na-rua-e-uma-afirmacao-da-forca-do-rap-baiano/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/06/dario-inerente-em-swingue-critico-bloco-na-rua-e-uma-afirmacao-da-forca-do-rap-baiano/#respond Wed, 06 Aug 2025 14:37:10 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38823 Diretamente do sul da Bahia, Dário Inerente lançou seu primeiro álbum, “Bloco na Rua”, em conexão com grandes nomes do Rap no Brasil!
Dário Inerente
Foto por Augusto Santos aka @method_av

Por mais que não se perceba, todo artista se insere em uma tradição e quando no ano passado ouvi as guias de “Bloco na Rua”, duas percepções distintas me assaltaram. A primeira delas é a óbvia associação com Sérgio Sampaio e o clássico de 1973, “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”. A segunda dizia respeito à diferença do Dário que conheci em 2020, por ocasião do lançamento de sua mixtape “Eterna Odisseia para a Luz”. 

No primeiro caso, Dário Inerente se insere em duas tradições, na rica história do boombap feito na Bahia e consequentemente no Brasil, e na relação virtual que o título do seu disco pode suscitar. Porém, ao ouvir “Bloco na Rua” e mesmo já no título, há uma diferença patente e de saída, algo que de certo modo atravessa todo o trabalho e que diz respeito a uma afirmação por parte do MC de Itabuna. Ninguém poderá dizer que ele dormiu de touca, que ele perdeu a boca, que ele fugiu da briga, que ele caiu do galho e não viu saída, ou que ele tenha morrido de medo quando o pau quebrou. 

A uma afirmação e não um desejo em “Bloco na Rua”, ele não quer colocar ele botou – lá ele – o seu bloco na rua, brincando, botando pra gemer, e sobretudo gingando. As 13 faixas que compõe o disco, das quais duas assinadas pelo Jedi, Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops, uma do Gxtv, uma do pedrvso e uma do Neto (Síntese) transpiram uma afirmação alegre, swingada e séria. 

O Dário Inerente de 5 anos atrás com 18 anos se transformou muito em termos estéticos e pessoais, perdeu o pai nesse ínterim, mas se conservou inteiro e se expandiu, encontrando conexões fora de sua cidade, Itabuna. Com seu primeiro álbum, o MC grapiúna nos mostra não somente a sua, como a riqueza e as possibilidades, muitas vezes não percebidas nem por quem está ao lado, do rap feito no sul da Bahia. 

Há uma tônica: “Boas ideias, diversão levada a sério”, que está presente neste “Bloco na Rua” enquanto uma busca de si mesmo em relação com o mundo. Algo que contagia o ouvinte atento, porque as boas ideias aqui estão a serviço de uma diversão que não seja uma alegria no vácuo, pelo contrário o bloco apresentado é um concentrado de poesia e rima, com swingue, com perspectivas de luta e sobretudo ancoradas no coletivo: “Hip-Hop com a mesma essência, mesma classe, uma nova roupagem”. 

-Leia a matéria que fizemos sobre a primeira Mixtape de Dário Inerente

Tem quem separe alegria de reflexão, corpo e espírito, estudo de diversão, dicotomias que ocidente implantou nos corpos colonizados. E obviamente, a indústria cultural faz uma festa, diante da fragilidade de concepção de que a arte pode e deve ser sempre alegria e reflexão, porque não existe arte que entristece, porque mesmo que ela cause incômodo, ela potencializa o nosso viver se estivermos abertos a pensar o que foi recebido.    

Com a potência do coletivo, perceba como Dário Inerente rima a morte do pai com o pandeiro e o passo bêbado de tristeza do equilibrista, e seguiu, “sem pedir, sem me humilhar, sem atrasar o lado dos outros”. Se isso não é uma bela afirmação de vida, eu não sei mais o que é. Esse é o seu “Abre Alas” onde o MC reza e assopra vida no loop do Barba Negra. E o bloco segue desfilando dessa vez em um beat elegantérrimo do Gvtx, um groove jazzy em “Saber Chegar”, onde o ethos da prudência diante da “Vida Puta” é a malandragem que faculdade não ensinam, mas que é extraída das ruas e sobretudo de uma relação diante da alteridade. 

Dário Inerente
Foto por Augusto Santos aka @method_av

A costura do caos, ao “Estilo do Bairro” produção do Neto (Síntese), traz um beat mais cadenciado, onde o Dário Inerente mostra que também compõe bons refrãos: 

A verdade na pupila, identidade não tá no RG, a minha ira, não paga pra ver, o hype vai o real fica, o instinto e a malícia, pra esquivar da maldade, muita ginga

Em seus versos, Dário Inerente consegue – sem didatismos – entregar pensamentos profundos com uma leveza poucas vezes vista, e que não são frases soltas: “ele tem tudo orquestrado, o fundamento, um pensamento blindado”. Aqui em “Estilo do Bairro”, a estrutura dos versos, vai entregando ao ouvinte a formação e as intenções do MC em um pêndulo que trabalha em um zigue-zague temporal, enquanto o beat marca não somente o tempo, mas também o espaço. Note como ele começa com tudo pronto, mas volta pra infância adolescência (meu jeito estranho, me fez muito mais ágil) e segue nessa toada. 

Apesar de contar com o reforço de grandes produtores, Dário Inerente também produz e o beat de “A Todo Vapor” é dele. Essa é mais uma faixa presente no disco que o amarra tematicamente, hoje é comum ver e até mesmo, se tornou uma distinção simbólica anunciar álbuns conceituais. Muito crítico, bunda mole, e uma parte incauta do público ao ouvir conceitual se mija de emoção. Mas muitas vezes são incapazes de julgar a adequação entre o proposto e o executado, por outro lado essa mesma classe não consegue apreender as soluções de continuidades bem construídas, quando não se fala conceitual.

Neste disco, o conceito – apesar de não ter sido anunciado – avança não apenas com jargões mas através da construção poética e rítmica, como um glorioso desfile da cultura Hip-Hop. A rigor, não existe disco conceitual, pelo menos não na música pop, o conceitual foi utilizado para dar conta de disco que possuíam uma unidade estética e narrativa, que se distinguia dos discos como mero agrupamento de singles. Dário Inerente, com o seu “Bloco na Rua” transforma a poesia das ruas em cordão que unifica o seu/nosso movimento de escuta. 

-Leia no site a matéria que fizemos sobre os singles audiovisuais lançados pelo Dário Inerente 

Os riscos do DJ Noé, a cadência contagiante do beat, mas sobretudo a poética do Dário nos carrega por entre sua vida e sua arte, nos colocando na posição de foliões deste Bloco. Note-se novamente e perceba-se como o movimento é algo sempre constante, quando novamente Dário cita a morte do pai não em termos de fim, mas de partida – para o mistério e o desconhecido – que lhe alimentou a ser esse que por onde passa, bagunça, e que faz da vida esse caminho de quedas e vôos, de coletas e entregas, porém “A Todo Vapor”, independente das velocidades ou lentidões.

Dário Inerente
Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops aka MC Ralph

Prova disto é a faixa seguinte “Nas Esquinas”, mais uma cortesia do Barba Negra, onde Dário Inerente prossegue blindado em suas palavras por um universo de referência que vai do escancarado Chico Science – já na intro –  a reelaborações poéticas: “a minha fé que eu amolei tal qual a faca mais fina” – “Fé Cega, Faca Amolada”. Diretamente do underground do underground, ou seja, do interior de um estado nordestino, o movimento prossegue e a substância é o carnaval, a força festiva supramencionada, que Dário Inerente toma de empréstimo, para o seu “Bloco na Rua” de afectos e perceptos. De ideias críticas e de construção poética que não almeja o hype, mas a verdade. 

Uma boombpera nojenta, com acentos jazzy, cortesia do monstrinho pedrvso que sobe novamente os bpm’s, é a avenida em “Camisa 10”. Longe de atualizar inimigos imaginários, como muitos rappers fazem hoje, nesta faixa Dário Inerente aponta sua caneta como vendeta, contra uma pá de otário plastificado, e a polícia genocida. Mas, perceba que é o movimento que conduz a crítica, com os riscos do DJ Noé que presentifica nomes como Marcelo D2, Parteum, OQuadro e GOG. 

Único feat do disco com um MC, Dário Inerente convida Davzera, em um diálogo entre Itabuna e a capital, banhado de “Dendê”. Em mais um beat de sua própria autoria, o grapiúna tempera suas rimas com bastante apuro e a força dos orixás. O já conhecido e aclamado no underground brasileiro flow e construção do Davzera se faz presente. No skit que se segue, tem uma reprodução de uma fala de Elis que é famosa: “Eu dou o tiro, quem mata é deus”. 

Dário Inerente
Foto por Augusto Santos aka @method_av

O Skit em questão chama-se “Coisa de Espírito”, e pescando essa frase de Elis, mais do que concordar com a relação possível de causa e efeito, entre o tiro e a vontade de deus, me parece que é a intenção do Dário Inerente que conta aqui. Anos luz de distância de dizer que vai vencer e pipipopopo, ao longo do disco o artista deixa claro que sua intenção é viver com dignidade da sua arte, mas que entende como funciona a indústria e lança sua flecha para o universo, quem tiver condições que a aceite. 

Seguindo “Atento e Forte”, em mais um beat próprio e um dos que achamos mais foda no disco, o MC novamente não se contrapõe, convoca: “quero ver você” e enumera seus obstáculos e hábitos. “Eu já ganhei desde o começo ao entender que isso não é um jogo” canta Dário Inerente no loop de sua autoria e que fecha o disco: “Minha Arma (Outro)”.  “Enquanto eu passo é meu bloco” ele rima em outro momento numa faixa anterior. 

O fim do desfile não é a morte do movimento que percorre todo o excelente trabalho entregue pelo Dário Inerente em “Bloco na Rua”. Estamos de fato, diante de um disco de estreia que como dissemos no começo, se insere em uma tradição e nesse processo este disco é já um dos motores da cultura Hip-Hop no Brasil e em Itabuna. A riqueza que ele traz é também fruto do cenário em que se desenvolveu, e em um processo dialético e de formação, Dário coloca Itabuna no mapa do Rap no país. 

Como sabemos que há muitas vezes por má vontade, problemas de interpretação, vou reformular. Dário Inerente carrega em seu trabalho Itabuna, pois foi lá que ele se formou, junto a outros MC’s e como continuidade de uma tradição que lhe é anterior. “Bloco na Rua” é um disco que traz no nome esse movimento, o bloco posto – Tradição – foi colocado mais uma vez em movimento, e nos parece que o grande mérito desse desfile, além da grande qualidade individual e do esforço coletivo, foi trazer todos os seus e a sua cidade junto.    

-Dário Inerente em swingue crítico, “Bloco na Rua” é uma afirmação da força do Rap Baiano!

Por Danilo Cruz 

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Santa Cena, a importância da força coletiva negra e periférica no cenário do rap sergipano! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/04/santa-cena-a-importancia-da-forca-coletiva-negra-e-periferica-no-cenario-do-rap-sergipano/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/04/santa-cena-a-importancia-da-forca-coletiva-negra-e-periferica-no-cenario-do-rap-sergipano/#respond Mon, 04 Aug 2025 16:38:56 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38811 O coletivo Santa Cena no cenário do rap sergipano, nos convida a pensar sobre a importância da perspectiva coletiva no Hip-Hop!

Santa Cena

 

As últimas movimentações do Santa Cena, coletivo de Sergipe, deixam claro que o grupo segue firme na sua proposta de valorização da juventude preta periférica. Os laços que fizeram com coletivos de fora da capital são a prova cabal disso, Primeiro, com a Exorbitmob, mob de Itaporanga d’Ajuda, foi lançado o clipe de ‘Urubus’. Depois, com a Street79, da Barra dos Coqueiros, lançaram a cypher Tétano Clã. Em ambos os casos, o que o Santa Cena faz é juntar forças e recursos com verdadeiras potências do rap sergipano. Apesar disso, para entendermos melhor o que é o Santa Cena e a virada de chave que representa, analisaremos o primeiro álbum da mob.

Há pouco mais de um ano, no dia 13 de abril de 2024, foi lançado o álbum ‘Santa Cena é o trem’. O projeto contou com 10 faixas, além de uma introdução não musical e reuniu 19 artistas, de dentro e fora do Santa Cena. Só de mc’s, foram 10, DLOK, NDS Hiata, Black Ice, Manu Caiane, Dani DK, Mali, BW, Weiny, Lubrisa e NG Lampião da Rima (também responsável pela articulação).

O time ainda contou com a presença de Eufórico, Duck e Oldproduções na produção fonográfica, mix, master e captação de vozes; Camila Geovana e Precioza na produção geral; Felipe de Jesus na fotografia; Somb e Dalvam Dexter na capa; e, por fim, Luan Allen, responsável pelos setores de identidade visual, articulação e capa. Um projeto grandioso e que, apesar de jovem, tem entalhado no corpo as marcas de um passado mais longínquo.

Junto a faixas inéditas, o projeto reúne os sucessos já conhecidos. Por isso, a história do álbum é indissociável da história do próprio coletivo. E de fato, a ideia do álbum surge com o nascimento do próprio Santa Cena. É isso que nos diz Luan Allen: 

Santa Cena
NG Lampião da Rima durante gravações

“A ideia de criar o álbum surgiu logo nas primeiras reuniões entre eu e Lampião da Rima, ainda no início do Santa Cena. Esse conceito inicial foi tomando novas formas e possibilidades quando começamos a dialogar com outros agentes. Mas foi no terceiro momento, com a chegada da produção musical de Eufórico e Duck, que o projeto realmente alcançou sua forma definitiva.”. 

Assim, para entendermos o que o projeto representa, precisamos, antes, entender o que o Santa Cena representa. E para isso, as palavras de NG Lampião da Rima nos fornecem uma luz: 

“O Santa Cena representa a pura verdade, a pura garra, correria, vontade de viver de um sonho, um futuro novo, um novo amanhã. Santa Cena representa quem é descredibilizado pelos seus sonhos, pelo seu corre.”

E por isso, ainda nas palavras de Lampião, em entrevista para o podcast Desdobro: “Principalmente qualquer lugar do estado, qualquer lugar do nordeste, aonde tiver uma favela, aonde tiver uma quebrada, um sonho, ali vai ter um Santa Cena”.

Sediado no Santa Maria, o bairro que dá nome ao Santa Cena, alguns anos atrás sequer poderia ser chamado de bairro. Antigamente conhecida como Terra Dura, a localidade na qual se situa o bairro sempre foi alvo do descaso governamental e por isso sempre foi vista de forma estigmatizada por grande parcela da população aracajuana. O atual nome do bairro foi tirado do canal Santa Maria, que serviria de ligação entre os rios Poxim e Vaza barris, mas sua construção foi abandonada em 1902. Além disso, em 1988 o local passou a servir de aterro sanitário, suprindo a necessidade do município após a desativação da lixeira do bairro Soledade.

Em resposta ao estigma generalizado acerca da Terra Dura, o Santa Cena nasce como uma ferramenta de perspectiva. Não é proposta do coletivo mascarar a realidade do Santa Maria ou de qualquer outra quebrada dos seus integrantes, mas vê-las de um ângulo pessoal, que revela a beleza e potência desses lugares. A depender de com quem se converse, o Santa Maria sempre será lembrado como um aterro sanitário, mas se mudarmos nosso interlocutor, saberemos que a Terra Dura é terreno fértil e como disse o Racionais Mc’s: “Até no lixão nasce flor”. 

Santa Cena
Luan Allen

É daí que surgem Luan Allen e NG Lampião da Rima. Fundadores do Santa Cena, as  carreiras dessas duas potências da pretitude periférica se confundem com a história do Santa Cena. No caso de Luan, apesar de já trabalhar como videomaker de alguns nomes do rap sergipano, e de outros gêneros, é no Santa Cena que seu trabalho alcança um novo patamar técnico e de reconhecimento: 

“Depois que o Santa Cena nasceu, muitas responsabilidades surgiram junto, e outras demandas que fui entendendo durante o processo – desde questões de relações até burocracias voltadas a músicas, eventos e estratégias. Mas isso também trouxe muito retorno positivo enquanto movimento. Recebi muitas falas sobre como o Santa Cena trouxe uma nova perspectiva de organização, de visibilidade para artistas e conceitos. Minha carreira ganhou um novo peso depois de todos esses trabalhos.”. 

No caso de NG, um dos maiores nomes do rap sergipano, senão o maior, sua carreira já caminhava com rentabilidade antes do Santa Cena. O mc é cria das batalhas de rima, já foi campeão estadual e disputou o regional, já vinha consolidando o seu trabalho enquanto mc de estúdio e participou de músicas extremamente relevantes pra cena local, como Sergipe Gangstar da F.B.S. (Família Bocas Secas). É inegável, contudo, que seu trabalho é realçado a partir de sua parceria com Luan Allen. Se antes disso a sonoridade de NG já era impecável, agora também o seu audiovisual é. E isso permitiu a criação de clássicos instantâneos do rap Serigy: os clipes de ‘Flow Lampião’ e ‘É a rua’ e toda a união sonora e estética do álbum ‘NG tá em kasa’.

Apesar de sediado no Santa Maria, não é só de lá que os integrantes do Santa Cena vieram. Durante seus anos de existência, o grupo já contou com dezenas de artistas e colaboradores de diversos bairros e cidades do estado. como é o caso de BW e Mali. Vindo do Castelo Branco, BW é um dos artistas mais influentes da cena. Sua estética de drill seria exemplo para outros artistas e o mesmo pode ser dito de sua estética audiovisual, especificamente no clipe de Saweetie. O artista iniciou no Santa Cena logo no início da sua fundação e fala um pouco sobre o que o álbum representou para a sua carreira:

“O álbum reuniu artistas de cada uma das 4 zonas da cidade e estado, então são vários mundos, e a proposta do álbum era abranger diversas temáticas e permear várias estéticas, então foi algo realmente importante e notório para minha carreira. Máximo respeito, só colaboração incrível junta!” 

Santa Cena
BW

Mali, por sua vez, é natural de Estância e nos fala um pouco da importância do Santa Cena para sua carreira: 

“Entrei no Santa Cena a convite de NG e de Luan, e foi uma oportunidade do sonho de artista, trabalhar profissionalmente se tornar real, de não precisar produzir beat, me gravar e compor sozinha, pois era a perspectiva única de melhorar enquanto artista. Além disso, o reconhecimento da minha arte como potência pra compor o Santa Cena elevou minha auto-estima e afirmou minha identidade”. 

Santa Cena
Mali

Assim, fica evidente que o lugar no qual nasce o Santa Cena é muito mais espiritual que geográfico. A vivência no Santa Maria é experienciada para além do espaço no qual o bairro se localiza e isso permite que exista mais proximidade entre as vidas de jovens pretos periféricos do que distância entre suas moradias. Com isso, a sede do Santa Cena deixa de ser um lugar físico para se tornar um lugar interpessoal no qual coexistem artistas do Santa Maria, Castelo Branco, Rosa Elze, São Conrado, Barra dos Coqueiros e por aí vai. Porque, de certa forma, todos residem no mesmo bairro, cidade, estado ou país, que é a periferia, local ou globalmente! 

Santa Cena
Camila Giovana

Não é à toa que o álbum, e os visualizers que ele gerou, contou com a presença massiva de agentes periféricos em todas as etapas de produção, até os mais altos postos de articulação. Camilla Giovana é produtora executiva do Santa Cena, foi produtora geral do projeto e nos conta um pouco do que a concretização do álbum representa pra ela:

“Representa o poder da transformação de perspectivas em relação à história do Rap Sergipano e aos profissionais que atuaram na produção do álbum. Esse lançamento contribuiu para que eu me enxergasse enquanto uma real produtora e me fez sentir capaz de alcançar/almejar outras colocações.” 

Algo semelhante é dito por Precioza, que, junto com Camila, foi produtora geral do álbum: 

“O álbum teve um impacto positivo, principalmente por me fazer ser reconhecida dentro de um cenário majoritariamente masculino. Foi uma das primeiras vezes que isso aconteceu, ainda que de forma sutil.”

A importância do Santa Cena, então, é evidente. Não só por reunir agentes pretos periféricos em seu entorno, mas por possibilitar a existência de suas carreiras. E isso ocorre tanto no caso de quem fica por trás das produções, como quem fica à frente delas, e quanto a isto, eufórico (eufo) e NDS Hiata são ótimos exemplos. Para eufo, sua entrada no Santa Cena foi marcada pela insegurança: 

“Minha entrada no Santa Cena foi mais um desafio pra mim, porque eu entrei e não sabia nem pilotar o FL [programa de produção musical] direito. Na minha cabeça, eles iam ver que eu era amador pra carai no bagulho e me tirar.” 

Quanto a NDS, o artista já tinha um trabalho reconhecido como mc e produtor, chegando a fazer o beat de diversas músicas de Bidu, um dois maiores nomes do rap sergipano, mas é com sua entrada no Santa Cena que ele lança o grosso do seu trabalho enquanto mc. Singles, videoclipes, a participação no álbum do Santa Cena e o lançamento do seu primeiro álbum. O convite para participar do coletivo foi como um resgate da sua carreira artística:

 “No tempo eu tava também passando por alguns problemas e estava meio afastado da música. Eu digo que o Santa Cena me resgatou. E aí, mano, foi só sucesso. Vários projetos passaram pra nós tudo certinho. Saiu meu primeiro trampo que foi o  Cypher. Depois da Cypher foi só porradeiro.”

Quem já foi ao Bate Cabeça do Santa Cena sabe que “porradeiro” é a palavra mais certeira que NDS poderia ter escolhido. Capturado pela lente de Somb, o evento inunda a DOCA, não só de pessoas e de clássicos do coletivo, mas também de sentimento. A auto-estima e a euforia são registrados nos olhos, sorrisos e vestuários de quem participa do show. Ao som de ‘É a rua’, a DOCA treme como se uma locomotiva passasse por cima. E assim, o Santa Cena faz jus à alcunha que dá nome ao álbum. Sobre isso, o próprio SOMB nos relata o seguinte: 

“Eu enxergo que o Bate Cabeça do Santa Cena é algo muito importante pra nossa cena. É como se fosse uma voz, meio que pra dizer que estamos aqui, porque representa muito os artistas negros e periféricos. O que minha lente vê nesses Bate-Cabeça’s é essa forma de ocupar, essa forma de o Santa Cena mostrar que os jovens negros periféricos têm capacidade de ocupar todos os espaços.”

Não é difícil definir o Santa Cena, e justamente por isso é fácil perceber a sua força. Santa Cena é um coletivo de jovens pretos periféricos que viram na própria realidade à sua volta uma possibilidade de mudança e o álbum é um marco da operacionalização dessa mudança. 

Toda a representatividade periférica que o Santa Cena traz em tudo o que faz é fruto de um ideal comum, a vitória do povo preto periférico. Por isso, o Santa Cena é também um movimento, de corpos, sentimentos e ideias. Todos juntos com um único propósito e vontade, sem que isso ocasione a negação de suas raízes e as suas singularidades. Nessa perspectiva, Santa Cena é o futuro, o presente ou mesmo o passado, mas, antes de tudo, Santa Cena é o trem.

-Santa Cena, a importância da força coletiva negra e periférica no cenário do rap sergipano!

Por Marcos Roberto 

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