Resenha – Oganpazan https://homolog.oganpazan.com.br Oganpazan Fri, 22 Aug 2025 07:11:56 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 Cocoa Tea, um dos grandes mestres do dancehall, lançava 5 pedradas há 40 anos! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/cocoa-tea-mestre-do-dancehall/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/cocoa-tea-mestre-do-dancehall/#respond Fri, 22 Aug 2025 07:11:56 +0000 http://oganpazan.com.br/?p=16131 Cocoa Tea Um dos grandes mestres do dancehall, em 1985 estreou com uma enxurrada de discos geniais mas que infelizmente são pouco conhecidos

Cocoa Tea

 

A rica história da música jamaicana tem em Cocoa Tea um capítulo importante e fundamental para todos os admiradores dessa cultura linda e resistente. Frutos que vem da pequena ilha que não cessa de nos dar presentes maravilhosos, apesar de tudo. Frutos que foram decisivos para o desenvolvimento da música mundial, algo reconhecido por todas as almas sensíveis a grande música negra proveniente da Jamaica que floresceu em diversos outros gêneros.

Mas por incrível que pareça, foram os branquelos do Sublime que nos levaram ao grande mestre do Dancehall. Cocoa Tea foi uma das muitas fontes nas quais a banda californiana bebeu, assim como Bob Marley e Toots & The Maytals, outras fortes influências jamaicanas em sua música.

O Sublime é uma banda californiana que apareceu pro mundo com o estouro da música Santeria na MTV, um clipe do excelente terceiro disco homônimo lançado em julho de 1996, três meses após o seu vocalista, guitarrista e compositor principal morrer. Foi através de uma música do excelente 40 Oz To Freedom (1992), que numa audição alguém – a memória queimou – citou Cocoa Tea, obrigado mesmo assim. 

Obviamente, tendo aprendido cedo a lição de que é preciso burlar a industria cultural e ir beber direto na fonte,  corremos atrás dessa referência, e nessa caminhada já se fazem algumas décadas que curtimos muito a música genial, feita por mais esse mestre jamaicano. 

Nascido como Calvin George Scott em 1959, em Rocky Point, Claredon, o jovem Calvin entrou para a escola primária em sua cidade e seguiu depois seus estudos, na escola secundária Bustamante Junior na localidade de Lionel Town. Já muito cedo o pequeno Calvin se destacou nos corais de igreja onde passou e essa exposição o levou a gravar a primeira música, Searching In The Hills (1974) com apenas 14 anos.

Essa estreia prematura, que não trouxe sucesso nem dividendos não lhe encorajou a seguir a carreira da música, e sendo assim Calvin Scott seguiu sua vida, exercendo as profissões de jockey e pescador durante os próximos 5 anos. Mas a música falou mais alto, e enquanto pescava ele começou a organizar sua carreira musical. Passou a escrever suas músicas e testá-las nos bailes, onde aos poucos começou a ser valorizado com sua arte. Cocoa Tea foi o nome artístico adotado pelo artista, proveniente de sua paixão por chocolate quente. 

Henry Junjo
Henry “Junjo Lawes & Barrington Levy

Mas foi o nascimento de sua primeira filha Rashane, que lhe trouxe à consciência a necessidade de firmar uma carreira profissional na música. Depois de muitos treinos e já escrevendo material próprio, em 1983 depois de esculachar numa apresentação épica num dos Dancehalls que frequentava, atraiu a atenção do produtor Henry “Junjo” Lawes. Dessa parceria nasceria logo a seguir grandes clássicos do Dancehall jamaicano. 

Entre os anos de 1982 e 1985, é possível afirmar que Cocoa Tea desenvolveu o seu estilo musical, e soltou uma excelente sequência de pedradas como singles. Grandes sucessos como Lost My Sonia(1982), Rocking Dolly (1983), Who A The Champion (1984) e Christmas Is Coming (1984), foram aos poucos moldando os ouvidos de geral para a arte que Cocoa Tea, firmaria definitivamente em 1985.

Ano importante profissional e espiritualmente, para o artista, foi exatamente no meio da década de 80 onde Cocoa Tea estreou com seus primeiros LP’s, ao mesmo tempo em que se convertia ao modo de vida Rastafari. E, não estamos falando de qualquer estreia, estamos falando de nada menos que 4 discos oficiais lançados em 1985 e mais uma copilação de batalhas. Essas cinco pedradas completam 40 anos de lançamento em 2025.

A cultura fonográfica jamaicana implica que muitos discos de um mesmo artista, às vezes sejam lançados como meras copilações de singles, e no caso de Cocoa Tea não foi diferente. Porém, desses 5 discos, apesar de termos alguns singles se repetindo de um disco para outro, para aproveitar a popularidade alta de alguns de seus hits, o material original se impõe entre esses lançamentos. 

R-1940150-1260955610.jpegCocoa Tea – I Lost My Sonia (1985)

Uma verdadeira copilação de grandes sucessos, certamente esse primeiro disco fruto da parceria entre Junjo Lawes e Cocoa Tea, é um dos discos mais marcantes da cultura dancehall. Daqueles álbuns, em que colocamos e seguimos ouvindo no repeat, pois além dos clássicos Rocking Dolly e Lost My Sonia temos outras grandes músicas, como Informer e Evening Time, por exemplo onde o grande mestre mescla com sua genialidade a rapidez no flow e a doçura de sua voz. 

Disco lançado pela pequena gravadora Volcano, operada naquela altura pelo produtor Henry “Junjo” Lawes, o selo que era distribuído pela Sony também gravou nomes importantes da cultura dancehall como Yellowman, Beenie Man e Eek-A-Mouse, entre outros grandes. Infelizmente, não conseguimos informações mais aprofundadas sobre a banda que o acompanha nas faixas que compõem o disco. Mas, apesar de muitos sites apontarem que a copilação, essa sim, uma coletânea Rocking Dolly (1986) ser o primeiro disco do artista. É aqui, que o mundo conheceu o primeiro disco cheio do mestre jamaicano. 

R-3474332-1466279928-7714.jpegCocoa Tea – Weh Dem A Go Do… Can’t Stop Coco Tea (1985)

Segundo disco em parceria com o Junjo Lawes, mais um lançamento pela Volcano, temos aqui a repetição de muitos dos sucessos presentes no disco anterior porém com o acréscimo de algumas faixas inéditas. Entre essas músicas inéditas, um excelente exemplo da delicia que é ouvir a música de Cocoa Tea, é a terceira faixa, Jah Made Them That Way. Um reggae mais tradicional, onde a doçura da voz do jamaicano vem a tona com uma força incrível, daqueles reggaes feitos pra dançar coladinho no amor. Outra pedrada hipnótica, é a quinta faixa presente no disco, Can’t Stop Cocoa Tea, que deixa-nos bastante claro, o porque. Rimando com suavidade e muita malemolência, o mestre vai nos envolvendo com uma tranquilidade deliciosa.

Um single não inserido na sua estreia, On Top Of The World, chega pesado nesse disco, originalmente lançado num 12″ junto a Christmas Is Coming em 1984, aparece somente aqui como a penúltima faixa da bolacha. Fechando a sequência de 10 pedradas na sequência, o nosso capacete é atingido por outra pequena perola com Chalice Nuh Fi Ramp With. Um segundo disco que mesmo que contando com pelo menos metade das músicas já lançadas no album anterior, não pode ser visto como apenas mais uma coletâneas.   

As quatros músicas inéditas contidas na bolacha já são mais do que motivos suficientes para se apreciar essa maravilha sem moderação. Além do fato, de que esse é um dos poucos discos que estão presentes na integra nos tão festejados streamings e com uma boa qualidade de remasterização. 

CapaTenor Saw / Cocoa Tea – Clash (1985)

As batalhas, as disputas são algo fundamental dentro da cultura da reggae music, desde as disputas dos sound systems que buscavam esconder, uns dos outros os selos dos discos que tocavam ali pelos anos 50 e 60 até as batalhas dentro dos mesmos bailes. E obviamente, os deejays não ficariam de fora, e é dentro desses contextos que surgem os discos de Clash (batalhas), onde performances de dois ou mais artistas do dancehall são copiladas.

Aqui, Coco Tea possui 3 músicas e o outro grande nome do dancehall Tenor Saw, outras três cançoes, onde as músicas são intercaladas por performances dub de artistas não identificados. Os riddims utilizados aqui por Cocoa Tea, diferentemente dos dois primeiros discos, já possuem muitos elementos da música eletrônica que então começava a ser a base para os riddims originais.

O disco lançado originalmente pelo selo inglês Hawkeye Records, é ao que consta o terceiro lançamento desse ano mágico para o artista. As músicas presentes do mestre Cocoa Tea são: Nah Give Up, You and I e My Time, e são exemplos de sua grande qualidade e originalidade, pouco conhecidas as faixas, mas facilmente encontráveis em programas P2P de download de mp3.

R-1430821-1439320237-2588.jpegCocoa Tea – Mr. Cocoa Tea (1985)

Terceiro disco do mestre “Calvin Scott” e primeiro de uma sequência de três que gravaria junto ao produtor King Jammy’s, Mr. Cocoa é mais uma coleção impressionante de grandes pedras do dancehall. Nas mãos do grande produtor King Jammy, Cocoa Tea recebeu nos riddims que utilizou aqui, toques de dub e outras timbragens que podem ser facilmente identificadas pelo ouvinte. Marcando assim uma nova fase em sua carreira.

Lançado pela Corner Stone, gravadora do King Jammy’s, é também de algum modo o primeiro disco onde Cocoa Tea começa a trazer em suas letras a força da sua conversão ao Rastafarianismo. Aqui vale a pena notar, que os dois primeiros discos lançados em 1985 traziam ainda composições mais antigas de 82 a 85, e nesse sentido, Mr. Cocoa Tea, é o primeiro disco do mestre a refletir de modo sincronizado seu momento politico e espiritual.

As canções deste disco não tiveram o grande sucesso, das que estão presentes nos dois primeiros discos, mas são pedradas de igual valor, com destaque para as linhas de baixo ressaltadas nas produções do King Jammy’s. Músicas como Come Back, We Haffi Leave e I’ve Got To Love You Jah, mostram isso na aproximação ao classic reggae.

Destaque para Sweet Coco Tea, novamente uma daquelas onde as qualidades mais fortes do canto e do flow do artista jamaicano ficam mais aparentes. Outra nessa linha é a Try a Thing, que é só chuva de groove fechando o disco com metais adicionados, é prova de que o mestre não viveu neste começo de poucos hits, mas sim de uma obra muito consistente.

R-5081249-1449363365-7709.jpegCocoa Tea – Settle Down (1985)

Segundo lançamento pela Corner Stone e com produção do King Jammy’s, que ainda produziria Come Again (1987). Esse é oficialmente o quarto disco da carreira de Cocoa Tea, e é surpreendente o quanto esse artista produziu e lançou em apenas um ano. Durante esse passeio pelos seus quatro discos oficiais e mais a copilação junto ao Tenor Saw, a impressão que fica é que Cocoa passou seu tempo enquanto pescava planejando com maestria os caminhos que seguiria. Pois, com quatro lançamentos oficiais, o artista não deixa a peteca cair em momento algum, a qualidade e a variedade de sua arte não conhecem meio termo, pelo contrário, disparando para todos os lados, trabalhando com grandes produtores, ele firmou seu nome na história do reggae de modo definitivo.

Don’t Be Shy é certamente um exemplo de que hits são construções feitas por muitos fatores que estão além da música, pois essa é uma canção que esta no mesmo nível de suas mais conhecidas produções. Outra música presente nesse disco e que confirma a mesma linha de pensamento, é a maravilhosa I’ve Got To love You, uma pérola que reflete o momento de conversão do músico. Música que nomeia o disco, Settle Down também é outra pedrada que traz fortes mensagens sobre a religião rastafari.

Ao longo das oito canções presentes em Settle Down (1985), mas sobretudo durante a audição desses primeiros discos do mestre Cocoa Tea, é indelével a certeza que esse é um artista que precisa ser redescoberto. E que fique bem escuro, aqui estamos apenas diante da estreia, o primeiro ano de lançamentos de discos cheios do artista jamaicano, que ainda estouraria pro mundo inteiro e que seguiria produzindo a todo vapor. Infelizmente, esse grande mestre faleceu no dia 11 do mês de março deste ano, mas obviamente sua obra é imortal.

Desejamos que essa introdução a obra do Cocoa Tea lhes instigue a descobrir mais outras pérolas desse grande artista jamaicano:

-Cocoa Tea, um dos grandes mestres do dancehall, lançava 5 pedradas há 40 anos!!

Por Danilo Cruz 

 

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Relvi & Traumatopia, MC e DJ virados na “Peste”, diversão garantida… https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/relvi-traumatopia-mc-e-dj-virados-na-peste-diversao-garantida/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/relvi-traumatopia-mc-e-dj-virados-na-peste-diversao-garantida/#respond Wed, 20 Aug 2025 18:30:39 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38884 Diretamente de Curitiba, a dupla Relvi & Traumatopia fizeram um disco onde as 13 músicas mostram a afinidade essencial!

Relvi

 

A parceria entre Relvi & Traumatopia tem nos entregado excelentes discos desde 2023, primeiro com “Cinza com Azul Mesclado” e depois no mesmo ano com “A Guerra Que os Heróis Não Sabem”, este último junto ao Galf AC. Dois discos que nós resenhamos na altura do lançamento, e quem acompanha meu trabalho sabe que o Traumatopia é um dos, senão o beatmaker que mais me impressiona atualmente, mas cordialmente devo discordar dele, “Peste” é sim, também um disco de festa.

Inclusive, estou tendo dificuldades para escrever enquanto escuto o disco, pois a produção musical – independente do bpm – faz o corpo responder. Por exemplo, começou a tocar agora “Miradouro”, como ficar parado ouvindo esse beat? Fica aí o questionamento. Nos parece que a questão é outra: quem hoje está a altura de uma festa do “Peste”? Quem hoje é capaz de se divertir seriamente? Afinal, é sempre bom lembrar: Diversão é coisa séria!

Nos últimos anos, principalmente após 2015, vendeu-se a ideia de que o rap tinha que falar merda, ou ser algo aguado para que seja melhor digerido e “curtido”. A música preta já passou por isso, quando o Bebop foi vendido como uma música “intelectual”, para pensar, e não para dançar, não para se divertir – como antes eram as orquestras de Swing. O que é uma visão eurocêntrica, que separa a mente do corpo. Onde o intelectual é o sério, o relevante, e a diversão é irracional e superficial, em uma dualidade que nos remete ao que de pior a Europa e o colonialismo nos relegou. 

Com “Peste”, a dupla Relvi & Traumatopia produziram um disco que alia muito bem essas duas perspectivas, e onde a música seduz corpo e mente, como ocorre em grandes obras. O disco lançado pelo selo – com projeto de dominação mundial – “Sujoground”, balança com a excelência da produção do Traumatopia ao longo das suas 13 músicas, com o Relvi recheando as batidas de flow e ideias e contando com as participações dos MC’s Cabes, Will Santos, Galf AC e Alienação Afrofuturista.

A faixa de abertura dos “Peste” traz o emblemático título de “Construção” e vai na contramão dos discursos ilusórios de uma metafísica neoliberal que pretende ofertar recompensas provenientes de um céu do capital, onde se chegará por mérito próprio. A faixa construída com um loop hipnótico de guitarra, made Traumatopia, elabora uma outra visão de mundo, onde o coletivo e as alianças, junto com muito trabalho: “Carrega a massa subindo a construção”.

E o concreto utilizado na faixa seguinte, e ao longo de todo o disco, é não o resgate de uma estética, mas a atualização da pertinência do boombap como espaço de pensamento e diversão. Muitas pessoas não prestam atenção à importância das palavras como ferramentas do pensamento, e não é incomum vermos a utilização de termos como evolução, a frente do tempo, avançado, e outras denominações “temporais” que pretendem dar conta da avaliação de trabalhos e artistas. 

Mesmo entre figuras destacadas do cenário brasileiro, é possível por exemplo ver críticas à utilização de “palavras difíceis”, como se fosse necessário e mesmo desejável o empobrecimento da linguagem para que a comunicação dentro do campo da arte, seja vitoriosa. Falo disso aqui, porque no campo da arte não existe evolução, há desenvolvimento técnico e criativo, da mesma sorte que não há artista à frente do tempo, o que existe muitas e muitas vezes é um público empobrecido cognitivamente e embotado afectivamente, por conta de nossa história de desigualdade social, econômica e política e pela massificação da indústria cultural. 

Relvi
Relvi & Traumatopia

Neste sentido, o retorno do boombap aos holofotes possui um outro significado para além da mera estratégia marketeira que tem alçado alguns MC’s medianos ao estrelato da indústria. O boombap possui em sua forma um espaço possível de criação que une, a tal diversão ao desfiar lírico que não precisa se encurtar para se encaixar, tendo possibilidades infinitas de modulação de flow e de criação lírica. Obviamente, as características espaço-temporais presentes em cada uma das formas musicais dos subgêneros do rap são singulares e passíveis de criações diversas. 

No entanto, nos parece que “Peste” – nosso objeto aqui – é um excelente exemplar de como formas consagradas encontram em sua repetição elementos diferenciais e singulares, únicos. Os timbres usados por Traumatopia e suas construções de batida, são a prova disso. Somos arrebatados pelos beats não por um exercício de semelhança com clássicos, senão obviamente, preferiríamos ouvir os “originais”, mas pelo diferencial que o artista capta e comunica hoje. 

Em “Cotidiano” esse exemplo é notório, Traumatopia vai além como em outros momentos do disco, e nos mostra não apenas a pertinência criativa das formas consagradas do boombap, como risca os toca-discos com maestria. Relvi por sua vez, constrói uma lírica que vai muito de encontro com a questão aqui abordada: 

“a Peste vai infectar não existe abrigo, o final é o início, reset não tem, mas recomeçar é de lei, passado só serve pra museu, eu sei que nada é pra sempre, ficando só o que plantei”     

Uma concepção que não nega a tradição, mas que se entende como parte de um círculo temporal que arremessa uma flecha para o futuro. O bate cabeça é a tônica de “Dois Elementos” onde Relvi afirma a importância de sua parceria dos beats do Traumatopia, que juntos colocam na fogueira toda a mediocridade. Esses dois elementos já tinham lançado excelentes trabalhos nos últimos anos, trazem de Curitiba, um dos pontos altos do rap feito no Brasil em 2025.      

Relvi E é isso né, o artista que é contemporâneo ao seu tempo é aquele que não fala a mesma língua de todo mundo, porque ancorado de modo profundo no tempo em que vive, consegue nos trazer a compreensão que muitas vezes a vida cotidiana nos nega. “Deixa que o tempo vai dizer o que tem que fazer, certas são ilusões melhor deixar de saber”, “Ordem do Dia” já começa com esse tiro no pensamento do homem médio. Hoje encarnado no pessoal que se entende informado, pelo whatsapp e ou por páginas de fofoca, por notícias que escondem suas causas. 

A faixa traz a participação do mestre curitibano Cabes MC, que já emenda uma sequência cabreira de versos onde o artista nos mostra o “caos” do cotidiano e o aprisionamento subjetivo e consequentemente político de possíveis visões de futuro. Ainda sobre a questão do tempo, os 3 minutos da faixa parecem se passar em 30 segundos, dada a força de sua duração, um dos grandes momentos do disco. 

Em “Envelhecer”, Traumatopia recicla o sample loopado na primeira faixa e acrescenta uma batida, que é assumida pela lírica do Relvi que segue fazendo seu próprio “tempo” dentro do Tempo em que vive, combatendo o racismo e o fascismo mais atual do que nunca. Colocando fogo no parquinho, “Inflamável” em mais um beat que nos coloca no mood de balançar o corpo e o pescocinho, e onde Relvi segue destilando um flow incandescente.    

Aliado à batida, Traumatopia mete um baixo estourado em “Rocky & Apollo” que traz o MC Wil Santos no feat com Relvi, DJ Trauma novamente esculachando nos scratchs, arranhando nossos cérebros. A faixa destila a luta simbolizada no título, como a busca dos “perdedores” dentro do sistema em que vivemos, onde os MC’s diagnosticam com excelência os obstáculos da classe trabalhadora.

Momento importante dentro do aspecto discursivo do disco, e que nos parece coadunar bastante com a visão espaço-temporal, mas também ética presente ao longo do “Peste”, a faixa “Cautela” chega no que podemos chamar de metade do disco. As linhas do Relvi, muito bem construídas em todas as faixas, aqui é um aviso sobre o game, sobre a política, mas sobretudo sobre o “Ethos” que o move. 

Se distanciando do falatório que muitas vezes compõem as personas de muitos dos atores da indústria do Rap, Relvi flutua bonito em “Altos e Baixos”, mas um beat exemplar do Traumatopia. E mesmo diante de um momento onde os acontecimentos da vida poderia indicar uma baixa tendencial, Relvi encontrou sua medicina nos versos, em suas criações, como espaço vital para seguir construindo sua história. 

Longe de serem poetas em torre de marfim, em Miradouro, Relvi & Galf AC, entregam aulas em cima do que considero o beat mais sensacional do disco, algo difícil em uma das melhores produções do ano. Os versos do Relvi reforçam a ideia de que em Peste, a questão da temporalidade é talvez o tema central, seja da própria percepção do tempo da vida humana e sobretudo da questão da finitude, seja do tempo transformado em mercadoria dentro do capitalismo. Onde utilizamos palavras completamente viciadas para falar de algo que nos constitui, que são as bases mentais através das quais percebemos o mundo. 

Relvi

“Deixa eu falar, que o tempo é rei, mas às vezes um pouco escasso, agora eu sei eu sei, faltam horas nessas 24, faltam verdades nesses fantasmas, e isso é fato” 

Para quem prestar atenção, perceberá uma contradição entre o tempo é rei e faltar horas nas 24 que compõem o dia. Contradição essa que pode ser entendida pelo completo descompasso entre o ritmo da vida e o regime capitalista de produção em que estamos inseridos. E que à guisa de resposta, encontra nos versos de Galf AC uma interessante visão, da necessidade de voltar-se para dentro de si, com um processo de introspecção que rompa com a velocidade alucinatória em que vivemos. Buscar reger o próprio tempo, como senhor de si mesmo e do seu próprio ritmo, melodia e harmonia, não é outro senão o papel da nossa busca por liberdade. 

Como escrevi recentemente, em uma resenha sobre o disco do grapiúna Dario Inerente, hoje no rap nacional é comum projetos grandiosos e com conceitos megalomaníacos não entregarem a mesma solidez marqueteira em termos estéticos. Ao que me parece, aqui estamos diante de outro exemplo de um disco que foi vendido pelos artistas e nem pela Sujoground como conceitual mas que ainda assim, possui uma forte coesão de ideias sonoras e de temas poéticos. 

E quem diz não sou eu, é o próprio Relvi, que comunica ao Traumatopia o desejo de tomar a música do clássico Subsolo como tema da faixa “À Deriva”: “Outro ano vem outro vai e eu nem vi passar”. Diante do caos social e político a música aborda essa forma de estar no mundo, à deriva, seguindo o fluxo dos acontecimentos. Relvi desfia versos diversos sobre temas que são éticos e geopolíticos com uma urgência muito forte mas sobretudo como um sinal de saúde artística. 

Com “Eclipse” penúltima música do “Peste”, Relvi traz uma semiótica do fim: “Vivendo o Pós Apocalipse no Apocalipse”, algo hoje muito comum de ouvir, e que não tem o mesmo aspecto milenarista que ocorreram nas viradas dos anos 1.000 e no ano 2.000, com o famigerado Bug do Milênio. Hoje, muitos assumiram um fatalismo covarde diante das crises todas que o Antropoceno e o Capitalismo tardio provocaram, provocam e provocarão cada vez mais e mais rápido nos próximos anos. 

O disco se encerra com a participação do Alienação Afrofuturista na faixa “Song from the Death”, e extrai da mesma fonte da faixa anterior – um mundo que caminha para vala a passos largos – as ideias líricas. Aqui, Blade, Constantine, são evocados como anti-heróis para combater os monstros, vampiros e congêneres que impulsionam e produzem um estado de morte constante. É só o ouvinte pensar na ascenção da extrema direita e no atual genocídio televisionado do povo palestino por Israel que nenhuma imagem ou metáfora parecerá sobrenatural.      

Ao fim da audição, diante de todo o quadro apresentado em Peste, não é fácil pensar em diversão, quando entendemos essa palavra como escapismo. O mero entretenimento, diante de um mundo caótico, que o indivíduo desesperado busca para algumas horas de entorpecimento. No entanto, a realidade volta e muitas vezes em um rebote mais forte, pois grande parte do que é colocado na caixa de entretenimento inofensivo é mais uma tecnologia da indústria cultural supremacista branca, para o melhor apodrecimento e subjugação subjetiva da massa incauta.  

Dito isso, na festa que eu imagino e sonho, mas que pratico aqui em minha humilde residência, “Peste” é um disco festivo. É o estímulo que me alegra e me faz querer escrever sobre. Obrigado aos envolvidos!   

-Relvi & Traumatopia, MC e DJ virados na “Peste”

Por Danilo Cruz 

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Os 10 Pilares de Abebe Bikila (BK) ou Pablo Marçal na Etiópia, arrivismo hard em “DRLE” https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/os-10-pilares-de-abebe-bikila-bk-ou-pablo-marcal-na-etiopia-arrivismo-hard-em-drle/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/os-10-pilares-de-abebe-bikila-bk-ou-pablo-marcal-na-etiopia-arrivismo-hard-em-drle/#respond Wed, 20 Aug 2025 15:31:02 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38925 Recentemente o MC carioca BK, um dos nomes mais destacados do Rap brasileiro lançou o filme “Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer”, analisamos os 10 Pilares propostos!

BK

No penúltimo lançamento do BK, Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer (o filme), o arrivismo narcisista, há muito já presente no rap brasileiro, totalmente rendido aos preceitos neoliberais, alcançou talvez o seu ponto mais agudo. Já faz muitos anos que artistas como Filipe Ret entre outros, transformaram a capacidade crítica do Rap em mera performance narcisista, recheada de clichês de auto-ajuda, posando de filosofia existencial. 

Este texto é uma análise semiótica e de discurso, do que subjaz como texto subreptício presente no filme “D.R.L.E” que possui a direção do Vellas. Porém, não conseguimos localizar a autoria das falas e dos textos presentes no filme, o seu escabroso roteiro. No entanto, tomamos aqui o conjunto da obra como assumido por BK, uma representação visual do disco Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer (2025) e consequentemente como reflexo e complemento imagético e ideológico do mesmo.  

No filme que precedeu o lançamento de “DRLE”, último disco do MC carioca BK, Os 10 Pilares do Abebe Bikila – ele mesmo e não a figura histórica – o coach rap contemporâneo no Brasil, encontrou o seu messias mais radical. O filme gravado na Etiópia mescla mistificação histórica e um flerte muito forte com uma noção difusa de Darwinismo Social. O discurso do MC empreendedor de si mesmo, o self made man, agora se porta como líder de um bando nômade – sem nenhum fundamento histórico – convidando seus “colaboradores” a se portarem com o máximo de crueldade possível diante do Outro. 

A forma completamente deturpada que pretende contrapor o Nomadismo – como origem humana – ao Sedentarismo – forma de desenvolvimento das primeiras civilizações africanas –  é no começo do filme, a tese de base  na qual BK pretende assentar a sua visão estética.

“O homem é de origem nômade. O que fica parado atrofia. Perde a força. Vira o elo frágil de um bando que caminha pelo progresso. Um elo que atrasa e deve ser abandonado.”

Essa fala de um mais velho etiope, já nos primeiros segundos do filme, sugere uma confusão conceitual onde o nosso passado e o presente atual, longe de dialogar de forma crítica, é mistificado em nome de um ideal de progresso neoliberal. Confunde o “corre” contemporâneo, no estágio civilizacional extremamente crítico em que vivemos atualmente, com a vida nos períodos Pré-Neolíticos. 

BK

Já faz literalmente uns 10 mil anos, que deixamos de ser caçadores coletores, e passamos a dominar a agricultura e a criação de animais, assentando-nos em aldeias, cidades, etc. Apesar de ainda hoje existirem povos nômades, principalmente no continente africano, a busca por essa “origem” da humanidade, revela o caráter ético e político atual do trabalho do BK. Tanto no filme como no disco, aquilo que se pretendia movimento é na verdade um giro em falso dentro de uma ética de coach e de uma postura política neoliberal que beira o Darwinismo Social. 

A fera mítica utilizada no filme é bastante atual, a entidade que vive nas sombras e ri antes do ataque é no final das contas aquilo que BK pretende escamotear com os seus 10 Pilares, chama-se Capitalismo Tardio. Atualmente, na posição de corredor privilegiado, o artista carioca não possui nenhum escrúpulo em assumir a mesma posição do patrão inclemente, que não permite que uma mãe dê a luz aos seus filhos ou que quer que o seu “colaborador” use fraldas para não ir ao banheiro. 

Como passageiro na classe especial – mainstream –  da indústria cultural, ele observa impassível os que são deixados para trás, para morrer, pois o bando não espera. Sem nenhum distanciamento poético, a construção do roteiro são meras ilustrações em imagens movimento, das teses, que serão expostas ao final. Os ares de pseudo ancestralidade contida no mais velho que narra a lenda, se nos mostra em um esforço mínimo de interpretação como mera mistificação, que parece roteirizada pelo Pablo Marçal. 

Em entrevista recente ao programa Provocações, BK explica que viajou à Etiópia com o disco já pronto e que lá buscava por um lado, a exemplificação do Monstro – nome de uma das faixas do disco – e por outro a ligação do seu próprio nome. Ao chegar no único país do continente africano que nunca foi colonizado – junto a Libéria nação fundada em 1847 por ex-escravizados vindos dos EUA – o que BK nos apresenta é algo totalmente anti-africano: 

“Por isso, o bando não espera. Não faz distinção e nem concessão, amigos, família, amores. Todos ficam para trás.”

BKMetaforicamente, para serem devorados – “membro por membro, osso por osso” – social e no presente histórico para serem esquecidos, abandonados à própria sorte, marginalizados e por que não, mortos. Pois, o monstro atual assim procede e ele não é nem o BK e muito menos o Tempo, que nas religiões e nas cosmovisões de matriz africana possui uma forma cíclica e muito longe da linearidade ocidental proposta pelo artista. E que mesmo ao pensarmos na história da Etiópia, com forte ligação com o Judaísmo, com o cristianismo e com a religião muçulmana, manteve-se independente politicamente. 

Quanto mais BK busca se apropriar da ancestralidade etiope do seu nome, mais distante fica. Abebe Bikila, o maratonista que venceu duas vezes as Olimpíadas, na primeira delas descalço, um exemplo de resistência que está anos luz à frente do Abebe Bikila que parece propositalmente não reconhecer princípios básicos, hoje populares até no jargão das redes sociais como o: Ubuntu. A circularidade como forma e signo de grande parte – senão na totalidade – das bases ancestrais do pensamento africano em todas as dimensões, perde a corrida para um código de conduta que não encontra reflexo no território de onde é anunciado, a não ser como praga colonial inoculada e consequentemente reproduzida. 

O continente africano é um dos principais produtores de diamantes do mundo. Utilizando o diamante como signo de “progresso” e foco principal da “empresa”, BK o artista, esquece ou finge esquecer completamente do “custo” destes, aos países e aos povos africanos. E ao que parece daí deriva o resto, o BK que aparece ao final com uma tocha iluminando os rostos de um “bando” que ouve o patrão recitar os códigos de conduta, os 10 Pilares do neoliberalismo como política e do Pablo Marçal como modelo ético. 

A cultura Hip-Hop que outrora serviu de escola para jovens negros aprenderem sobre a história do continente, sobre as figuras de luta e resistência em África, se converte na imagem proposta em “D.L.R.E.” na mais absoluta mistificação neoliberal. Por vezes, nos lembra aqueles que falam sobre as formas de escravidão em África, antes do colonialismo. E sobretudo, na fixidez das estruturas prontas, o pensamento de BK presente no filme, não viaja, ele está completamente “mumificado pelas substâncias mais banais e comuns”, bandanas lhe atam firmemente e aprisionam o seu pensamento poético, levando basicamente a se tornar um ventríloquo das ideologias hegemônicas do Ocidente.

BK

Ele vai para a Etiópia, mas não há sinais de pensamento político africano, ou mesmo etiope, zero combatividade, nenhuma resistência. Na terra dos reis Menelik II e do honorável Haile Selassie, se comporta como um garoto de recados do Capitalismo tardio, reproduzindo a ética daí derivada. Não apenas preservando as estruturas de opressão, como reforçando e buscando expandi-las em seus aspectos mais permissivos e porque não crueis. 

Sendo assim, o viés sereno e duro com que BK aparece diante da câmera nas cenas do filme, longe de se portar de forma crítica, ou mesmo como um mero observador do status quo – filmado e poetizado – se coloca como administrador e porque não ideólogo de toda a alienação, brutalidade e mistificação que o filme presentifica. Em momento algum, há uma critica à quaisquer dos pontos apresentados e abordados acima. As imagens de época do maratonista Abebe Bikila – única fonte histórica real presente no filme – que tenta ser apropriada como signo da luta por acompanhar o “Tempo”, identificado como monstro, soam pueris. 

O filme se converte dessa forma em manifesto que não está ancorado em nenhuma visão crítica da realidade, um mero panfleto digno do movimento dos Legendários. Uma dureza masculina e negra que não condiz com o atual nível de debate sobre estes temas, uma visão política completamente despolitizante, entendendo política aqui, como a busca do bem comum, aliás não há “comum” na visão do bando que BK cria. Se entendermos o comum como reconhecimento e partilha com o Outro, o que há é o entendimento das relações éticas provenientes meramente de um “utilitarismo hardcore”, o que não mais “serve” é descartado e vale ressaltar, qualquer um – pai, mãe, filho, amores, amigos…

Desta sorte, nos surpreende um pouco a recepção calorosa por parte da crítica e do público, sem nenhum traço de reflexão. No entanto, entendemos que neste filme, BK e sua produção avançaram a um ponto que até então não tínhamos chegado no rap feito no Brasil. As oposições infantis e irrefletidamente reproduzidas sobre vencedores e perdedores, agora possuem um código de conduta que serve de diretriz base para os MC’s/Empresas. 

Os 10 pilares do Abebe Bikila é a primeira sistematização racional – não dá pra chamar de poética ou artística – de todas as frases de auto ajuda e as rimas motivacionais como: “Você é o único representante do seu sonho na terra”, encontra aqui seu estágio final e mais bem elaborado. BK se encarrega de ser o próprio Moisés, porém do Neoliberalismo mais tosco e cruel. A Ego Trip com recurso poético se torna práxis, saindo do campo da fabulação literária para o campo do pressuposto das leis éticas para o estabelecimento da relação entre as pessoas. O fracasso é covardia, a doença é preguiça, e o BK no filme “D.R.L.E” estabelece a norma – das mais crueis –  para os operadores, os gerenciadores da máquina de moer gente, nesta metade de segunda década do Século XXI. 

-Os 10 Pilares de Abebe Bikila (BK) ou Pablo Marçal na Etiópia, arrivismo em “DRLE” 

Por Danilo Cruz 

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Cidade dos Normais e a poesia distópica da Escambau https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/cidade-dos-normais-e-a-poesia-distopica-da-escambau/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/cidade-dos-normais-e-a-poesia-distopica-da-escambau/#respond Fri, 15 Aug 2025 15:22:48 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38901 No clipe Cidade dos Normais, a banda paranaense Escambau celebra 15 anos de carreira com uma crônica urbana irônica e distópica, gravada ao vivo no Teatro Paiol, em Curitiba.

A celebração de uma resistência

Vou começar a resenha propondo que você tente imaginar seria viver numa cidade onde tudo parece perfeito, mas nada é real? Será mesmo, que esse exercício de imaginação nos coloca diante de uma realidade ainda por vir? Ou será que já estamos inseridos nessa realidade social?

É nesse cenário que a banda paranaense Escambau ambienta Cidade dos Normais, canção transformada em um clipe visualmente arrebatador, gravado ao vivo no histórico Teatro Paiol. E que fará parte do novo álbum da banda que celebra o tempo de existência da banda. 

Completando 15 anos de estrada e uma trajetória marcada pela resistência da música independente, o grupo entrega uma crônica urbana afiada, que mistura poesia, ironia e a tensão silenciosa das grandes distopias.

O clipe que revela o show

O álbum recebe o nome “Escambau – Acústico 15 anos no Teatro Paiol”. Acho que a partir daqui, tendo o título revelado, inferir se tratar de um álbum ao vivo, no formato acústico, o local do show e gravação do álbum é o Teatro Paiol em Curitiba.

Seu lançamento acontece hoje, 15 de agosto, a partir das 19 horas no SESC Paco da Liberdade, em Curitiba. Será feita uma audição pública do álbum, que estará disponível em todas as plataformas de streaming a partir do dia 18 de agosto.

A banda lançou uma das faixas, “Cidade dos Normais”, no formato single no final de abril deste ano. Recentemente lançaram o clipe da faixa e ali se revelou a beleza visual da gravação em vídeo do show. 

“Cidade dos Normais”, portanto, pode ser visto no formato de clipe, no YouTube, e já nos mostra a qualidade da produção do show.

Distopia em forma de canção

“Cidade dos Normais” elabora uma crítica sutil e irônica a uma sociedade caracterizada pelo conformismo, pela superficialidade e pelo controle simbólico — algo próprio das distopias presentes em obras literárias como 1984, de George Orwell; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; ou na trilogia distópica de Ignácio de Loyola Brandão: Zero, Não verás país nenhum e Desta terra nada vai sobrar.

A letra descreve uma cidade que, a partir de um ponto de vista distraído, parece tranquila e sob a “proteção” de uma força maior. Contudo, trata-se apenas de uma impressão fabricada. O que existe, de fato, é o exercício de controle social sobre os habitantes dessa localidade.

Nesse sentido, “Cidade dos Normais” nos surge como uma alegoria da realidade social, existente por trás de um verniz de aparência que sugere organização e normalidade.

Essa alegoria remete ao filme Eles Vivem, do diretor norte-americano John Carpenter. No longa, um óculos especial, quando usado, revela a realidade por trás da camada aparente utilizada para camuflar uma estrutura opressora de profundo controle sobre as decisões e ações dos indivíduos.

A normalidade descrita na música não passa de um estado de anestesia coletiva, tal qual o causado pelo consumo da droga “soma” na sociedade apresentada por Huxley em Admirável Mundo Novo. Dessa forma, os governantes podem induzir ações e decisões dos “cidadãos” dessa sociedade controlada.

Podemos identificar uma ironia no fato de que a cidade é aparentemente segura, até previsível, mas é justamente essa previsibilidade que a transforma em uma imagem distópica de sociedade.

Na linhagem da MPB crítica

Outra forma de compreender a crítica presente na música é pelo seu formato de crônica urbana, que se encaixa na tradição da MPB mais crítica — aquela que recorre a harmonias ambíguas, aliadas a melodias sedutoras e letras irônicas, para abordar uma realidade política e social marcada pelo signo da passividade.

Nessa tradição, podemos incluir compositores do quilate de Chico Buarque, Caetano Veloso, Itamar Assumpção e Belchior. Duas imagens presentes na letra da música representam bem seu caráter metafórico e satírico: “olho de vidro” e “prefeito quadrado”.

Essas expressões reforçam o tom de metáfora e sátira, lembrando algumas fábulas urbanas da canção brasileira dos anos 1970, período em que a crítica social precisava se disfarçar de ironia para escapar dos aparelhos de repressão e censura.

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Clássico do reggae roots, Marcus Garvey do “trio vocal” Burning Spear, completa 50 anos https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/14/classico-do-reggae-roots-marcus-garvey-do-trio-vocal-burning-spear-completa-50-anos/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/14/classico-do-reggae-roots-marcus-garvey-do-trio-vocal-burning-spear-completa-50-anos/#respond Thu, 14 Aug 2025 14:07:23 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38870 Um dos discos mais importantes da música jamaicana, Marcus Garvey do Burning Spear, segue brilhando como um clássico, 50 anos depois!
Burning Spear
Da esquerda para a direita: Delroy Hines, Winston Rodney (Burning Spear) e Ruppert Wellington

Burning Spear é um dos grandes nomes da história da Reggae Music, o que muitas pessoas não se dão conta é que o senhor Winston Rodney era a voz principal de um trio vocal que foi alçado ao “estrelato” com o clássico “Marcus Garvey” há 50 anos atrás. Nas últimas décadas, a música de Burning Spear tem me acompanhado em minhas rotinas, como um campo de extrema relevância para reflexão sobre nacionalismo negro, sorbe o panafricanismo e as lutas anticoloniais. Mas tudo isso começou ainda na adolescência.  

O ano era 1997, minha turma de escola tinha passado do fundamental 2 – na época ginásio – para o ensino médio – na época 2ºgrau – e decidimos ir para a casa da família de uma amiga em Jauá, uma das praias no Litoral Norte de Salvador – Bahia. Éramos em 12 pessoas, minha primeira viagem sozinho, uma semana de liberdade fora dos olhos da família. Foram muitos causos que dariam um livro ou um filme, porém o que nos importa aqui foi a presença de Burning Spear como trilha sonora dessa viagem. 

Entre idas à praia e travessuras mil, a fita cassete de “HAIL H.I.M”, lançado por Burning Spear em 1980 girava, e o dono Fozé imitava o patoá jamaicano com o nosso típico sotaque baiano. Foi meu primeiro contato e do qual eu nunca esqueci, com a música do jamaicano, com o qual eu só fui me reaproximar muitos anos depois, de um modo muito mais consistente. 

Quando do lançamento de “Marcus Garvey” o trio já era conhecido na Jamaica. Surgido como um trio vocal em 1969, formado por Delroy Hines e Ruppert Wellington como vocais de apoio e Winston Rodney (Burning Spear) como a voz principal, os caras já tinham lançado dois discos pela gravadora Studio One, Studio One presents Burning Spear em 1972 e Rocking Time em 1974. Nascido na paróquia de St. Ann, Winston Rodney dividia o local de nascimento com Bob Marley e com… Marcus Garvey, que foram influências fundamentais na sua construção de visão de mundo. 

O trio conseguiu um teste na gravadora do grande Clement “Coxsone” Dodd (Studio One) por sugestão de Bob Marley. E após dois discos lançados pela gravadora, que vinham lhes dando fama na ilha, após divergência com o Clement o grupo rompeu com a gravadora. Essa decisão os levou a procurar o produtor Lawrence Lindo aka Jack Ruby, também conterrâneo de Winston Rodney e dono de um sistema de som na paróquia de St. Ann, o único produtor da época a trabalhar fora de Kingston. 

Essa aliança seria fundamental para a produção do clássico Marcus Garvey, gravado no clássico Randy’s Studio, local onde as feras da época gravavam. Jack Ruby recrutou um time que reunia o que de melhor existia naquela altura. Membros dos The Wailers e do The Soul Syndicate fizeram parte das gravações dos singles que se transformariam nesse incontornável clássico da música jamaicana.    

Antes do lançamento do disco, houve o lançamento de duas pedradas imensamente clássicas e sobretudo ainda atuais, as faixas “Marcus Garvey” e “Slavery Days” tiveram um imenso sucesso na ilha. Chamando a atenção de Chris Blackwell que resolveu mexer na sonoridade do disco e lançá-lo de modo mais palatável para o público internacional, como já tinha feito alguns anos antes com “Catch a Fire” de Bob Marley & The Wailers. 

Burning Spear
Jomo Kenyatta

Ainda em 1969, Winston Rodney já adepto do rastafarianismo assume o nome de Burning Spear (Lança Ardente) em homenagem ao líder queniano Jomo Kenyatta, que levou o Quênia à independência do colonialismo britânico em 1963. E é curioso ver como “Marcus Garvey”, 50 anos depois segue como um verdadeiro manifesto panafricanista, exalando nacionalismo negro em sua poética musical.

A composição poética e musical presente em “Marcus Garvey” é bastante única na forma de estruturação dos versos, e no conteúdo poético, assim como na expressividade criada por Burning Spear. Além disso, há uma linha de sentido que liga a primeira música – “Marcus Garvey” – à última: “Resting Place”, a saber, partindo de uma filosofia Garveyista que reconhece as linhas de ação propostas pelo líder negro, e chegando no questionamento e na proposição de um horizonte utópico. 

Hoje após décadas de construção musical e política, fogo na babilônia se tornou algo inofensivo, mais um chavão, uma palavra de ordem completamente esvaziada pelo grande público, e a positividade gratiluz mais um pastiche hippie, rendido aos padrões neoliberais da Supremacia Branca tomou o lugar da luta do povo negro. Ao invés de uma “Lança Ardente” no coração do colonialismo, maconha de primeira qualidade dos playboys brancos e pretos. 

Já na primeira música, Burning Spear canta sobre a atualidade das palavras de Garvey e vaticina contra os traidores, contra a linha auxiliar, que deve ser espancada. Nos lembrando, 50 anos depois, que se trata de luta, não de conciliação, nem de busca pela paz universal. Há um clamor e porque não uma busca por agenciamento coletivo que atravessa todo o disco, e que tem em Marcus Garvey o principal signo de uma luta emancipatória do povo preto. 

É curioso que sempre que se fala de música pelos rincões das internet e ao longo da própria história do século XX, os músicos da reggae music, nunca possuíram o mesmo status de “genialidade” que os músicos de Rock, por exemplo. A banda formada por Jack Ruby e batizada de “The Black Disciples” é a reunião da fina flor do que de melhor se tinha – em um cenário extremamente rico – de músicos da ilha. Verdadeiros gênios em seus instrumentos. Dois dos melhores baixistas da história da música: Aston Barret e Rob Shakespeare e na bateria Leroy “Horsemouth” Wallace, fechando a cozinha. 

Burning Spear
Earl “China” Smith um dos maiores guitarristas do séc. XX

Nas guitas, o grande mestre Earl “China” Smith (solo) e Valentine “Tony” Chin (base), nas teclas Tyrone Downie e Bernard “Touter” Harvey, os dois fizeram parte do The Wailers. Na riquissima sessão de metais do “Discípulos Negros”: Herman Marquis (sax alto), Bobby Ellis (trompete), Richard “Dirty Harry” Hall (sax tenor), Vicent “Trommie” Gordon (trombone) e Carlton “Sam” Samuels (flauta). De todos esses grandiosos nomes, apenas o Carlton “Sam” Samuels não é um músico influente na cultura jamaicana, porém a sua flauta vai acrescentar um sabor muito único em canções como “Live in Good” e  “Give Me”, onde seus desenhos melódicos acrescentam doçura às composições. 

As composições de Burning Spear são sempre muito simples, sem muitos desenvolvimentos líricos e é exatamente aí que mora toda a imensa potência de suas músicas: a repetição e os comentários pontuais que ele desenvolve, ao longo de todo o disco. Um jogo solto entre os versos e os refrões entre idas e vindas, repetindo como em um culto e recriando a estrutura de chamadas e respostas ao seu modo. Modulando a emissão, os vocalizes, retirando daí as intensidades diferenciais de sua arte. 

Pelas minhas andanças nas ruas de Salvador, muitos do nosso povo ouvem bastante Burning Spear nas nossas favelas, porém muitas vezes não compreendem a profundidade do seu chamado. E consequentemente não conseguem efetuar respostas a altura. 

“Vocês se lembra dos dias de escravidão? 

Você se lembra dos dias de escravidão?

E eles nos espancaram, e nos fizeram trabalhar tão duro

E eles nos usaram até nos recusarem”

Burning Spear
Capa jamaicana do disco Marcus Garvey

Em “Slavery Days” temos uma amostra muito forte desse processo de composição acima mencionado, ao ponto do refrão contaminar o verso, onde a memória do cativeiro se faz presente nos dias atuais, com todas as implicações subjetivas e políticas. Não como uma dor do chicote estralando ainda, mas no sentido de perceber os novos chicotes, depois da recusa, mencionada no primeiro verso. Burning Spear é um mestre da nossa história em Diáspora, logo alguém que nos propõem um futuro como povo. 

Em “Marcus Garvey”, o reggae roots “pivota” e quanto mais se aprofunda no solo, mais cria outros territórios possíveis, uma compreensão rizomática, afro-rizomática onde as raízes crescem tanto vertical quanto horizontalmente. É luta política, é história, mas também é a busca por uma ética entre nós, hoje tão necessária quanto há 50 anos, talvez mais. “Live Good” é um dos exemplos de como a extrema economia de versos e a repetição constante nas músicas de Burning Spear alcançam o sublime. 

Entre a busca, a tentativa rumo ao melhor, o não saber que muitas vezes pode errar, entre os sins e os nãos, atravessados pela doce flauta do “Sam”, o senhor Winston Rodney mostra o quão difícil é a simplicidade. Da mesma sorte porém em outra chave a música seguinte: “Give Me” que pode ser entendida como um pedido aos poderes constituídos, mas é na verdade um chamamento ao povo: “Boas pessoas me ouçam”. 

A repetição e o proliferamento de grandes líderes é retirado a fórceps em “Old Marcus Garvey”, onde Burning Spear parte do esquecimento para fazer não somente a memória de Marcus Garvey chegar às crianças como a de outros grandes líderes do final do século 19 e início do século 20 na Jamaica. Entre a brilhante linha de baixo e a marcação da bateria, o “No one Remember Marcus Garvey” se transforma e insinua os nomes de Paul Bogle, William Goddo, Norman Washington Manley e de Bustamante.  

Burning Spear Em “Tradition” uma pergunta repetida diversas vezes: Porque? se converte em uma contestação à história, combativamente alegre e saturando a pergunta até nos fazer compreender os 2.000 anos a que se refere, opressão, morticínio, colonização. As suas influências rastafari ficam mais evidentes em “Jordan River”, assim como em Red, Green & Gold e as referências à bandeira Etíope, ao Haile Selassie, ao Leão de Judah. Outros tantos signos de resistência mental e espiritual ao colonialismo. 

O disco se encerra com “Resting Place” porém longe de qualquer perspectiva idílica, o que Burning Spear projeta em nós é a contradição – hoje muito assustadora – entre a necessidade de uma visão da natureza de algum modo sustentável, e a crescente destruição da mesma. Novamente, parte-se de uma pergunta: “Onde devo encontrar meu lugar de descanso?” para daí elaborar uma crítica sutil à forma como o capitalismo e a Supremacia Branca e a sua visão de dominação da natureza. 

Se aproximar de “Marcus Garvey” é sobretudo uma necessidade de introjetar as perspectivas de luta e de si enquanto parte de um povo, hoje mais do que nunca, que somente através da união e da elaboração de uma agenda comum, poderá superar os imensos desafios que nos são colocados. Pois, esse é um disco que transcende o estético e alcançam de fato uma potência ética e política revolucionária para o povo preto em diáspora. 

O disco fez bastante sucesso, ao ponto de em 1976 uma versão dub do mesmo ser lançada: “Garvey’s Ghost”. Ainda em 76, o trio se separaria e o senhor Winston Rodney (Burning Spear) seguiria em carreira solo como um dos maiores astros da música reggae. 

-O clássico do reggae roots, Marcus Garvey do “trio vocal” Burning Spear, completa 50 anos

Por Danilo Cruz 

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“Ágil”, Áurea Semiseria segue altiva ao longo de uma trajetória de 10 anos no rap! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/11/agil-aurea-semiseria-segue-altiva-ao-longo-de-uma-trajetoria-de-10-anos-no-rap/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/11/agil-aurea-semiseria-segue-altiva-ao-longo-de-uma-trajetoria-de-10-anos-no-rap/#respond Mon, 11 Aug 2025 21:57:27 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38851 Em um belo audiovisual, Áurea Semiseria apresenta uma reflexão sobre o seu corre nesses últimos 10 anos no rap e na cultura Hip-Hop.

Áurea Semiseria

Eu nunca vou esquecer do vozeirão que me arrepiou no Pelourinho cantando Zé do Caroço da mestra Leci Brandão, então chamada Áurea Maria. Era 2016 e de lá pra cá, pude acompanhar o desenvolvimento muitas vezes atomizado, dela que se tornou Áurea Semiseria. Muitas participações, cypher’s, e o primeiro EP Roxo GG (2017) – minha camisa segue aqui. Ser uma MC preta, gorda, LGBTQIA+ e nordestina não a impediu de chegar na Letônia, com escala na Inglaterra. 

Porém, é uma luta que muitas vezes parece ser inglória, sobretudo por conta de uma indústria que visa apagar produções como as de Áurea Semiseria, em uma cidade como Salvador que está mais para túmulo da música. Mas também, porque a maioria das pessoas tendem a esquecer o “corpus” de um trabalho construído ao longo de uma década, sem investidores e sem hype algum. 

Nestes últimos dez anos, tendo acompanhando de perto os movimentos do Rap baiano, não é exagero algum dizer que Áurea Semiseria é um dos nomes que foram responsáveis pela qualidade e diversidades de produções. Não é preciso lembrar que durante à última década surgiram e sumiram diversos artistas, talentosos também, mas que não seguraram o rojão da invisibilidade e não foram se ligaram para a necessidade de ser “Ágil”, neste jogo. 

Com uma rápida passagem pela Balostrada Rec., onde gravou e lançou duas track: Onze (prod. Owé) e o clássico contemporâneo TUDUDUDU (prod. 2Kike), Áurea veio se movimentando, buscando saídas para não estagnar e murchar. No ano passado lançou o seu primeiro álbum “Semiseria” com beats do El Lif Beatz, ÉoCROSSS e do Mu540. O disco trouxe feats da Iza Sabino, da Una e do Big Bllakk e apresentou uma concepção estética sólida e a sua versatilidade como MC capaz de rimar em qualquer tipo de beat. 

-Leia a resenha da nossa colunista Mara Mukami sobre o último disco da Áurea Semiseria!

Versatilidade que levou a artista baiana ao Brasil Grime Show, que esse ano a colocou no single “Isqueiro” junto a lenda Deize Tigrona. É essa a definição sobre ser “Ágil” e é de certa forma o tema do bonito audiovisual recém lançado por Áurea Semiseria e gravado no ancestral parque São Bartolomeu tendo a Pedra de Xangô como “cenário”. Com direção de Paulo Jordan e produção musical da dupla Saboya & OG Bahia, o single nos relembra que a MC de Cajazeiras pulou de revelação à veterana sem escalas, mas com muita luta.

O videoclipe publicado no canal da produtora Complexo Nine, é simples e certeiro, com uma produção muito bem feita. A música é uma reflexão destes últimos 10 anos no cenário do rap baiano e brasileiro, sobre as oportunidades e as concessões negadas pela artista. Ao mesmo tempo, afirma-se na luta apesar da vontade de desistir – algo que tenta a muitos artistas independentes – e a dificuldade de se manter no jogo.  

O beat swingado chegado pro boombap, linha na qual Áurea Semiseria começou, dialoga musicalmente com o jogo de cintura necessário para se manter na ativa, para enfrentar as dificuldades. E o que podemos concluir disso tudo é que a MC já está há muito tempo escolada, e seguirá dando aulas.  

-“Ágil”, Áurea Semiseria segue altiva ao longo de uma trajetória de 10 anos no rap!

Por Danilo Cruz 

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Uma epopeia do trabalhador brasileiro é a “Práxis” por Mascote & Digmanybeats https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/08/uma-epopeia-do-trabalhador-brasileiro-e-a-praxis-por-mascote-digmanybeats/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/08/uma-epopeia-do-trabalhador-brasileiro-e-a-praxis-por-mascote-digmanybeats/#respond Fri, 08 Aug 2025 14:40:46 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38833 Ao longo de 10 músicas, Mascote rima com feats do Mattenie e do PaZSado, com produção do Digmanybeats, sobre o dia comum do trabalhador!
Mascote
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A volta (?) à ativa de um MC do quilate do Mascote é/deveria ser algo muito comemorado, desde de 2023, o artista lançou alguns excelentes trabalhos, como o disco “Ligue os Pontos (prod. Digmanybeats)” em parceria com Dej@ Vu e o DJ Will Cutz, em 2024 o disco em parceria com PaZSado: “Flores em Vida (prod. Digmanybeats)”. No ano passado, o disco quase perdido “Jornada Dupla” com Dr. Drumah e esse ano, outro disco gravado há vários anos e também quase perdido, “Meus Amigos Vol.2”.

O Mascote fez história com o clássico grupo “ContraFluxo” e o pouco conhecido “Primeira Audição”, um dos poucos grupos a produzir um rap jazz brasileiro com imensa qualidade em nossa história. Nesse processo de volta à ativa, nos lançamentos, Mascote tem contado sempre com as produções do Digmanybeats e com ele que ele compôs o seu último disco “Práxis”. Apesar de curtinho, os seus 19 min e 43s condensa uma epopeia que é a de milhões e milhões de brasileiros. 

Não é um disco para se ouvir buscando diversão, muito menos motivação – Raps Motivacionais deveriam ser proibidos – muito pelo contrário. O retrato em ritmo de curta metragem, um imenso storytelling de 18 horas de um trabalhador brasileiro, no caso o próprio Mascote. Que ao traçar os passos de um dia comum em sua vida, termina por uma questão de classe, falando de todos nós que trabalhamos no dia a dia, de sol a sol, que pegamos o busão ou o metrô lotado. 

Recentemente li em uma rede social que o artista só é profissional se ele é remunerado pelo seu trabalho, caso contrário é um amador. Sob certo ponto de vista – capitalista – isso é até verdade. Porém, nos indica o quanto a subjetividade de muitos está completamente submetida aos modos de produção capitalista. Perceber a arte e o artista sob esse viés – que é o da imensa maioria das pessoas em nosso país – é extremamente redutor, empobrecedor mesmo. Sobretudo, se tivermos um olhar crítico tanto para a história, quanto para o que hoje habita o mainstream da música brasileira. 

Com certeza, e não quero aqui fazer nenhum tipo de elogio da precariedade, artistas do mainstream não são capazes de produzir um disco de rap inteiro narrando a vida do trabalhador comum. Muito pelo contrário, o mainstream hoje é uma eterna cantilena em loop sobre ser vencedor. Fornecedores de esperanças vãs, que termina por reificar o sistema capitalista da forma mais vil. São em quase sua totalidade MCoachs! 

Outra é a proposta do Mascote que recorta um cotidiano comum de nós trabalhadores que somos capazes de olhar para a realidade de forma crítica. O disco começa com o Mascote acordando e cuidando da sua cria “5h45(intro)”, colocando na escola e seguindo pro trampo. Já em “Práxis” a narrativa começa a rasgar o tom de normalidade cotidiana e ou mesmo nos apresenta as suas “práticas comuns”. que é também além da de milhões de trabalhadores, a de milhares de artistas amadores. Ouvir algo para alimentar o espírito criativo (beats), se informar em trânsito (ouvindo clássicos e podcasts).

A rotina estressante dos trabalhadores em meio ao capitalismo tardio em um sistema neoliberal meramente administrado, já é mencionado “de passagem” sobre o burnout sofrido por uma colega de trabalho. Mascote aborda também, cansaço provocado no trabalhador pelo péssimo sistema de transporte nas nossas capitais, que é algo sofrido pela esmagadora maioria da população que paga caro por um sistema completamente sucateado. 

Mascote Os “Desalinhos” entre trabalhadores e patrões são traçados nos mostrando, levantando o véu das atuais práticas do sistema que prevê a uberização cada vez maior da classe trabalhadora, assim como a já longeva jornada 6×1, um dos temas da participação do PaZSado na faixa. A ausência de perspectivas e o auto engano de que as coisas vão melhorar são ideias demolidas pelo Mascote em “Murmúrios”, ao mesmo tempo que reflete sobre a possibilidade de entrar para vida do crime. Uma reflexão muito pertinente sobre como permanecemos acuados entre a exploração e a certeza de prisão ou morte. 

Após o intervalo “12h30(intervalo)”, é a vez de uma análise mais pormenorizada sobre o Capital e o seu funcionamento, “Mão Invisível” traz o Mattenie no feat, que segue a mesma toada, mas acrescenta algo presente em uma das 11 Teses sobre Feuerbach, a saber: 

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”

A volta pra casa, “18h30(interlúdio)”, enfim “Lar Doce Lar (partes I&II)” porém outro momento de tortura para trabalhadores que se amontoam em transportes. Única faixa presente no disco que possui batidas, mas que logo volta ao drumless, nos mostra a coesão estética da sonoridade construída por todo o trabalho fruto do Digmanybeats. Enfim, o “Sono dos Justos”, entre observações em forma de crônica, Mascote narra essa volta pra casa como de fato ela é para muitos: a certeza de uma batalha inglória, porém vencida. 

A alegria do filho recebendo o pai, uma imagem que só ressalta toda a melancolia que o cotidiano poetizado nos apresenta. A sensação de alívio e segurança de estar em casa, ainda encontrar tempo para brincar com a sua criança, lhe colocar na cama. Deitar para dormir mas a mente a milhão, pensar nas contradições da vida, se programar para o final de semana etc… 

MascoteO produtor Digmanybeats cria uma atmosfera sonora praticamente toda ancorada no drumless, mas longe de um trabalho genérico, o artista proporciona as tonalidades para cada momento do dia. Criando assim, o complemento musical que tensiona o ouvinte a prestar atenção no trabalho poético do Mascote, mas os loops nos injetam sub-repticiamente as sensações adequadas ao tema. 

O disco se fecha às “23h45(outro)”, em um áudio onde o Digmanybeats convida o Mascote para um novo disco. E tudo recomeçará de novo no dia seguinte, o Mascote voltará ao trabalho, o Digmanybeats vai lhe mandar beats e outro disco vai sair. Essa é a rotina dos trabalhadores em geral e dos artistas/trabalhadores em particular. 

Como disse acima, a audição de “Práxis” não diverte e obviamente não se pretende a isso. Ao poetizar a vida do trabalhador brasileiro que é a sua também, mas do que trabalhar com palavras de ordem “revolucionárias”, Mascote nos induz a pensar no absurdo em que vivemos, na exploração brutal que sofremos, no tratamento escroto que sofremos dos poderes. Esteticamente é um trabalho muito bem acabado pois nos carrega em sua duração dentro de uma perspectiva musical monótona, tensa, dura, algo que é conseguido pelo flow empregado pelo Mascote e pelos feats, assim como reiteramos, pela produção musical.   

Escute:

-Uma epopeia do trabalhador brasileiro é a “Práxis” por Mascote & Digmanybeats

Por Danilo Cruz 

 

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Bagum: entre o soul, a psicodelia e a dança https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/08/bagum-entre-o-soul-a-psicodelia-e-a-danca/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/08/bagum-entre-o-soul-a-psicodelia-e-a-danca/#respond Fri, 08 Aug 2025 14:39:56 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38836 A banda baiana Bagum lançou dois singles, unindo psicodelia, groove e parcerias marcantes, dando o tom do que vem por aí com o lançamento de seu primeiro álbum
Bagum
Capa do single “A Lua que Foi Meu Lençol”.

Agosto começou há menos de uma semana. Mês alvo de piadas relacionadas à sensação de sua demora em se findar, traz consigo o lançamento do álbum Coração; Batalha; Celebração, da banda Bagum.

Este será o primeiro álbum da banda baiana. A notícia do lançamento gera expectativa entre as pessoas (eu entre elas) que acompanham a trajetória do grupo. Isso porque os caras vêm lançando material desde 2018, entre singles e EPs.

Portanto, não se trata de uma experiência nova. Considerando o histórico da banda e a qualidade dos materiais lançados anteriormente, espera-se um álbum que não apenas traga novidades, mas também apresente modos novos de se expressar através das faixas.

E por falar em histórico de lançamentos, cabe lembrar que dois singles — músicas que farão parte do setlist do álbum — já foram lançados, dando uma noção do que teremos no material completo.

Bagum
Arte de Capa do single “Sol e Ares”.

A Bagum produz uma sonoridade bastante atmosférica, com altas doses de psicodelia, que permitem ao ouvinte atento se enroscar em seus sons. Outra característica marcante da banda reside no hábito de convidar artistas de gêneros musicais distintos para participar de seus projetos.

Entre as colaborações mais interessantes está a participação do rapper soteropolitano Vandal, tanto em shows com a banda quanto na parceria no single BIKINIH E CEROLH, lançado em 2022. E tem mais: a cantora Lívia Nery também contribuiu em faixas de EPs e singles do grupo.

O primeiro single lançado em 2025, A Lua Que Foi Meu Lençol, traz a voz marcante da cantora baiana Liz Kaweria. A música apresenta um arranjo primoroso, que imprime sensualidade ao som, gerando uma brisa envolvente e se apresentando como um soul cheio de balanço.

A entrada da voz de Liz conduz a música para um viés mais intimista, dando mais movimento à melodia, complementada pelo groove das linhas de baixo e da levada da bateria. O teclado, usado para complementar o arranjo, oferece elementos cuidadosos, “pincelados” com efeitos que funcionam como detalhes, dando mais consistência à composição.

Logo depois, a banda lançou o single Sol e Ares. Essa música chamou bastante minha atenção pela levada dançante, numa pegada de dance music, na melhor aura das pistas de dança das discotecas.

O guia dessa faixa é o órgão, que conduz a música por solos oníricos e bases expansivas. A guitarra funciona como uma espécie de interlocutor, preenchendo com respostas pontuais — ora com staccatos, ora com frases que se harmonizam com a melodia principal feita pelo órgão.

Ambos os singles apontam para caminhos que parecem conduzir para um álbum pautado pela black music das décadas de 60 e 70. Resta-nos aguardar o lançamento de Coração; Batalha; Celebração e verificar se as especulações aqui levantadas irão se confirmar ou não. 

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Dário Inerente em swingue crítico, “Bloco na Rua” é uma afirmação da força do Rap Baiano! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/06/dario-inerente-em-swingue-critico-bloco-na-rua-e-uma-afirmacao-da-forca-do-rap-baiano/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/06/dario-inerente-em-swingue-critico-bloco-na-rua-e-uma-afirmacao-da-forca-do-rap-baiano/#respond Wed, 06 Aug 2025 14:37:10 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38823 Diretamente do sul da Bahia, Dário Inerente lançou seu primeiro álbum, “Bloco na Rua”, em conexão com grandes nomes do Rap no Brasil!
Dário Inerente
Foto por Augusto Santos aka @method_av

Por mais que não se perceba, todo artista se insere em uma tradição e quando no ano passado ouvi as guias de “Bloco na Rua”, duas percepções distintas me assaltaram. A primeira delas é a óbvia associação com Sérgio Sampaio e o clássico de 1973, “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”. A segunda dizia respeito à diferença do Dário que conheci em 2020, por ocasião do lançamento de sua mixtape “Eterna Odisseia para a Luz”. 

No primeiro caso, Dário Inerente se insere em duas tradições, na rica história do boombap feito na Bahia e consequentemente no Brasil, e na relação virtual que o título do seu disco pode suscitar. Porém, ao ouvir “Bloco na Rua” e mesmo já no título, há uma diferença patente e de saída, algo que de certo modo atravessa todo o trabalho e que diz respeito a uma afirmação por parte do MC de Itabuna. Ninguém poderá dizer que ele dormiu de touca, que ele perdeu a boca, que ele fugiu da briga, que ele caiu do galho e não viu saída, ou que ele tenha morrido de medo quando o pau quebrou. 

A uma afirmação e não um desejo em “Bloco na Rua”, ele não quer colocar ele botou – lá ele – o seu bloco na rua, brincando, botando pra gemer, e sobretudo gingando. As 13 faixas que compõe o disco, das quais duas assinadas pelo Jedi, Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops, uma do Gxtv, uma do pedrvso e uma do Neto (Síntese) transpiram uma afirmação alegre, swingada e séria. 

O Dário Inerente de 5 anos atrás com 18 anos se transformou muito em termos estéticos e pessoais, perdeu o pai nesse ínterim, mas se conservou inteiro e se expandiu, encontrando conexões fora de sua cidade, Itabuna. Com seu primeiro álbum, o MC grapiúna nos mostra não somente a sua, como a riqueza e as possibilidades, muitas vezes não percebidas nem por quem está ao lado, do rap feito no sul da Bahia. 

Há uma tônica: “Boas ideias, diversão levada a sério”, que está presente neste “Bloco na Rua” enquanto uma busca de si mesmo em relação com o mundo. Algo que contagia o ouvinte atento, porque as boas ideias aqui estão a serviço de uma diversão que não seja uma alegria no vácuo, pelo contrário o bloco apresentado é um concentrado de poesia e rima, com swingue, com perspectivas de luta e sobretudo ancoradas no coletivo: “Hip-Hop com a mesma essência, mesma classe, uma nova roupagem”. 

-Leia a matéria que fizemos sobre a primeira Mixtape de Dário Inerente

Tem quem separe alegria de reflexão, corpo e espírito, estudo de diversão, dicotomias que ocidente implantou nos corpos colonizados. E obviamente, a indústria cultural faz uma festa, diante da fragilidade de concepção de que a arte pode e deve ser sempre alegria e reflexão, porque não existe arte que entristece, porque mesmo que ela cause incômodo, ela potencializa o nosso viver se estivermos abertos a pensar o que foi recebido.    

Com a potência do coletivo, perceba como Dário Inerente rima a morte do pai com o pandeiro e o passo bêbado de tristeza do equilibrista, e seguiu, “sem pedir, sem me humilhar, sem atrasar o lado dos outros”. Se isso não é uma bela afirmação de vida, eu não sei mais o que é. Esse é o seu “Abre Alas” onde o MC reza e assopra vida no loop do Barba Negra. E o bloco segue desfilando dessa vez em um beat elegantérrimo do Gvtx, um groove jazzy em “Saber Chegar”, onde o ethos da prudência diante da “Vida Puta” é a malandragem que faculdade não ensinam, mas que é extraída das ruas e sobretudo de uma relação diante da alteridade. 

Dário Inerente
Foto por Augusto Santos aka @method_av

A costura do caos, ao “Estilo do Bairro” produção do Neto (Síntese), traz um beat mais cadenciado, onde o Dário Inerente mostra que também compõe bons refrãos: 

A verdade na pupila, identidade não tá no RG, a minha ira, não paga pra ver, o hype vai o real fica, o instinto e a malícia, pra esquivar da maldade, muita ginga

Em seus versos, Dário Inerente consegue – sem didatismos – entregar pensamentos profundos com uma leveza poucas vezes vista, e que não são frases soltas: “ele tem tudo orquestrado, o fundamento, um pensamento blindado”. Aqui em “Estilo do Bairro”, a estrutura dos versos, vai entregando ao ouvinte a formação e as intenções do MC em um pêndulo que trabalha em um zigue-zague temporal, enquanto o beat marca não somente o tempo, mas também o espaço. Note como ele começa com tudo pronto, mas volta pra infância adolescência (meu jeito estranho, me fez muito mais ágil) e segue nessa toada. 

Apesar de contar com o reforço de grandes produtores, Dário Inerente também produz e o beat de “A Todo Vapor” é dele. Essa é mais uma faixa presente no disco que o amarra tematicamente, hoje é comum ver e até mesmo, se tornou uma distinção simbólica anunciar álbuns conceituais. Muito crítico, bunda mole, e uma parte incauta do público ao ouvir conceitual se mija de emoção. Mas muitas vezes são incapazes de julgar a adequação entre o proposto e o executado, por outro lado essa mesma classe não consegue apreender as soluções de continuidades bem construídas, quando não se fala conceitual.

Neste disco, o conceito – apesar de não ter sido anunciado – avança não apenas com jargões mas através da construção poética e rítmica, como um glorioso desfile da cultura Hip-Hop. A rigor, não existe disco conceitual, pelo menos não na música pop, o conceitual foi utilizado para dar conta de disco que possuíam uma unidade estética e narrativa, que se distinguia dos discos como mero agrupamento de singles. Dário Inerente, com o seu “Bloco na Rua” transforma a poesia das ruas em cordão que unifica o seu/nosso movimento de escuta. 

-Leia no site a matéria que fizemos sobre os singles audiovisuais lançados pelo Dário Inerente 

Os riscos do DJ Noé, a cadência contagiante do beat, mas sobretudo a poética do Dário nos carrega por entre sua vida e sua arte, nos colocando na posição de foliões deste Bloco. Note-se novamente e perceba-se como o movimento é algo sempre constante, quando novamente Dário cita a morte do pai não em termos de fim, mas de partida – para o mistério e o desconhecido – que lhe alimentou a ser esse que por onde passa, bagunça, e que faz da vida esse caminho de quedas e vôos, de coletas e entregas, porém “A Todo Vapor”, independente das velocidades ou lentidões.

Dário Inerente
Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops aka MC Ralph

Prova disto é a faixa seguinte “Nas Esquinas”, mais uma cortesia do Barba Negra, onde Dário Inerente prossegue blindado em suas palavras por um universo de referência que vai do escancarado Chico Science – já na intro –  a reelaborações poéticas: “a minha fé que eu amolei tal qual a faca mais fina” – “Fé Cega, Faca Amolada”. Diretamente do underground do underground, ou seja, do interior de um estado nordestino, o movimento prossegue e a substância é o carnaval, a força festiva supramencionada, que Dário Inerente toma de empréstimo, para o seu “Bloco na Rua” de afectos e perceptos. De ideias críticas e de construção poética que não almeja o hype, mas a verdade. 

Uma boombpera nojenta, com acentos jazzy, cortesia do monstrinho pedrvso que sobe novamente os bpm’s, é a avenida em “Camisa 10”. Longe de atualizar inimigos imaginários, como muitos rappers fazem hoje, nesta faixa Dário Inerente aponta sua caneta como vendeta, contra uma pá de otário plastificado, e a polícia genocida. Mas, perceba que é o movimento que conduz a crítica, com os riscos do DJ Noé que presentifica nomes como Marcelo D2, Parteum, OQuadro e GOG. 

Único feat do disco com um MC, Dário Inerente convida Davzera, em um diálogo entre Itabuna e a capital, banhado de “Dendê”. Em mais um beat de sua própria autoria, o grapiúna tempera suas rimas com bastante apuro e a força dos orixás. O já conhecido e aclamado no underground brasileiro flow e construção do Davzera se faz presente. No skit que se segue, tem uma reprodução de uma fala de Elis que é famosa: “Eu dou o tiro, quem mata é deus”. 

Dário Inerente
Foto por Augusto Santos aka @method_av

O Skit em questão chama-se “Coisa de Espírito”, e pescando essa frase de Elis, mais do que concordar com a relação possível de causa e efeito, entre o tiro e a vontade de deus, me parece que é a intenção do Dário Inerente que conta aqui. Anos luz de distância de dizer que vai vencer e pipipopopo, ao longo do disco o artista deixa claro que sua intenção é viver com dignidade da sua arte, mas que entende como funciona a indústria e lança sua flecha para o universo, quem tiver condições que a aceite. 

Seguindo “Atento e Forte”, em mais um beat próprio e um dos que achamos mais foda no disco, o MC novamente não se contrapõe, convoca: “quero ver você” e enumera seus obstáculos e hábitos. “Eu já ganhei desde o começo ao entender que isso não é um jogo” canta Dário Inerente no loop de sua autoria e que fecha o disco: “Minha Arma (Outro)”.  “Enquanto eu passo é meu bloco” ele rima em outro momento numa faixa anterior. 

O fim do desfile não é a morte do movimento que percorre todo o excelente trabalho entregue pelo Dário Inerente em “Bloco na Rua”. Estamos de fato, diante de um disco de estreia que como dissemos no começo, se insere em uma tradição e nesse processo este disco é já um dos motores da cultura Hip-Hop no Brasil e em Itabuna. A riqueza que ele traz é também fruto do cenário em que se desenvolveu, e em um processo dialético e de formação, Dário coloca Itabuna no mapa do Rap no país. 

Como sabemos que há muitas vezes por má vontade, problemas de interpretação, vou reformular. Dário Inerente carrega em seu trabalho Itabuna, pois foi lá que ele se formou, junto a outros MC’s e como continuidade de uma tradição que lhe é anterior. “Bloco na Rua” é um disco que traz no nome esse movimento, o bloco posto – Tradição – foi colocado mais uma vez em movimento, e nos parece que o grande mérito desse desfile, além da grande qualidade individual e do esforço coletivo, foi trazer todos os seus e a sua cidade junto.    

-Dário Inerente em swingue crítico, “Bloco na Rua” é uma afirmação da força do Rap Baiano!

Por Danilo Cruz 

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