Oganpazan https://homolog.oganpazan.com.br Oganpazan Fri, 22 Aug 2025 15:33:03 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.3 Oddish do velho testamento voltou, plantando a Dissgraça contra Baco Exu do Blues! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/oddish/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/oddish/#respond Fri, 22 Aug 2025 15:33:03 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38950 Oddish, MC conterrâneo de Baco Exu do Blues, retirou alguns esqueletos do armário e soltou uma diss pesada!
Oddish
Oddish

Oddish é um dos grandes nomes da história do Rap Baiano, o Mc possui uma caminhada oriunda das batalhas, onde durante anos foi um nome simplesmente imbatível. Em 2014, ele lançou seu primeiro disco solo: “Ponteiros Voam Como Jatos”, um disco sujo e cáustico, que deu o start para sua obra fonográfica de modo irremediavelmente baiano, trazendo samples do Igor Kanario e cuspindo barras. 

Integrando o bando “Fraternidade Maus Elementos”, Oddish foi uma das peças psicóticas utilizadas no clássico recente: “Eles Não Vão Perdoar” de 2015, e daí o MC seguiu trampando com seus parceiros de grupo e soltando diversos singles nos anos 2017-2018. Oddish retornou ao cenário em 2021, com o consistente disco Onironauta. O disco que chegou na pista com a produção do Degraus Beats, trouxe participações do Teagacê e do Dactes. 

Ao longo de sua obra, Oddish trabalha meio numa perspectiva o Médico & o Monstro. O Monstro é o que chamo de Oddish do velho testamento, cuspindo sujeira de modo muito único e com uma identidade muito baiana. O Médico é o Felipe Castro, lidando com os seus demônios internos, expondo-os em lírica numa pegada mais alternativa. Exemplo disso, é o seu EP lançado no ano passado: Âmago. 

Hoje ao meio dia, o Monstro ressuscitou e veio inclusive com as características iniciais, reeditando a sua inspiração em outro Parmalat: Igor Kannário. A faixa “Breja na Sacada” é um diss pesada ao rapper seu conterrâneo e desafeto: Baco Exu do Blues. Oddish tirou uns esqueletos do armário, algumas coisas que são comentadas na cena baiana, e produziu uma diss que dá gosto de ouvir pela já conhecida qualidade lírica do MC.

 

As linhas de soco que Oddish disparou atacam elementos diversos da construção artística do Baco Exu do Blues e a sua virada pop, como o seu novo Rebranding, mas vão além e expõem questões “supostamente” vivenciadas juntos, por isso o título “Breja na Sacada”. Além de usar os títulos de algumas das faixas do Baco como parte da construção da diss.   

Será que haverá resposta? Até hoje, Baco nunca respondeu as diversas linhas que recebeu e nem as diss abertas de ataque, então é aguardar!

-Plantando a disgraça? Oddish do velho testamento voltou com uma diss para Baco!

PorDanilo Cruz 

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Cocoa Tea, um dos grandes mestres do dancehall, lançava 5 pedradas há 40 anos! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/cocoa-tea-mestre-do-dancehall/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/cocoa-tea-mestre-do-dancehall/#respond Fri, 22 Aug 2025 07:11:56 +0000 http://oganpazan.com.br/?p=16131 Cocoa Tea Um dos grandes mestres do dancehall, em 1985 estreou com uma enxurrada de discos geniais mas que infelizmente são pouco conhecidos

Cocoa Tea

 

A rica história da música jamaicana tem em Cocoa Tea um capítulo importante e fundamental para todos os admiradores dessa cultura linda e resistente. Frutos que vem da pequena ilha que não cessa de nos dar presentes maravilhosos, apesar de tudo. Frutos que foram decisivos para o desenvolvimento da música mundial, algo reconhecido por todas as almas sensíveis a grande música negra proveniente da Jamaica que floresceu em diversos outros gêneros.

Mas por incrível que pareça, foram os branquelos do Sublime que nos levaram ao grande mestre do Dancehall. Cocoa Tea foi uma das muitas fontes nas quais a banda californiana bebeu, assim como Bob Marley e Toots & The Maytals, outras fortes influências jamaicanas em sua música.

O Sublime é uma banda californiana que apareceu pro mundo com o estouro da música Santeria na MTV, um clipe do excelente terceiro disco homônimo lançado em julho de 1996, três meses após o seu vocalista, guitarrista e compositor principal morrer. Foi através de uma música do excelente 40 Oz To Freedom (1992), que numa audição alguém – a memória queimou – citou Cocoa Tea, obrigado mesmo assim. 

Obviamente, tendo aprendido cedo a lição de que é preciso burlar a industria cultural e ir beber direto na fonte,  corremos atrás dessa referência, e nessa caminhada já se fazem algumas décadas que curtimos muito a música genial, feita por mais esse mestre jamaicano. 

Nascido como Calvin George Scott em 1959, em Rocky Point, Claredon, o jovem Calvin entrou para a escola primária em sua cidade e seguiu depois seus estudos, na escola secundária Bustamante Junior na localidade de Lionel Town. Já muito cedo o pequeno Calvin se destacou nos corais de igreja onde passou e essa exposição o levou a gravar a primeira música, Searching In The Hills (1974) com apenas 14 anos.

Essa estreia prematura, que não trouxe sucesso nem dividendos não lhe encorajou a seguir a carreira da música, e sendo assim Calvin Scott seguiu sua vida, exercendo as profissões de jockey e pescador durante os próximos 5 anos. Mas a música falou mais alto, e enquanto pescava ele começou a organizar sua carreira musical. Passou a escrever suas músicas e testá-las nos bailes, onde aos poucos começou a ser valorizado com sua arte. Cocoa Tea foi o nome artístico adotado pelo artista, proveniente de sua paixão por chocolate quente. 

Henry Junjo
Henry “Junjo Lawes & Barrington Levy

Mas foi o nascimento de sua primeira filha Rashane, que lhe trouxe à consciência a necessidade de firmar uma carreira profissional na música. Depois de muitos treinos e já escrevendo material próprio, em 1983 depois de esculachar numa apresentação épica num dos Dancehalls que frequentava, atraiu a atenção do produtor Henry “Junjo” Lawes. Dessa parceria nasceria logo a seguir grandes clássicos do Dancehall jamaicano. 

Entre os anos de 1982 e 1985, é possível afirmar que Cocoa Tea desenvolveu o seu estilo musical, e soltou uma excelente sequência de pedradas como singles. Grandes sucessos como Lost My Sonia(1982), Rocking Dolly (1983), Who A The Champion (1984) e Christmas Is Coming (1984), foram aos poucos moldando os ouvidos de geral para a arte que Cocoa Tea, firmaria definitivamente em 1985.

Ano importante profissional e espiritualmente, para o artista, foi exatamente no meio da década de 80 onde Cocoa Tea estreou com seus primeiros LP’s, ao mesmo tempo em que se convertia ao modo de vida Rastafari. E, não estamos falando de qualquer estreia, estamos falando de nada menos que 4 discos oficiais lançados em 1985 e mais uma copilação de batalhas. Essas cinco pedradas completam 40 anos de lançamento em 2025.

A cultura fonográfica jamaicana implica que muitos discos de um mesmo artista, às vezes sejam lançados como meras copilações de singles, e no caso de Cocoa Tea não foi diferente. Porém, desses 5 discos, apesar de termos alguns singles se repetindo de um disco para outro, para aproveitar a popularidade alta de alguns de seus hits, o material original se impõe entre esses lançamentos. 

R-1940150-1260955610.jpegCocoa Tea – I Lost My Sonia (1985)

Uma verdadeira copilação de grandes sucessos, certamente esse primeiro disco fruto da parceria entre Junjo Lawes e Cocoa Tea, é um dos discos mais marcantes da cultura dancehall. Daqueles álbuns, em que colocamos e seguimos ouvindo no repeat, pois além dos clássicos Rocking Dolly e Lost My Sonia temos outras grandes músicas, como Informer e Evening Time, por exemplo onde o grande mestre mescla com sua genialidade a rapidez no flow e a doçura de sua voz. 

Disco lançado pela pequena gravadora Volcano, operada naquela altura pelo produtor Henry “Junjo” Lawes, o selo que era distribuído pela Sony também gravou nomes importantes da cultura dancehall como Yellowman, Beenie Man e Eek-A-Mouse, entre outros grandes. Infelizmente, não conseguimos informações mais aprofundadas sobre a banda que o acompanha nas faixas que compõem o disco. Mas, apesar de muitos sites apontarem que a copilação, essa sim, uma coletânea Rocking Dolly (1986) ser o primeiro disco do artista. É aqui, que o mundo conheceu o primeiro disco cheio do mestre jamaicano. 

R-3474332-1466279928-7714.jpegCocoa Tea – Weh Dem A Go Do… Can’t Stop Coco Tea (1985)

Segundo disco em parceria com o Junjo Lawes, mais um lançamento pela Volcano, temos aqui a repetição de muitos dos sucessos presentes no disco anterior porém com o acréscimo de algumas faixas inéditas. Entre essas músicas inéditas, um excelente exemplo da delicia que é ouvir a música de Cocoa Tea, é a terceira faixa, Jah Made Them That Way. Um reggae mais tradicional, onde a doçura da voz do jamaicano vem a tona com uma força incrível, daqueles reggaes feitos pra dançar coladinho no amor. Outra pedrada hipnótica, é a quinta faixa presente no disco, Can’t Stop Cocoa Tea, que deixa-nos bastante claro, o porque. Rimando com suavidade e muita malemolência, o mestre vai nos envolvendo com uma tranquilidade deliciosa.

Um single não inserido na sua estreia, On Top Of The World, chega pesado nesse disco, originalmente lançado num 12″ junto a Christmas Is Coming em 1984, aparece somente aqui como a penúltima faixa da bolacha. Fechando a sequência de 10 pedradas na sequência, o nosso capacete é atingido por outra pequena perola com Chalice Nuh Fi Ramp With. Um segundo disco que mesmo que contando com pelo menos metade das músicas já lançadas no album anterior, não pode ser visto como apenas mais uma coletâneas.   

As quatros músicas inéditas contidas na bolacha já são mais do que motivos suficientes para se apreciar essa maravilha sem moderação. Além do fato, de que esse é um dos poucos discos que estão presentes na integra nos tão festejados streamings e com uma boa qualidade de remasterização. 

CapaTenor Saw / Cocoa Tea – Clash (1985)

As batalhas, as disputas são algo fundamental dentro da cultura da reggae music, desde as disputas dos sound systems que buscavam esconder, uns dos outros os selos dos discos que tocavam ali pelos anos 50 e 60 até as batalhas dentro dos mesmos bailes. E obviamente, os deejays não ficariam de fora, e é dentro desses contextos que surgem os discos de Clash (batalhas), onde performances de dois ou mais artistas do dancehall são copiladas.

Aqui, Coco Tea possui 3 músicas e o outro grande nome do dancehall Tenor Saw, outras três cançoes, onde as músicas são intercaladas por performances dub de artistas não identificados. Os riddims utilizados aqui por Cocoa Tea, diferentemente dos dois primeiros discos, já possuem muitos elementos da música eletrônica que então começava a ser a base para os riddims originais.

O disco lançado originalmente pelo selo inglês Hawkeye Records, é ao que consta o terceiro lançamento desse ano mágico para o artista. As músicas presentes do mestre Cocoa Tea são: Nah Give Up, You and I e My Time, e são exemplos de sua grande qualidade e originalidade, pouco conhecidas as faixas, mas facilmente encontráveis em programas P2P de download de mp3.

R-1430821-1439320237-2588.jpegCocoa Tea – Mr. Cocoa Tea (1985)

Terceiro disco do mestre “Calvin Scott” e primeiro de uma sequência de três que gravaria junto ao produtor King Jammy’s, Mr. Cocoa é mais uma coleção impressionante de grandes pedras do dancehall. Nas mãos do grande produtor King Jammy, Cocoa Tea recebeu nos riddims que utilizou aqui, toques de dub e outras timbragens que podem ser facilmente identificadas pelo ouvinte. Marcando assim uma nova fase em sua carreira.

Lançado pela Corner Stone, gravadora do King Jammy’s, é também de algum modo o primeiro disco onde Cocoa Tea começa a trazer em suas letras a força da sua conversão ao Rastafarianismo. Aqui vale a pena notar, que os dois primeiros discos lançados em 1985 traziam ainda composições mais antigas de 82 a 85, e nesse sentido, Mr. Cocoa Tea, é o primeiro disco do mestre a refletir de modo sincronizado seu momento politico e espiritual.

As canções deste disco não tiveram o grande sucesso, das que estão presentes nos dois primeiros discos, mas são pedradas de igual valor, com destaque para as linhas de baixo ressaltadas nas produções do King Jammy’s. Músicas como Come Back, We Haffi Leave e I’ve Got To Love You Jah, mostram isso na aproximação ao classic reggae.

Destaque para Sweet Coco Tea, novamente uma daquelas onde as qualidades mais fortes do canto e do flow do artista jamaicano ficam mais aparentes. Outra nessa linha é a Try a Thing, que é só chuva de groove fechando o disco com metais adicionados, é prova de que o mestre não viveu neste começo de poucos hits, mas sim de uma obra muito consistente.

R-5081249-1449363365-7709.jpegCocoa Tea – Settle Down (1985)

Segundo lançamento pela Corner Stone e com produção do King Jammy’s, que ainda produziria Come Again (1987). Esse é oficialmente o quarto disco da carreira de Cocoa Tea, e é surpreendente o quanto esse artista produziu e lançou em apenas um ano. Durante esse passeio pelos seus quatro discos oficiais e mais a copilação junto ao Tenor Saw, a impressão que fica é que Cocoa passou seu tempo enquanto pescava planejando com maestria os caminhos que seguiria. Pois, com quatro lançamentos oficiais, o artista não deixa a peteca cair em momento algum, a qualidade e a variedade de sua arte não conhecem meio termo, pelo contrário, disparando para todos os lados, trabalhando com grandes produtores, ele firmou seu nome na história do reggae de modo definitivo.

Don’t Be Shy é certamente um exemplo de que hits são construções feitas por muitos fatores que estão além da música, pois essa é uma canção que esta no mesmo nível de suas mais conhecidas produções. Outra música presente nesse disco e que confirma a mesma linha de pensamento, é a maravilhosa I’ve Got To love You, uma pérola que reflete o momento de conversão do músico. Música que nomeia o disco, Settle Down também é outra pedrada que traz fortes mensagens sobre a religião rastafari.

Ao longo das oito canções presentes em Settle Down (1985), mas sobretudo durante a audição desses primeiros discos do mestre Cocoa Tea, é indelével a certeza que esse é um artista que precisa ser redescoberto. E que fique bem escuro, aqui estamos apenas diante da estreia, o primeiro ano de lançamentos de discos cheios do artista jamaicano, que ainda estouraria pro mundo inteiro e que seguiria produzindo a todo vapor. Infelizmente, esse grande mestre faleceu no dia 11 do mês de março deste ano, mas obviamente sua obra é imortal.

Desejamos que essa introdução a obra do Cocoa Tea lhes instigue a descobrir mais outras pérolas desse grande artista jamaicano:

-Cocoa Tea, um dos grandes mestres do dancehall, lançava 5 pedradas há 40 anos!!

Por Danilo Cruz 

 

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Relvi & Traumatopia, MC e DJ virados na “Peste”, diversão garantida… https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/relvi-traumatopia-mc-e-dj-virados-na-peste-diversao-garantida/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/relvi-traumatopia-mc-e-dj-virados-na-peste-diversao-garantida/#respond Wed, 20 Aug 2025 18:30:39 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38884 Diretamente de Curitiba, a dupla Relvi & Traumatopia fizeram um disco onde as 13 músicas mostram a afinidade essencial!

Relvi

 

A parceria entre Relvi & Traumatopia tem nos entregado excelentes discos desde 2023, primeiro com “Cinza com Azul Mesclado” e depois no mesmo ano com “A Guerra Que os Heróis Não Sabem”, este último junto ao Galf AC. Dois discos que nós resenhamos na altura do lançamento, e quem acompanha meu trabalho sabe que o Traumatopia é um dos, senão o beatmaker que mais me impressiona atualmente, mas cordialmente devo discordar dele, “Peste” é sim, também um disco de festa.

Inclusive, estou tendo dificuldades para escrever enquanto escuto o disco, pois a produção musical – independente do bpm – faz o corpo responder. Por exemplo, começou a tocar agora “Miradouro”, como ficar parado ouvindo esse beat? Fica aí o questionamento. Nos parece que a questão é outra: quem hoje está a altura de uma festa do “Peste”? Quem hoje é capaz de se divertir seriamente? Afinal, é sempre bom lembrar: Diversão é coisa séria!

Nos últimos anos, principalmente após 2015, vendeu-se a ideia de que o rap tinha que falar merda, ou ser algo aguado para que seja melhor digerido e “curtido”. A música preta já passou por isso, quando o Bebop foi vendido como uma música “intelectual”, para pensar, e não para dançar, não para se divertir – como antes eram as orquestras de Swing. O que é uma visão eurocêntrica, que separa a mente do corpo. Onde o intelectual é o sério, o relevante, e a diversão é irracional e superficial, em uma dualidade que nos remete ao que de pior a Europa e o colonialismo nos relegou. 

Com “Peste”, a dupla Relvi & Traumatopia produziram um disco que alia muito bem essas duas perspectivas, e onde a música seduz corpo e mente, como ocorre em grandes obras. O disco lançado pelo selo – com projeto de dominação mundial – “Sujoground”, balança com a excelência da produção do Traumatopia ao longo das suas 13 músicas, com o Relvi recheando as batidas de flow e ideias e contando com as participações dos MC’s Cabes, Will Santos, Galf AC e Alienação Afrofuturista.

A faixa de abertura dos “Peste” traz o emblemático título de “Construção” e vai na contramão dos discursos ilusórios de uma metafísica neoliberal que pretende ofertar recompensas provenientes de um céu do capital, onde se chegará por mérito próprio. A faixa construída com um loop hipnótico de guitarra, made Traumatopia, elabora uma outra visão de mundo, onde o coletivo e as alianças, junto com muito trabalho: “Carrega a massa subindo a construção”.

E o concreto utilizado na faixa seguinte, e ao longo de todo o disco, é não o resgate de uma estética, mas a atualização da pertinência do boombap como espaço de pensamento e diversão. Muitas pessoas não prestam atenção à importância das palavras como ferramentas do pensamento, e não é incomum vermos a utilização de termos como evolução, a frente do tempo, avançado, e outras denominações “temporais” que pretendem dar conta da avaliação de trabalhos e artistas. 

Mesmo entre figuras destacadas do cenário brasileiro, é possível por exemplo ver críticas à utilização de “palavras difíceis”, como se fosse necessário e mesmo desejável o empobrecimento da linguagem para que a comunicação dentro do campo da arte, seja vitoriosa. Falo disso aqui, porque no campo da arte não existe evolução, há desenvolvimento técnico e criativo, da mesma sorte que não há artista à frente do tempo, o que existe muitas e muitas vezes é um público empobrecido cognitivamente e embotado afectivamente, por conta de nossa história de desigualdade social, econômica e política e pela massificação da indústria cultural. 

Relvi
Relvi & Traumatopia

Neste sentido, o retorno do boombap aos holofotes possui um outro significado para além da mera estratégia marketeira que tem alçado alguns MC’s medianos ao estrelato da indústria. O boombap possui em sua forma um espaço possível de criação que une, a tal diversão ao desfiar lírico que não precisa se encurtar para se encaixar, tendo possibilidades infinitas de modulação de flow e de criação lírica. Obviamente, as características espaço-temporais presentes em cada uma das formas musicais dos subgêneros do rap são singulares e passíveis de criações diversas. 

No entanto, nos parece que “Peste” – nosso objeto aqui – é um excelente exemplar de como formas consagradas encontram em sua repetição elementos diferenciais e singulares, únicos. Os timbres usados por Traumatopia e suas construções de batida, são a prova disso. Somos arrebatados pelos beats não por um exercício de semelhança com clássicos, senão obviamente, preferiríamos ouvir os “originais”, mas pelo diferencial que o artista capta e comunica hoje. 

Em “Cotidiano” esse exemplo é notório, Traumatopia vai além como em outros momentos do disco, e nos mostra não apenas a pertinência criativa das formas consagradas do boombap, como risca os toca-discos com maestria. Relvi por sua vez, constrói uma lírica que vai muito de encontro com a questão aqui abordada: 

“a Peste vai infectar não existe abrigo, o final é o início, reset não tem, mas recomeçar é de lei, passado só serve pra museu, eu sei que nada é pra sempre, ficando só o que plantei”     

Uma concepção que não nega a tradição, mas que se entende como parte de um círculo temporal que arremessa uma flecha para o futuro. O bate cabeça é a tônica de “Dois Elementos” onde Relvi afirma a importância de sua parceria dos beats do Traumatopia, que juntos colocam na fogueira toda a mediocridade. Esses dois elementos já tinham lançado excelentes trabalhos nos últimos anos, trazem de Curitiba, um dos pontos altos do rap feito no Brasil em 2025.      

Relvi E é isso né, o artista que é contemporâneo ao seu tempo é aquele que não fala a mesma língua de todo mundo, porque ancorado de modo profundo no tempo em que vive, consegue nos trazer a compreensão que muitas vezes a vida cotidiana nos nega. “Deixa que o tempo vai dizer o que tem que fazer, certas são ilusões melhor deixar de saber”, “Ordem do Dia” já começa com esse tiro no pensamento do homem médio. Hoje encarnado no pessoal que se entende informado, pelo whatsapp e ou por páginas de fofoca, por notícias que escondem suas causas. 

A faixa traz a participação do mestre curitibano Cabes MC, que já emenda uma sequência cabreira de versos onde o artista nos mostra o “caos” do cotidiano e o aprisionamento subjetivo e consequentemente político de possíveis visões de futuro. Ainda sobre a questão do tempo, os 3 minutos da faixa parecem se passar em 30 segundos, dada a força de sua duração, um dos grandes momentos do disco. 

Em “Envelhecer”, Traumatopia recicla o sample loopado na primeira faixa e acrescenta uma batida, que é assumida pela lírica do Relvi que segue fazendo seu próprio “tempo” dentro do Tempo em que vive, combatendo o racismo e o fascismo mais atual do que nunca. Colocando fogo no parquinho, “Inflamável” em mais um beat que nos coloca no mood de balançar o corpo e o pescocinho, e onde Relvi segue destilando um flow incandescente.    

Aliado à batida, Traumatopia mete um baixo estourado em “Rocky & Apollo” que traz o MC Wil Santos no feat com Relvi, DJ Trauma novamente esculachando nos scratchs, arranhando nossos cérebros. A faixa destila a luta simbolizada no título, como a busca dos “perdedores” dentro do sistema em que vivemos, onde os MC’s diagnosticam com excelência os obstáculos da classe trabalhadora.

Momento importante dentro do aspecto discursivo do disco, e que nos parece coadunar bastante com a visão espaço-temporal, mas também ética presente ao longo do “Peste”, a faixa “Cautela” chega no que podemos chamar de metade do disco. As linhas do Relvi, muito bem construídas em todas as faixas, aqui é um aviso sobre o game, sobre a política, mas sobretudo sobre o “Ethos” que o move. 

Se distanciando do falatório que muitas vezes compõem as personas de muitos dos atores da indústria do Rap, Relvi flutua bonito em “Altos e Baixos”, mas um beat exemplar do Traumatopia. E mesmo diante de um momento onde os acontecimentos da vida poderia indicar uma baixa tendencial, Relvi encontrou sua medicina nos versos, em suas criações, como espaço vital para seguir construindo sua história. 

Longe de serem poetas em torre de marfim, em Miradouro, Relvi & Galf AC, entregam aulas em cima do que considero o beat mais sensacional do disco, algo difícil em uma das melhores produções do ano. Os versos do Relvi reforçam a ideia de que em Peste, a questão da temporalidade é talvez o tema central, seja da própria percepção do tempo da vida humana e sobretudo da questão da finitude, seja do tempo transformado em mercadoria dentro do capitalismo. Onde utilizamos palavras completamente viciadas para falar de algo que nos constitui, que são as bases mentais através das quais percebemos o mundo. 

Relvi

“Deixa eu falar, que o tempo é rei, mas às vezes um pouco escasso, agora eu sei eu sei, faltam horas nessas 24, faltam verdades nesses fantasmas, e isso é fato” 

Para quem prestar atenção, perceberá uma contradição entre o tempo é rei e faltar horas nas 24 que compõem o dia. Contradição essa que pode ser entendida pelo completo descompasso entre o ritmo da vida e o regime capitalista de produção em que estamos inseridos. E que à guisa de resposta, encontra nos versos de Galf AC uma interessante visão, da necessidade de voltar-se para dentro de si, com um processo de introspecção que rompa com a velocidade alucinatória em que vivemos. Buscar reger o próprio tempo, como senhor de si mesmo e do seu próprio ritmo, melodia e harmonia, não é outro senão o papel da nossa busca por liberdade. 

Como escrevi recentemente, em uma resenha sobre o disco do grapiúna Dario Inerente, hoje no rap nacional é comum projetos grandiosos e com conceitos megalomaníacos não entregarem a mesma solidez marqueteira em termos estéticos. Ao que me parece, aqui estamos diante de outro exemplo de um disco que foi vendido pelos artistas e nem pela Sujoground como conceitual mas que ainda assim, possui uma forte coesão de ideias sonoras e de temas poéticos. 

E quem diz não sou eu, é o próprio Relvi, que comunica ao Traumatopia o desejo de tomar a música do clássico Subsolo como tema da faixa “À Deriva”: “Outro ano vem outro vai e eu nem vi passar”. Diante do caos social e político a música aborda essa forma de estar no mundo, à deriva, seguindo o fluxo dos acontecimentos. Relvi desfia versos diversos sobre temas que são éticos e geopolíticos com uma urgência muito forte mas sobretudo como um sinal de saúde artística. 

Com “Eclipse” penúltima música do “Peste”, Relvi traz uma semiótica do fim: “Vivendo o Pós Apocalipse no Apocalipse”, algo hoje muito comum de ouvir, e que não tem o mesmo aspecto milenarista que ocorreram nas viradas dos anos 1.000 e no ano 2.000, com o famigerado Bug do Milênio. Hoje, muitos assumiram um fatalismo covarde diante das crises todas que o Antropoceno e o Capitalismo tardio provocaram, provocam e provocarão cada vez mais e mais rápido nos próximos anos. 

O disco se encerra com a participação do Alienação Afrofuturista na faixa “Song from the Death”, e extrai da mesma fonte da faixa anterior – um mundo que caminha para vala a passos largos – as ideias líricas. Aqui, Blade, Constantine, são evocados como anti-heróis para combater os monstros, vampiros e congêneres que impulsionam e produzem um estado de morte constante. É só o ouvinte pensar na ascenção da extrema direita e no atual genocídio televisionado do povo palestino por Israel que nenhuma imagem ou metáfora parecerá sobrenatural.      

Ao fim da audição, diante de todo o quadro apresentado em Peste, não é fácil pensar em diversão, quando entendemos essa palavra como escapismo. O mero entretenimento, diante de um mundo caótico, que o indivíduo desesperado busca para algumas horas de entorpecimento. No entanto, a realidade volta e muitas vezes em um rebote mais forte, pois grande parte do que é colocado na caixa de entretenimento inofensivo é mais uma tecnologia da indústria cultural supremacista branca, para o melhor apodrecimento e subjugação subjetiva da massa incauta.  

Dito isso, na festa que eu imagino e sonho, mas que pratico aqui em minha humilde residência, “Peste” é um disco festivo. É o estímulo que me alegra e me faz querer escrever sobre. Obrigado aos envolvidos!   

-Relvi & Traumatopia, MC e DJ virados na “Peste”

Por Danilo Cruz 

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Os 10 Pilares de Abebe Bikila (BK) ou Pablo Marçal na Etiópia, arrivismo hard em “DRLE” https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/os-10-pilares-de-abebe-bikila-bk-ou-pablo-marcal-na-etiopia-arrivismo-hard-em-drle/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/os-10-pilares-de-abebe-bikila-bk-ou-pablo-marcal-na-etiopia-arrivismo-hard-em-drle/#respond Wed, 20 Aug 2025 15:31:02 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38925 Recentemente o MC carioca BK, um dos nomes mais destacados do Rap brasileiro lançou o filme “Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer”, analisamos os 10 Pilares propostos!

BK

No penúltimo lançamento do BK, Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer (o filme), o arrivismo narcisista, há muito já presente no rap brasileiro, totalmente rendido aos preceitos neoliberais, alcançou talvez o seu ponto mais agudo. Já faz muitos anos que artistas como Filipe Ret entre outros, transformaram a capacidade crítica do Rap em mera performance narcisista, recheada de clichês de auto-ajuda, posando de filosofia existencial. 

Este texto é uma análise semiótica e de discurso, do que subjaz como texto subreptício presente no filme “D.R.L.E” que possui a direção do Vellas. Porém, não conseguimos localizar a autoria das falas e dos textos presentes no filme, o seu escabroso roteiro. No entanto, tomamos aqui o conjunto da obra como assumido por BK, uma representação visual do disco Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer (2025) e consequentemente como reflexo e complemento imagético e ideológico do mesmo.  

No filme que precedeu o lançamento de “DRLE”, último disco do MC carioca BK, Os 10 Pilares do Abebe Bikila – ele mesmo e não a figura histórica – o coach rap contemporâneo no Brasil, encontrou o seu messias mais radical. O filme gravado na Etiópia mescla mistificação histórica e um flerte muito forte com uma noção difusa de Darwinismo Social. O discurso do MC empreendedor de si mesmo, o self made man, agora se porta como líder de um bando nômade – sem nenhum fundamento histórico – convidando seus “colaboradores” a se portarem com o máximo de crueldade possível diante do Outro. 

A forma completamente deturpada que pretende contrapor o Nomadismo – como origem humana – ao Sedentarismo – forma de desenvolvimento das primeiras civilizações africanas –  é no começo do filme, a tese de base  na qual BK pretende assentar a sua visão estética.

“O homem é de origem nômade. O que fica parado atrofia. Perde a força. Vira o elo frágil de um bando que caminha pelo progresso. Um elo que atrasa e deve ser abandonado.”

Essa fala de um mais velho etiope, já nos primeiros segundos do filme, sugere uma confusão conceitual onde o nosso passado e o presente atual, longe de dialogar de forma crítica, é mistificado em nome de um ideal de progresso neoliberal. Confunde o “corre” contemporâneo, no estágio civilizacional extremamente crítico em que vivemos atualmente, com a vida nos períodos Pré-Neolíticos. 

BK

Já faz literalmente uns 10 mil anos, que deixamos de ser caçadores coletores, e passamos a dominar a agricultura e a criação de animais, assentando-nos em aldeias, cidades, etc. Apesar de ainda hoje existirem povos nômades, principalmente no continente africano, a busca por essa “origem” da humanidade, revela o caráter ético e político atual do trabalho do BK. Tanto no filme como no disco, aquilo que se pretendia movimento é na verdade um giro em falso dentro de uma ética de coach e de uma postura política neoliberal que beira o Darwinismo Social. 

A fera mítica utilizada no filme é bastante atual, a entidade que vive nas sombras e ri antes do ataque é no final das contas aquilo que BK pretende escamotear com os seus 10 Pilares, chama-se Capitalismo Tardio. Atualmente, na posição de corredor privilegiado, o artista carioca não possui nenhum escrúpulo em assumir a mesma posição do patrão inclemente, que não permite que uma mãe dê a luz aos seus filhos ou que quer que o seu “colaborador” use fraldas para não ir ao banheiro. 

Como passageiro na classe especial – mainstream –  da indústria cultural, ele observa impassível os que são deixados para trás, para morrer, pois o bando não espera. Sem nenhum distanciamento poético, a construção do roteiro são meras ilustrações em imagens movimento, das teses, que serão expostas ao final. Os ares de pseudo ancestralidade contida no mais velho que narra a lenda, se nos mostra em um esforço mínimo de interpretação como mera mistificação, que parece roteirizada pelo Pablo Marçal. 

Em entrevista recente ao programa Provocações, BK explica que viajou à Etiópia com o disco já pronto e que lá buscava por um lado, a exemplificação do Monstro – nome de uma das faixas do disco – e por outro a ligação do seu próprio nome. Ao chegar no único país do continente africano que nunca foi colonizado – junto a Libéria nação fundada em 1847 por ex-escravizados vindos dos EUA – o que BK nos apresenta é algo totalmente anti-africano: 

“Por isso, o bando não espera. Não faz distinção e nem concessão, amigos, família, amores. Todos ficam para trás.”

BKMetaforicamente, para serem devorados – “membro por membro, osso por osso” – social e no presente histórico para serem esquecidos, abandonados à própria sorte, marginalizados e por que não, mortos. Pois, o monstro atual assim procede e ele não é nem o BK e muito menos o Tempo, que nas religiões e nas cosmovisões de matriz africana possui uma forma cíclica e muito longe da linearidade ocidental proposta pelo artista. E que mesmo ao pensarmos na história da Etiópia, com forte ligação com o Judaísmo, com o cristianismo e com a religião muçulmana, manteve-se independente politicamente. 

Quanto mais BK busca se apropriar da ancestralidade etiope do seu nome, mais distante fica. Abebe Bikila, o maratonista que venceu duas vezes as Olimpíadas, na primeira delas descalço, um exemplo de resistência que está anos luz à frente do Abebe Bikila que parece propositalmente não reconhecer princípios básicos, hoje populares até no jargão das redes sociais como o: Ubuntu. A circularidade como forma e signo de grande parte – senão na totalidade – das bases ancestrais do pensamento africano em todas as dimensões, perde a corrida para um código de conduta que não encontra reflexo no território de onde é anunciado, a não ser como praga colonial inoculada e consequentemente reproduzida. 

O continente africano é um dos principais produtores de diamantes do mundo. Utilizando o diamante como signo de “progresso” e foco principal da “empresa”, BK o artista, esquece ou finge esquecer completamente do “custo” destes, aos países e aos povos africanos. E ao que parece daí deriva o resto, o BK que aparece ao final com uma tocha iluminando os rostos de um “bando” que ouve o patrão recitar os códigos de conduta, os 10 Pilares do neoliberalismo como política e do Pablo Marçal como modelo ético. 

A cultura Hip-Hop que outrora serviu de escola para jovens negros aprenderem sobre a história do continente, sobre as figuras de luta e resistência em África, se converte na imagem proposta em “D.L.R.E.” na mais absoluta mistificação neoliberal. Por vezes, nos lembra aqueles que falam sobre as formas de escravidão em África, antes do colonialismo. E sobretudo, na fixidez das estruturas prontas, o pensamento de BK presente no filme, não viaja, ele está completamente “mumificado pelas substâncias mais banais e comuns”, bandanas lhe atam firmemente e aprisionam o seu pensamento poético, levando basicamente a se tornar um ventríloquo das ideologias hegemônicas do Ocidente.

BK

Ele vai para a Etiópia, mas não há sinais de pensamento político africano, ou mesmo etiope, zero combatividade, nenhuma resistência. Na terra dos reis Menelik II e do honorável Haile Selassie, se comporta como um garoto de recados do Capitalismo tardio, reproduzindo a ética daí derivada. Não apenas preservando as estruturas de opressão, como reforçando e buscando expandi-las em seus aspectos mais permissivos e porque não crueis. 

Sendo assim, o viés sereno e duro com que BK aparece diante da câmera nas cenas do filme, longe de se portar de forma crítica, ou mesmo como um mero observador do status quo – filmado e poetizado – se coloca como administrador e porque não ideólogo de toda a alienação, brutalidade e mistificação que o filme presentifica. Em momento algum, há uma critica à quaisquer dos pontos apresentados e abordados acima. As imagens de época do maratonista Abebe Bikila – única fonte histórica real presente no filme – que tenta ser apropriada como signo da luta por acompanhar o “Tempo”, identificado como monstro, soam pueris. 

O filme se converte dessa forma em manifesto que não está ancorado em nenhuma visão crítica da realidade, um mero panfleto digno do movimento dos Legendários. Uma dureza masculina e negra que não condiz com o atual nível de debate sobre estes temas, uma visão política completamente despolitizante, entendendo política aqui, como a busca do bem comum, aliás não há “comum” na visão do bando que BK cria. Se entendermos o comum como reconhecimento e partilha com o Outro, o que há é o entendimento das relações éticas provenientes meramente de um “utilitarismo hardcore”, o que não mais “serve” é descartado e vale ressaltar, qualquer um – pai, mãe, filho, amores, amigos…

Desta sorte, nos surpreende um pouco a recepção calorosa por parte da crítica e do público, sem nenhum traço de reflexão. No entanto, entendemos que neste filme, BK e sua produção avançaram a um ponto que até então não tínhamos chegado no rap feito no Brasil. As oposições infantis e irrefletidamente reproduzidas sobre vencedores e perdedores, agora possuem um código de conduta que serve de diretriz base para os MC’s/Empresas. 

Os 10 pilares do Abebe Bikila é a primeira sistematização racional – não dá pra chamar de poética ou artística – de todas as frases de auto ajuda e as rimas motivacionais como: “Você é o único representante do seu sonho na terra”, encontra aqui seu estágio final e mais bem elaborado. BK se encarrega de ser o próprio Moisés, porém do Neoliberalismo mais tosco e cruel. A Ego Trip com recurso poético se torna práxis, saindo do campo da fabulação literária para o campo do pressuposto das leis éticas para o estabelecimento da relação entre as pessoas. O fracasso é covardia, a doença é preguiça, e o BK no filme “D.R.L.E” estabelece a norma – das mais crueis –  para os operadores, os gerenciadores da máquina de moer gente, nesta metade de segunda década do Século XXI. 

-Os 10 Pilares de Abebe Bikila (BK) ou Pablo Marçal na Etiópia, arrivismo em “DRLE” 

Por Danilo Cruz 

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Diego 157 Day, e porque devemos louvar esse mestre da nossa cultura https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/diego-157-day-e-porque-devemos-louvar-esse-mestre-da-nossa-cultura/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/diego-157-day-e-porque-devemos-louvar-esse-mestre-da-nossa-cultura/#respond Fri, 15 Aug 2025 17:29:13 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38898 Diego 157, MC e beatmaker que é um dos arquitetos da cultura Hip-Hop no elemento Rap, completa hoje 42 anos, você conhece a história?
Diego 157
Da esquerda Spock MC, Pacato & Diego 157. infelizmente não conseguimos identificar a irmã presente.

Diego 157 é um dos arquitetos da cultura Hip-Hop na Bahia, com mais de 20 anos de produções, o Hobbit da Massaranduba possui uma obra grandiosa e que se confunde com o próprio desenvolvimento do Rap baiano no século XXI. Conhecido inclusive nacionalmente, o trabalho do MC e beatmaker reúne produções diversas entre projetos coletivos e solo, que desde os primeiros passos sempre demonstrou uma imensa qualidade e relevância. 

É próprio da indústria cultural capitalista e supremacista branca brasileira produzir, por um lado, o esvaziamento de culturas pretas e periféricas e por outro, ignorância e invisibilidade, mesmo dos maiores mestres do nosso povo. Por isso, mais do que elogios e tapinhas nas costas, é preciso sempre lembrar de não esquecer o que “as areias do tempo” pretende encobrir. 

Diego 157
Formação oficial Coscarque, Diego 157, Lord e DJ Poeira

O primeiro registro fonográfico de Diego 157 a que tivemos acesso foi o projeto “H.U.N. – Hip-Hop Underground Nordestino”, em um EPzinho de apenas 4 músicas mas que é um documento histórico brutal. Dito & Feito foi gravado há quase 20 anos atrás, em 2006 e o grupo era formado pela tríade Diego 157, Lord, Coscarque e DJ Poeira, é mole? De acordo com Cosca: “O grupo possuía como agregados que se identificavam com o trabalho, nomes como Baga, Betinho, Victor Haggar, Spock MC, Sinho Representativo, MC Sardinha, Man-Doin e DJ Jarrão aka DJ Jarron”. 

Com beats produzidos por Cosca e Diego 157, sob a atenta “Super Visão” de Spock MC, o disco é um dos primeiros – senão o primeiro – registros de um rap com estética underground, do nosso estado. Houve um tempo, onde artistas de bairros diferentes se frequentavam e colaboravam com cenários muito próprios, por exemplo, no caso do H.U.N duas escolas fundamentais para o rap de Salvador dialogavam e produziam o futuro. São Caetano e Cidade Baixa/Subúrbio Ferroviário. Não posso deixar de pensar como esse EPzinho serviu para mostrar possibilidades e formar também, outros tantos MC’s e beatmakers que anos depois iriam formar outros tantos projetos importantes para a nossa história. 

Diego 157
Capa do projeto Coletivo 071, idealizado pelo grande DJ Índio

Um ano depois, em 2007 Diego 157 colabora com outro projeto que não está sequer nas plataformas de streaming mas que é também um marco desconhecido de grande parte do público: O Coletivo 071. Imagine aí jovem incauto, Daganja, Dimak, Sereno, Fall Clássico, Spock, Aladdin, Diego 157 em um mesmo projeto? Pois é, é essa a “gang” poderosa reunida no EP Todo o “Dom que Deus nos Reservou”, por uma iniciativa do grande DJ Índio que tocou e produziu os beats.

Estes dois trabalhos guardam riquezas que deveriam ser de conhecimento público, porém estamos falando de uma época onde era muito difícil divulgar trabalhos, onde o acesso a tecnologia – hoje comum – era uma batalha. Mas, não faltava qualidade inventiva. Infelizmente, esses dois registros sumiram da internet com a queda do Myspace, porém se você ainda ouve MP3 como os antigos Incas, vou deixar um link para download aqui

Apesar do rap acontecer desde os anos 90 em Salvador, em termos fonográficos, é nos anos 2000 que se começa a moldar um modo próprio de se fazer o rap em nossa cidade e estado. Trabalhos como os dos grupos Quilombo Vivo, Júri Racional, Testemunhaz e OQuadro (Ilhéus) e a expressão nacional alcançada pelo Afrogueto, através do Prêmio Hutuz, lançaram as bases para um Rap orgulhosamente baiano e nordestino. 

Capa e contra capa do clássico disco lançado pelo Juri Racional – Por Todos os Meios Necessários em 2005

Em 2009, Diego 157 se junta a Spock MC e ao Man-Duin lançam o disco “A Cria Rebelde” de um dos grupos mais fodas da nossa história: “157 Nervoso”. Composto por 12 músicas, com participações de Aladdin e Léo Souza, trazia uma lírica que mesclava a ginga underground com ideias muito fortes de revolução social e denúncia política. Um disco que bate muito bem até hoje, como tudo que Diego colocou a mão, não possui data de validade. 

A passagem do tempo, e a atenção diante das mudanças históricas é sempre importante para não perdermos o bonde da história e muito menos nos tornarmos engessados. Escutar 157 Nervoso é voltar para um tempo onde o rap se constituía como uma verdadeira arma de luta político racial e de classe, onde se entendia que depois da raça, e que vivíamos em uma sociedade onde a burguesia nos esmaga através de diversas tecnologias de opressão. 

Diego 157

Em “A Cria Rebelde” o discurso é revolucionário e muito bem embasado, o trio de MC’s Diego 157, Spock e Man-Duin estavam longes de serem meros panfletários. O tempero singular baiano se deu pelas produções presentes no disco de nomes como Armeng, DJ Índio, de DJ Leandro e do próprio Diego. Muito próximos de outros grupos nordestinos como Clâ Nordestino e Gíria Vermelha, pregando morte a burguesia e o levante do povo preto, mas com identidade lírica e sonora próprias. “Enfia no cu a sua lei que nos garante liberdade, seu american way of life e a burocracia das universidades”, dá bem a visão política que permeia todo o disco. 

Apesar de todo o disco possuir uma coesão estética e não existir ao longo do play momentos de baixa, a música “Ancestrais” (prod. DJ Leandro) me parece um clássico do rap nordestino. Utilizando um sample de forró, a construção desse beat é aulas demais, e obviamente é acompanhado na excelência pelo trio de MC’s. Enfim, um clássico que para a sua sorte está presente nas plataformas de streaming.

Não bastasse em pouco tempo de carreira fonográfica, Diego 157, já ter marcado seu nome no cenário que hoje é história, ele também passa, a partir de 2009 a se tornar um dos melhores beatmakers do país. Finalista de concursos de beat com nomes hoje nacionalmente conhecidos como Coyote Beats e Efieli, ganhou concurso na cidade e participou da Liga dos Beats em São Paulo em 2010. 

Diego 157 Em 2009, o artista lançou uma mixtape: “Originais & Remixadas Vol.1” que trazia remixes de nomes do rap feito aqui no nordeste, com o clássico Inquilinus de Pernambuco, do sul com o paranaense Cabes, e de nomes como Emicida e Rodrigo Ogi. Nas palavras do Felipe Schmidt à época: 

“O projeto serve até como uma ferramenta para “educar” novos fãs do rap. É que Diego, antes de apresentar sua versão, solta a original. Outro ponto legal e digno de nota é a quantidade de artistas nacionais remixados, algo que não é muito comum por aqui. Das 12 faixas do trabalho, oito são made in Brazil. Mas, em meio a percussões brasileiras e samples tranquilos, é a voz infantil apresentando a mixtape do pai logo no início a parte mais emblemática da parada. E foi só o início, o prelúdio para a criatividade que transbordaria até o último segundo da audição. Enfim, fiquem com os remixes de Diego 157.”

Após a dissolução do 157 Nervoso, Diego 157 segue com Man-Duin com o projeto Niggaz com quem lançou uma outra pedrada em 2011, mais uma das gemas que só quem é de fato conhece. Os teleguiados pelo hype, os amantes de famosos, não conhecem. “Single’s” é exatamente isso, um agrupamento de singles com participações de peso como Daganja, Eleitos, Galf AC, Victor Duarte e Spok. Vou deixar o player marotamente aqui:

Este ano, outro trabalho essencial do Diego 157, que hoje se tornou um documento histórico, é o EP “Antes da Mixtape”, que completa 10 anos agora em 2025. Certamente, é um dos discos do rap nacional que mais ouvi na vida, no ano em que foi lançado lembro de sair de Macaúbas para o Planeta dos Macacos em São Cristovão ouvindo no repeat. E ao longo dos anos não perdi esse hábito. 

Porém, nunca resenhei mais profundamente esse trabalho, algo que farei daqui para o fim do ano, mas não posso deixar de apontar para o fato de que um dream team da rima participa desse disquinho. Nomes como Ravi Lobo, Galf AC, Baga, Xarope MC, Seth aka Jhomp (NPN), Brown Santana, José Macedo aka Zé Atumbi , Man-Duim e Oddish. Um EP pesado seja pelas participações, pelo próprio Diego 157 suas rimas e beats, dúvida? Dê o play:

A partir de 2015, o Oganpazan passou a registrar os trabalhos lançados por Diego 157, sejam os seus outros EP’s ou o excelente disco do coletivo Fraternidade Maus Elementos, outros tantos trabalhos que marcaram época do Rap baiano e nacional. Hoje, Diego completa 42 anos e segue como um dos pilares da nossa cultura. Esse pequeno perfil é um exercício de admiração, e um informativo para quem está de touca dentro e fora do Hip-Hop baiano, de que sim, temos um mestre vivo, produzindo, e devemos – que tem compromisso com essa cultura – louvarmos seu trabalho enquanto aqui ele está. 

Vida longa Diego, um brinde a sua vida e a sua obra, o rap e a cultura Hip-Hop baiana agradece. 

-Diego 157 Day! Porque devemos louvar esse mestre da nossa cultura!

Por Danilo Cruz 

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Cidade dos Normais e a poesia distópica da Escambau https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/cidade-dos-normais-e-a-poesia-distopica-da-escambau/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/cidade-dos-normais-e-a-poesia-distopica-da-escambau/#respond Fri, 15 Aug 2025 15:22:48 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38901 No clipe Cidade dos Normais, a banda paranaense Escambau celebra 15 anos de carreira com uma crônica urbana irônica e distópica, gravada ao vivo no Teatro Paiol, em Curitiba.

A celebração de uma resistência

Vou começar a resenha propondo que você tente imaginar seria viver numa cidade onde tudo parece perfeito, mas nada é real? Será mesmo, que esse exercício de imaginação nos coloca diante de uma realidade ainda por vir? Ou será que já estamos inseridos nessa realidade social?

É nesse cenário que a banda paranaense Escambau ambienta Cidade dos Normais, canção transformada em um clipe visualmente arrebatador, gravado ao vivo no histórico Teatro Paiol. E que fará parte do novo álbum da banda que celebra o tempo de existência da banda. 

Completando 15 anos de estrada e uma trajetória marcada pela resistência da música independente, o grupo entrega uma crônica urbana afiada, que mistura poesia, ironia e a tensão silenciosa das grandes distopias.

O clipe que revela o show

O álbum recebe o nome “Escambau – Acústico 15 anos no Teatro Paiol”. Acho que a partir daqui, tendo o título revelado, inferir se tratar de um álbum ao vivo, no formato acústico, o local do show e gravação do álbum é o Teatro Paiol em Curitiba.

Seu lançamento acontece hoje, 15 de agosto, a partir das 19 horas no SESC Paco da Liberdade, em Curitiba. Será feita uma audição pública do álbum, que estará disponível em todas as plataformas de streaming a partir do dia 18 de agosto.

A banda lançou uma das faixas, “Cidade dos Normais”, no formato single no final de abril deste ano. Recentemente lançaram o clipe da faixa e ali se revelou a beleza visual da gravação em vídeo do show. 

“Cidade dos Normais”, portanto, pode ser visto no formato de clipe, no YouTube, e já nos mostra a qualidade da produção do show.

Distopia em forma de canção

“Cidade dos Normais” elabora uma crítica sutil e irônica a uma sociedade caracterizada pelo conformismo, pela superficialidade e pelo controle simbólico — algo próprio das distopias presentes em obras literárias como 1984, de George Orwell; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; ou na trilogia distópica de Ignácio de Loyola Brandão: Zero, Não verás país nenhum e Desta terra nada vai sobrar.

A letra descreve uma cidade que, a partir de um ponto de vista distraído, parece tranquila e sob a “proteção” de uma força maior. Contudo, trata-se apenas de uma impressão fabricada. O que existe, de fato, é o exercício de controle social sobre os habitantes dessa localidade.

Nesse sentido, “Cidade dos Normais” nos surge como uma alegoria da realidade social, existente por trás de um verniz de aparência que sugere organização e normalidade.

Essa alegoria remete ao filme Eles Vivem, do diretor norte-americano John Carpenter. No longa, um óculos especial, quando usado, revela a realidade por trás da camada aparente utilizada para camuflar uma estrutura opressora de profundo controle sobre as decisões e ações dos indivíduos.

A normalidade descrita na música não passa de um estado de anestesia coletiva, tal qual o causado pelo consumo da droga “soma” na sociedade apresentada por Huxley em Admirável Mundo Novo. Dessa forma, os governantes podem induzir ações e decisões dos “cidadãos” dessa sociedade controlada.

Podemos identificar uma ironia no fato de que a cidade é aparentemente segura, até previsível, mas é justamente essa previsibilidade que a transforma em uma imagem distópica de sociedade.

Na linhagem da MPB crítica

Outra forma de compreender a crítica presente na música é pelo seu formato de crônica urbana, que se encaixa na tradição da MPB mais crítica — aquela que recorre a harmonias ambíguas, aliadas a melodias sedutoras e letras irônicas, para abordar uma realidade política e social marcada pelo signo da passividade.

Nessa tradição, podemos incluir compositores do quilate de Chico Buarque, Caetano Veloso, Itamar Assumpção e Belchior. Duas imagens presentes na letra da música representam bem seu caráter metafórico e satírico: “olho de vidro” e “prefeito quadrado”.

Essas expressões reforçam o tom de metáfora e sátira, lembrando algumas fábulas urbanas da canção brasileira dos anos 1970, período em que a crítica social precisava se disfarçar de ironia para escapar dos aparelhos de repressão e censura.

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A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim” https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/a-revolucao-que-vem-de-rondoniao-mc-kami-lauan-e-o-ttrazedor-de-noticia-ruim/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/a-revolucao-que-vem-de-rondoniao-mc-kami-lauan-e-o-ttrazedor-de-noticia-ruim/#respond Fri, 15 Aug 2025 12:53:40 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38871 Com dois discos lançados em 2025, o rondoniense kami lauan chega com “tTrazedor de Notícia Ruim”, um disco fora da curva!
kami lauan
O MC e Beatmaker kami lauan

kami lauan e o seu disco “tTrazedor de Notícia Ruim” é um acontecimento para o rap nacional em 2025. Se você acompanha de fato o rap nacional, certamente você sabe que em termos estéticos, há uma pobreza gritante no que é produzido no mainstream do gênero em nosso país. É no underground que a invenção e a subversão característica do rap brasileiro tem se dado, e isso é um fato objetivo. 

E você, caro leitor, quer algo mais underground do que fazer rap em Rondônia? Mas ainda, fazer rap no interior deste estado? Pois bem, kami lauan é um MC e beatmaker da cidade de Rolim de Moura que produz música desde 2022, pelo menos oficialmente. Entre 2022-2023, ele produziu uma caralhada de discos e de mixtapes entre o eletrônico e o beats de rap, que indo escutar agora, nos parece um período de desenvolvimento de toda a estética que emerge agora em 2025 no seu trabalho. 

Pelo que pudemos apurar, somente em 2024 kami lauan começa a rimar e lançar publicamente, com a faixa “Hall&Nash” e logo depois com outro single “All Black” que prepararam sua primeira mixtape rimando 069 Mixtap. Com todos os beats produzidos por MAGNI e participações de Marreta, DJ VITTIN MG, 4ngelnumber e Fllw, o trampo já ali se diferenciava bastante do que é comumente produzido no trap nacional, por exemplo. 

Daí seguiu-se os discos SIDDARTTTHA, os EP’s …e as maquinas nao param e FLORES DE OUTONO (REMIX DE SIDDARTHA), e outro disco com BLOOD.MOON, tudo isso em 1 ano. Até chegarmos agora em 2025, onde nos parece kami lauan nos parece alcançou um pico de produção, com dois discos muito singulares no contexto, paralisia~do~sono e paralisia~do~sono: ACORDADO, a versão deluxe e o totalmente disruptivo “tTrazedor de Notícia Ruim” disco que nos foi apresentado pelo excelente trabalho do pesquisador GG Albuquerque. 

Entrevistamos o kami lauan para saber mais sobre a sua caminhada com a música e para entendermos mais sobre o seu trabalho e suas ideias. 

Oganpazan – Você me falou que somente esse ano, você passou a levar o seu trampo a sério, mesmo tendo discos muito bons lançados no ano passado, porque ?

kami lauan – Então cara, ao longo do tempo eu fui percebendo que só fazer por fazer não sustenta o poder que minhas ideias e meus projetos tem, por isso eu decidi mudar meu ponto de vista em relação a minha arte.

Oganpazan – Vamos voltar ao começo meu mano, qual o seu primeiro contato com a música e ou com a música rap?

kami lauan – eu cresci em um ambiente muito enraizado no sertanejo e nos rodeios, então no começo da minha vida eu nunca ouvi muita música fora disso, na minha adolescência, na internet, comecei a acompanhar a cena do eletrônico, no dubstep e no riddim e etc. Nesses gêneros tem vários rappers que fazem feat nas músicas dos DJs, foi meio que isso que me levou pro hip hop de uma forma indireta, depois eu comecei a ouvir mais rap de verdade, começando infelizmente pelo falecido Kanye West, e daí pra frente só fui expandindo meus horizontes.

Oganpazan – Quando você passou a fazer música e qual foi o impulso para isso? 

kami lauan – Minha memória é bem falha e eu não consigo lembrar disso com tanta certeza, mas eu lembro de ter visto um tutorial de FL studio lá por 2018-2019 e gostei muito do programa, depois disso fui entrando em várias comunidades de Discord e tal, aí depois disso bateu a pandemia e eu fiquei muito mais tempo online do que antes, aí já sabe né, junta um cara com um interesse muito específico e muito tempo livre vagabundeando, não tinha como ter outro resultado.

Oganpazan – Gostaria de entender o seu período criativo 22/23, onde você lançou muitos discos de instrumentais. Conta pra gente o que foi esses anos e como isso ajudou a te constituir artisticamente.

kami lauan – Esse período foi a época q eu tava aprendendo a produzir ainda, eu sempre gostei da ideia de álbuns e mixtapes e eu peguei isso pra aproveitar e fazer alguns projetos mais concretos, na época eu participava de algumas comunidades gringas e soltava tudo no soundcloud, isso influenciou bastante minhas influências desde aquela época.

Oganpazan – Como é fazer o tipo de música que você faz, vivendo em Rolim de Moura, no interior de Rondônia? E como é o cenário de rap do seu estado? 

kami lauan – É difícil mano, MUITO difícil, pra dar certo aqui só sendo herdeiro ou fazendo funk de tiktok sem falar onde mora, mas ainda assim eu prefiro fazer as coisas do meu jeito independente do que acontece. O rap por aqui é bem desanimado, aqui na Zona da Mata o que mais rola é batalha, alguns MCs rimam também mas é mais pro lado do boom bap ou do trap, alguns exemplos são o Magni, o Paniagua, o DRaiGO, o Dablonn, entre outros, são os que mais se destacam por aqui. 

Oganpazan – Quais as suas principais influências musicais e quais as principais extra-musicais (cinema, literatura, etc…)? 

kami lauan – Rapaz, é complicado, no início eu me inspirei bastante no Lil Ugly Mane liricamente e no JPEGMAFIA e no MF DOOM na sonoridade, hoje em dia eu só sigo o que passa pela minha cabeça, muita coisa eu tiro de ideias soltas ou de sonhos, esse dia mesmo eu sonhei que tinha feito um álbum de house e já dei início na produção, eu gosto muito disso. Leitura eu não consigo muito porque minha mente não deixa, mas eu gosto bastante de filmes de terror e alguns meio experimentais que usam equipamentos e artifícios diferenciados, tento pegar algumas influências assim pros meus audiovisuais também.

Oganpazan – Você tem muitos trampos com artistas de fora de Rondônia né? Como se deram esses contatos? 

kami lauan – O instagram é um negócio foda né, acho que 95% das conexões que eu fiz foram por lá, eu gosto de usar isso como uma forma de divulgação, eu gosto muito de trabalhar com outros artistas.

Oganpazan – O que você pretendia com o lançamento de “paralisia~do~sono, paralisia~do~sono: ACORDADO e com tTrazedor de Notícia Ruim”, que me parecem serem discos muito próximos em termos de invenção? 

kami lauan – Meu objetivo com paralisia do sono foi falar sobre sentimentos, por cima da minha sonoridade mas de um jeito mais melódico, usando isso pra terminar um projeto que eu tinha feito em 2023 mas nunca gostei do resultado, na época era chamado de ‘não verbal’. TdNR já é uma história mais doida, meu objetivo inicial era fazer um álbum meio jazz rap meio boom bap, mas aí eu fui misturando muita coisa e fui gostando dessa mistura gigantesca que eu fiz, quando o projeto foi evoluindo eu fui decidindo crescer essa ideia exponencialmente e virou o que virou.

Oganpazan – Sobre o “tTrazedor de Notícia Ruim”, quase todos os beats são produzidos por hype the kid, como se deu esse contato e como se deu a produção do disco, você encomendou os beats, deu sugestões ou pegou do catálogo dele?  

kami lauan – o hype é um cara MUITO foda, um brasileiro que mora na inglaterra, conheci ele por páginas de lofi no instagram, cheguei na DM dele lá em 2024 e pedi uns beats, ele foi mandando uns 2 ou 3 por dia e eu fui salvando tudo, um dia eu decidi juntar tudo num álbum. A maioria dos beats são dele, mas a minha vontade de mudar tudo do nada e assustar quem tá ouvindo falou mais alto, foi assim que eu fiz mais alguns beats pro projeto, chamei também o NCCO e o gallego pra fazer um bagulho mais industrial e encaixou perfeitamente.

Oganpazan – kami, como você constroi a sua lírica? Porque, é algo bastante diferente de tudo o que já ouvi, você possui alguma referência nessa área? 

kami lauan – te falar que não muito, eu geralmente só escrevo e deixo as ideias no papel, uns 5 dias ou uma semana depois eu volto e leio, se tiver bom eu continuo, se tiver ruim eu queimo e jogo no cinzeiro.

Oganpazan – Você trampa durante o dia né? Em qual momento da semana você cria suas músicas, escreve, produz?

kami lauan – Minha rotina fora do trabalho se resume em: Escrever em rascunho no trabalho, gravar na hora do almoço e mixar de noite, quase nunca fujo disso, fim de semana o cara descansa pq ninguém é de ferro né.

kami lauan Oganpazan – Você está atualmente produzindo um novo disco né? Você pode falar um pouco sobre esse projeto? 

kami lauan – Cara eu tô trabalhando num projeto mais pé no chão dessa vez, mais focado em animar do que chocar sabe, o nome do projeto é ‘Make Rondônia Great Again’ e conta com pouquíssimos feats mas com alguns beats de um pessoal muito foda do BR, escolhi todas as samples desse projeto a dedo, a maioria dos beats é meu mas chamei alguns amigos pra me ajudar na bateria, tá recheado até o topo de samples brasileiras e tem uma mensagem escondida muito dahora, TDnR também tem, e o próximo disco expande um pouco a ideia.

Oganpazan – Na música brasileira atualmente, o que você tem ouvido, tem algo que te inspira no cenário atual?    

kami lauan – Até um tempo atrás a maioria das minhas influências era gringa, não me interesso muito pelo mainstream do Brasil e não tenho muito tempo pra garimpar o underground, ultimamente tô viciadissímo no disco 333 do Matuê e no SEMRÉH: Final Sprint do Ryu The Runner, pra mim foram os discos mais artísticos do trap mainstream do Brasil (entre os que eu ouvi).

-A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim”

Por Danilo Cruz 

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Clássico do reggae roots, Marcus Garvey do “trio vocal” Burning Spear, completa 50 anos https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/14/classico-do-reggae-roots-marcus-garvey-do-trio-vocal-burning-spear-completa-50-anos/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/14/classico-do-reggae-roots-marcus-garvey-do-trio-vocal-burning-spear-completa-50-anos/#respond Thu, 14 Aug 2025 14:07:23 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38870 Um dos discos mais importantes da música jamaicana, Marcus Garvey do Burning Spear, segue brilhando como um clássico, 50 anos depois!
Burning Spear
Da esquerda para a direita: Delroy Hines, Winston Rodney (Burning Spear) e Ruppert Wellington

Burning Spear é um dos grandes nomes da história da Reggae Music, o que muitas pessoas não se dão conta é que o senhor Winston Rodney era a voz principal de um trio vocal que foi alçado ao “estrelato” com o clássico “Marcus Garvey” há 50 anos atrás. Nas últimas décadas, a música de Burning Spear tem me acompanhado em minhas rotinas, como um campo de extrema relevância para reflexão sobre nacionalismo negro, sorbe o panafricanismo e as lutas anticoloniais. Mas tudo isso começou ainda na adolescência.  

O ano era 1997, minha turma de escola tinha passado do fundamental 2 – na época ginásio – para o ensino médio – na época 2ºgrau – e decidimos ir para a casa da família de uma amiga em Jauá, uma das praias no Litoral Norte de Salvador – Bahia. Éramos em 12 pessoas, minha primeira viagem sozinho, uma semana de liberdade fora dos olhos da família. Foram muitos causos que dariam um livro ou um filme, porém o que nos importa aqui foi a presença de Burning Spear como trilha sonora dessa viagem. 

Entre idas à praia e travessuras mil, a fita cassete de “HAIL H.I.M”, lançado por Burning Spear em 1980 girava, e o dono Fozé imitava o patoá jamaicano com o nosso típico sotaque baiano. Foi meu primeiro contato e do qual eu nunca esqueci, com a música do jamaicano, com o qual eu só fui me reaproximar muitos anos depois, de um modo muito mais consistente. 

Quando do lançamento de “Marcus Garvey” o trio já era conhecido na Jamaica. Surgido como um trio vocal em 1969, formado por Delroy Hines e Ruppert Wellington como vocais de apoio e Winston Rodney (Burning Spear) como a voz principal, os caras já tinham lançado dois discos pela gravadora Studio One, Studio One presents Burning Spear em 1972 e Rocking Time em 1974. Nascido na paróquia de St. Ann, Winston Rodney dividia o local de nascimento com Bob Marley e com… Marcus Garvey, que foram influências fundamentais na sua construção de visão de mundo. 

O trio conseguiu um teste na gravadora do grande Clement “Coxsone” Dodd (Studio One) por sugestão de Bob Marley. E após dois discos lançados pela gravadora, que vinham lhes dando fama na ilha, após divergência com o Clement o grupo rompeu com a gravadora. Essa decisão os levou a procurar o produtor Lawrence Lindo aka Jack Ruby, também conterrâneo de Winston Rodney e dono de um sistema de som na paróquia de St. Ann, o único produtor da época a trabalhar fora de Kingston. 

Essa aliança seria fundamental para a produção do clássico Marcus Garvey, gravado no clássico Randy’s Studio, local onde as feras da época gravavam. Jack Ruby recrutou um time que reunia o que de melhor existia naquela altura. Membros dos The Wailers e do The Soul Syndicate fizeram parte das gravações dos singles que se transformariam nesse incontornável clássico da música jamaicana.    

Antes do lançamento do disco, houve o lançamento de duas pedradas imensamente clássicas e sobretudo ainda atuais, as faixas “Marcus Garvey” e “Slavery Days” tiveram um imenso sucesso na ilha. Chamando a atenção de Chris Blackwell que resolveu mexer na sonoridade do disco e lançá-lo de modo mais palatável para o público internacional, como já tinha feito alguns anos antes com “Catch a Fire” de Bob Marley & The Wailers. 

Burning Spear
Jomo Kenyatta

Ainda em 1969, Winston Rodney já adepto do rastafarianismo assume o nome de Burning Spear (Lança Ardente) em homenagem ao líder queniano Jomo Kenyatta, que levou o Quênia à independência do colonialismo britânico em 1963. E é curioso ver como “Marcus Garvey”, 50 anos depois segue como um verdadeiro manifesto panafricanista, exalando nacionalismo negro em sua poética musical.

A composição poética e musical presente em “Marcus Garvey” é bastante única na forma de estruturação dos versos, e no conteúdo poético, assim como na expressividade criada por Burning Spear. Além disso, há uma linha de sentido que liga a primeira música – “Marcus Garvey” – à última: “Resting Place”, a saber, partindo de uma filosofia Garveyista que reconhece as linhas de ação propostas pelo líder negro, e chegando no questionamento e na proposição de um horizonte utópico. 

Hoje após décadas de construção musical e política, fogo na babilônia se tornou algo inofensivo, mais um chavão, uma palavra de ordem completamente esvaziada pelo grande público, e a positividade gratiluz mais um pastiche hippie, rendido aos padrões neoliberais da Supremacia Branca tomou o lugar da luta do povo negro. Ao invés de uma “Lança Ardente” no coração do colonialismo, maconha de primeira qualidade dos playboys brancos e pretos. 

Já na primeira música, Burning Spear canta sobre a atualidade das palavras de Garvey e vaticina contra os traidores, contra a linha auxiliar, que deve ser espancada. Nos lembrando, 50 anos depois, que se trata de luta, não de conciliação, nem de busca pela paz universal. Há um clamor e porque não uma busca por agenciamento coletivo que atravessa todo o disco, e que tem em Marcus Garvey o principal signo de uma luta emancipatória do povo preto. 

É curioso que sempre que se fala de música pelos rincões das internet e ao longo da própria história do século XX, os músicos da reggae music, nunca possuíram o mesmo status de “genialidade” que os músicos de Rock, por exemplo. A banda formada por Jack Ruby e batizada de “The Black Disciples” é a reunião da fina flor do que de melhor se tinha – em um cenário extremamente rico – de músicos da ilha. Verdadeiros gênios em seus instrumentos. Dois dos melhores baixistas da história da música: Aston Barret e Rob Shakespeare e na bateria Leroy “Horsemouth” Wallace, fechando a cozinha. 

Burning Spear
Earl “China” Smith um dos maiores guitarristas do séc. XX

Nas guitas, o grande mestre Earl “China” Smith (solo) e Valentine “Tony” Chin (base), nas teclas Tyrone Downie e Bernard “Touter” Harvey, os dois fizeram parte do The Wailers. Na riquissima sessão de metais do “Discípulos Negros”: Herman Marquis (sax alto), Bobby Ellis (trompete), Richard “Dirty Harry” Hall (sax tenor), Vicent “Trommie” Gordon (trombone) e Carlton “Sam” Samuels (flauta). De todos esses grandiosos nomes, apenas o Carlton “Sam” Samuels não é um músico influente na cultura jamaicana, porém a sua flauta vai acrescentar um sabor muito único em canções como “Live in Good” e  “Give Me”, onde seus desenhos melódicos acrescentam doçura às composições. 

As composições de Burning Spear são sempre muito simples, sem muitos desenvolvimentos líricos e é exatamente aí que mora toda a imensa potência de suas músicas: a repetição e os comentários pontuais que ele desenvolve, ao longo de todo o disco. Um jogo solto entre os versos e os refrões entre idas e vindas, repetindo como em um culto e recriando a estrutura de chamadas e respostas ao seu modo. Modulando a emissão, os vocalizes, retirando daí as intensidades diferenciais de sua arte. 

Pelas minhas andanças nas ruas de Salvador, muitos do nosso povo ouvem bastante Burning Spear nas nossas favelas, porém muitas vezes não compreendem a profundidade do seu chamado. E consequentemente não conseguem efetuar respostas a altura. 

“Vocês se lembra dos dias de escravidão? 

Você se lembra dos dias de escravidão?

E eles nos espancaram, e nos fizeram trabalhar tão duro

E eles nos usaram até nos recusarem”

Burning Spear
Capa jamaicana do disco Marcus Garvey

Em “Slavery Days” temos uma amostra muito forte desse processo de composição acima mencionado, ao ponto do refrão contaminar o verso, onde a memória do cativeiro se faz presente nos dias atuais, com todas as implicações subjetivas e políticas. Não como uma dor do chicote estralando ainda, mas no sentido de perceber os novos chicotes, depois da recusa, mencionada no primeiro verso. Burning Spear é um mestre da nossa história em Diáspora, logo alguém que nos propõem um futuro como povo. 

Em “Marcus Garvey”, o reggae roots “pivota” e quanto mais se aprofunda no solo, mais cria outros territórios possíveis, uma compreensão rizomática, afro-rizomática onde as raízes crescem tanto vertical quanto horizontalmente. É luta política, é história, mas também é a busca por uma ética entre nós, hoje tão necessária quanto há 50 anos, talvez mais. “Live Good” é um dos exemplos de como a extrema economia de versos e a repetição constante nas músicas de Burning Spear alcançam o sublime. 

Entre a busca, a tentativa rumo ao melhor, o não saber que muitas vezes pode errar, entre os sins e os nãos, atravessados pela doce flauta do “Sam”, o senhor Winston Rodney mostra o quão difícil é a simplicidade. Da mesma sorte porém em outra chave a música seguinte: “Give Me” que pode ser entendida como um pedido aos poderes constituídos, mas é na verdade um chamamento ao povo: “Boas pessoas me ouçam”. 

A repetição e o proliferamento de grandes líderes é retirado a fórceps em “Old Marcus Garvey”, onde Burning Spear parte do esquecimento para fazer não somente a memória de Marcus Garvey chegar às crianças como a de outros grandes líderes do final do século 19 e início do século 20 na Jamaica. Entre a brilhante linha de baixo e a marcação da bateria, o “No one Remember Marcus Garvey” se transforma e insinua os nomes de Paul Bogle, William Goddo, Norman Washington Manley e de Bustamante.  

Burning Spear Em “Tradition” uma pergunta repetida diversas vezes: Porque? se converte em uma contestação à história, combativamente alegre e saturando a pergunta até nos fazer compreender os 2.000 anos a que se refere, opressão, morticínio, colonização. As suas influências rastafari ficam mais evidentes em “Jordan River”, assim como em Red, Green & Gold e as referências à bandeira Etíope, ao Haile Selassie, ao Leão de Judah. Outros tantos signos de resistência mental e espiritual ao colonialismo. 

O disco se encerra com “Resting Place” porém longe de qualquer perspectiva idílica, o que Burning Spear projeta em nós é a contradição – hoje muito assustadora – entre a necessidade de uma visão da natureza de algum modo sustentável, e a crescente destruição da mesma. Novamente, parte-se de uma pergunta: “Onde devo encontrar meu lugar de descanso?” para daí elaborar uma crítica sutil à forma como o capitalismo e a Supremacia Branca e a sua visão de dominação da natureza. 

Se aproximar de “Marcus Garvey” é sobretudo uma necessidade de introjetar as perspectivas de luta e de si enquanto parte de um povo, hoje mais do que nunca, que somente através da união e da elaboração de uma agenda comum, poderá superar os imensos desafios que nos são colocados. Pois, esse é um disco que transcende o estético e alcançam de fato uma potência ética e política revolucionária para o povo preto em diáspora. 

O disco fez bastante sucesso, ao ponto de em 1976 uma versão dub do mesmo ser lançada: “Garvey’s Ghost”. Ainda em 76, o trio se separaria e o senhor Winston Rodney (Burning Spear) seguiria em carreira solo como um dos maiores astros da música reggae. 

-O clássico do reggae roots, Marcus Garvey do “trio vocal” Burning Spear, completa 50 anos

Por Danilo Cruz 

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Alra Alves e a laje da “Ruera”, “Nosso Lugar” como território de uma festa do real Hip-Hop! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/12/alra-alves-e-a-laje-da-ruera-nosso-lugar-como-territorio-de-uma-festa-do-real-hip-hop/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/12/alra-alves-e-a-laje-da-ruera-nosso-lugar-como-territorio-de-uma-festa-do-real-hip-hop/#respond Tue, 12 Aug 2025 13:40:16 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38862 Alra Alves é uma das grandes no Rap feito no Vale do Paraíba, aliando produção ao fomento da cultura Hip-Hop!
Alra Alves
Os dois discos da Alra Alves

Alra Alves proporcionou no último domingo, no dia 10 de agosto ocorreu a comemoração de um ano do Estúdio Ruera, e através das dezenas de vídeos nos stories dos participantes da festa em sua 3º edição, a sensação era de que a Cindy Campbell reencarnou em São José dos Campos, no Vale do Paraíba. Porém, não se trata de imitação e sim da continuidade da cultura Hip-Hop em suas bases mais essenciais. A festa contou com a discotecagem do Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops, do DJ Loucas e do DJ Diniz, e a participação dos e das MC’s Mattenie, Killabi, Janvi e Meire D’origem. 

Em uma época onde muitos curtem mega festivais, festas em clubes luxuosos, a Laje da Ruera carrega o DNA de uma festa onde a comunhão é visível, mesmo a pouco mais de 2.000 km de distância. E isso não é por acaso, mas é o fruto de uma caminhada que começou em 2016 e que tornou o sonho e as dificuldades em combustível de luta para que em 2024 a MC e produtora cultural conseguisse construir o primeiro estúdio de uma mulher no Vale do Paraíba. 

Em uma conversa por telefone, alguns meses atrás, Alra Alves nos contou que começou a rimar em 2016 em rodas de freestyle na porta do Sesc de sua cidade. Já em 2017 ela participa da Cypher Mente Milionária junto às MC’s Preta Ary, Thamara e Eliza Branca. No ano seguinte, foi a vez de participar do último episódio do projeto de Cyphers do beatmaker Símio, “Bruxaria”, dessa vez ao lado de Wicca, Ninah, Laís, Gabi Killabi e da Meire D’origem. E como é bom ver registro mais antigos e sobretudo do início de carreira de artistas. Ali, já é fácil perceber a destreza de Alra tanto junto à MC’s contemporâneas suas, como diante de suas influências.  

Ainda em 2018, Alra Alves deu o start no seu primeiro projeto solo com o clipe single da faixa Ruera, onde conseguiu em um videoclipe com direção do Silvio Cesar, plasmar uma espécie de carta de intenções. Abordando suas origens no pixo e a “facilidade” em escolher e ser escolhida pelo underground, como local de criação e estética.  

Infelizmente, nesta altura não a conhecíamos, e nem sempre o que entra no nosso radar se transforma em texto, porém em 2019 ouvimos muito o disco de estreia da Alra Alves: “Ruera”, que se transformou em 2025 em uma marca. Com beats do Noise System, Tio Galera, Raul Rondé, Símio, Veiga e Murilo Beats, Alra Alves impressionava com um disco de boombap under na melhor tradição do Vale. 

Dona de um flow e de uma voz capaz de cantar as partes melódicas com excelência, as 8 faixas que compõem esse disco de estreia apresentam a afirmação de um feminino combativo, denunciando diversas opressões. Em “Ruera”, Alra Alves trouxe a essência do rap de rua e suas vivências, sem apelo pop, mas também abordando questões que lhe atravessam, como as questões referentes a violência contra mulheres, a violência policial, questões de opressão de classe e de saúde mental. 

Influenciada por nomes como Meire D’origem e Preta Ary MC’s próximas, Alra Alves esperou e sobretudo trabalhou por 5 anos desde o lançamento de “Ruera” para construir o seu Estúdio. E nesse processo encetar e oportunizar alguns projetos que são os mais importantes para a nossa cultura, pois formam uma base sólida de produção de arte e de público. Muitos não percebem, mas existem os produtores e mantenedores da cultura e ao mesmo tempo, artistas mais sólidos, onde suas linhas são bio-grafias (linhas escritas de vida) contra culturais, e existem as vedetes do mainstream. 

Alra Alves Essa distinção é de fundamental importância, para compreendermos a cultura Hip-Hop hoje, em um momento de investida da indústria cultural que visa sobretudo diluir até o nível de água de salsicha, uma arte que surge da combatividade. E neste sentido, não há apenas um privilégio masculino, isso também vem ocorrendo – como não poderia ser diferente – com o rap feito por mulheres. Outra é a vertente de uma MC como Alra Alves, que sem milhões na conta, construiu para a cultura o que nenhuma das MC’s que estão no Hype construiu. 

Sem se curvar para falar a língua da cultura dominante e os seus tiques nervosos, onde muitas outras, se comprazem em falar das “vadias invejosas”, Alra Alves oportuniza e visibiliza outras MC’s. Produtora e também beatmaker, Alra Alves criou o Projeto Guia que tem apresentado jovens nomes como Azurah, Baloo, Jéssica Sales e a Nwazz. Porque é como disse o Don L: “se você não traz ninguém, não fala que você é Hip-Hop”.

Superando a falta de grana e acesso, Alra Alves tem feito micro revoluções, e o seu disco lançado este ano: “Nosso Lugar” é mais do que um mero objeto estético, mas condensa a essência de sua trajetória de valorização do seu lugar no mundo e na cultura Hip-Hop. Mas ao mesmo tempo, a construção de uma perspectiva de horizonte aberto, que lhe dê e que ela possa partilhar com os seus e as suas noções de progresso coletivo. 

Neste novo EP, composto por 5 faixas produzidas por DJ Kaizen, Marci VSR, Kadow, Jazzkey, GAD e Blaze Boy e traz feats com a MC Janvi e o trompetista Rafael Jarcem. Como já deveria ser de conhecimento público, a Alra Alves alia a militância coletiva no Hip-Hop à excelência como MC e atualmente beatmaker e produtora cultural. Neste novo EP ela se apresenta em outra faceta diferente do trabalho anterior, aqui a MC do Vale se mostra menos agressiva mais ainda assim com uma contundência proveniente da força dos seus versos. 

Progresso coletivo e paz, lutas diárias pela sobrevivência sempre em vistas de criar condições de dignidade, amor e diversão, a manutenção de sua criança interior como impulso brincante e lúdico para seguir criando. “Calma e Elegante” rimando e cantando, seja na parceria com a Janvi, ou no duelo de flows com o trompetista Rafael Jarcem na faixa que encerra o EP, “Zona Sul”, Alra Alves entrega excelência em seu trabalho. Esta última faixa ganhou um videoclipe do grande Jean Furquim nomes por nós já conhecido há alguns anos. 

O audiovisual é um excelente resumo semiótico de tudo dito até aqui, com cenas de dentro do estúdio Ruera onde a MC é captada escrevendo e rimando, mas sobretudo pelas ruas de sua quebrada. Cenas de feira livre, de apresentação da MC na rua, churrasco rolando, da turma no campinho do bairro. A rua é a mãe do Hip-Hop, e ainda no clipe, uma imagem icônica coloca a Alra Alves em uma bifurcação de ruas, dois caminhos, com ela de um lado e o trompetista Rafael Jarcem do outro. A representação imagética que nós entendemos como a cultura Hip-Hop de um lado e a música rap do Outro. Sem possibilidade de escolha, Alra faz o rap do lado da cultura Hip-Hop… 

-Alra Alves e a laje da “Ruera”, “Nosso Lugar” como território de uma festa do real Hip-Hop!

Por Danilo Cruz 

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“Ágil”, Áurea Semiseria segue altiva ao longo de uma trajetória de 10 anos no rap! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/11/agil-aurea-semiseria-segue-altiva-ao-longo-de-uma-trajetoria-de-10-anos-no-rap/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/11/agil-aurea-semiseria-segue-altiva-ao-longo-de-uma-trajetoria-de-10-anos-no-rap/#respond Mon, 11 Aug 2025 21:57:27 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38851 Em um belo audiovisual, Áurea Semiseria apresenta uma reflexão sobre o seu corre nesses últimos 10 anos no rap e na cultura Hip-Hop.

Áurea Semiseria

Eu nunca vou esquecer do vozeirão que me arrepiou no Pelourinho cantando Zé do Caroço da mestra Leci Brandão, então chamada Áurea Maria. Era 2016 e de lá pra cá, pude acompanhar o desenvolvimento muitas vezes atomizado, dela que se tornou Áurea Semiseria. Muitas participações, cypher’s, e o primeiro EP Roxo GG (2017) – minha camisa segue aqui. Ser uma MC preta, gorda, LGBTQIA+ e nordestina não a impediu de chegar na Letônia, com escala na Inglaterra. 

Porém, é uma luta que muitas vezes parece ser inglória, sobretudo por conta de uma indústria que visa apagar produções como as de Áurea Semiseria, em uma cidade como Salvador que está mais para túmulo da música. Mas também, porque a maioria das pessoas tendem a esquecer o “corpus” de um trabalho construído ao longo de uma década, sem investidores e sem hype algum. 

Nestes últimos dez anos, tendo acompanhando de perto os movimentos do Rap baiano, não é exagero algum dizer que Áurea Semiseria é um dos nomes que foram responsáveis pela qualidade e diversidades de produções. Não é preciso lembrar que durante à última década surgiram e sumiram diversos artistas, talentosos também, mas que não seguraram o rojão da invisibilidade e não foram se ligaram para a necessidade de ser “Ágil”, neste jogo. 

Com uma rápida passagem pela Balostrada Rec., onde gravou e lançou duas track: Onze (prod. Owé) e o clássico contemporâneo TUDUDUDU (prod. 2Kike), Áurea veio se movimentando, buscando saídas para não estagnar e murchar. No ano passado lançou o seu primeiro álbum “Semiseria” com beats do El Lif Beatz, ÉoCROSSS e do Mu540. O disco trouxe feats da Iza Sabino, da Una e do Big Bllakk e apresentou uma concepção estética sólida e a sua versatilidade como MC capaz de rimar em qualquer tipo de beat. 

-Leia a resenha da nossa colunista Mara Mukami sobre o último disco da Áurea Semiseria!

Versatilidade que levou a artista baiana ao Brasil Grime Show, que esse ano a colocou no single “Isqueiro” junto a lenda Deize Tigrona. É essa a definição sobre ser “Ágil” e é de certa forma o tema do bonito audiovisual recém lançado por Áurea Semiseria e gravado no ancestral parque São Bartolomeu tendo a Pedra de Xangô como “cenário”. Com direção de Paulo Jordan e produção musical da dupla Saboya & OG Bahia, o single nos relembra que a MC de Cajazeiras pulou de revelação à veterana sem escalas, mas com muita luta.

O videoclipe publicado no canal da produtora Complexo Nine, é simples e certeiro, com uma produção muito bem feita. A música é uma reflexão destes últimos 10 anos no cenário do rap baiano e brasileiro, sobre as oportunidades e as concessões negadas pela artista. Ao mesmo tempo, afirma-se na luta apesar da vontade de desistir – algo que tenta a muitos artistas independentes – e a dificuldade de se manter no jogo.  

O beat swingado chegado pro boombap, linha na qual Áurea Semiseria começou, dialoga musicalmente com o jogo de cintura necessário para se manter na ativa, para enfrentar as dificuldades. E o que podemos concluir disso tudo é que a MC já está há muito tempo escolada, e seguirá dando aulas.  

-“Ágil”, Áurea Semiseria segue altiva ao longo de uma trajetória de 10 anos no rap!

Por Danilo Cruz 

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