EP – Oganpazan https://homolog.oganpazan.com.br Oganpazan Tue, 12 Aug 2025 13:40:16 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 Alra Alves e a laje da “Ruera”, “Nosso Lugar” como território de uma festa do real Hip-Hop! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/12/alra-alves-e-a-laje-da-ruera-nosso-lugar-como-territorio-de-uma-festa-do-real-hip-hop/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/12/alra-alves-e-a-laje-da-ruera-nosso-lugar-como-territorio-de-uma-festa-do-real-hip-hop/#respond Tue, 12 Aug 2025 13:40:16 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38862 Alra Alves é uma das grandes no Rap feito no Vale do Paraíba, aliando produção ao fomento da cultura Hip-Hop!
Alra Alves
Os dois discos da Alra Alves

Alra Alves proporcionou no último domingo, no dia 10 de agosto ocorreu a comemoração de um ano do Estúdio Ruera, e através das dezenas de vídeos nos stories dos participantes da festa em sua 3º edição, a sensação era de que a Cindy Campbell reencarnou em São José dos Campos, no Vale do Paraíba. Porém, não se trata de imitação e sim da continuidade da cultura Hip-Hop em suas bases mais essenciais. A festa contou com a discotecagem do Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops, do DJ Loucas e do DJ Diniz, e a participação dos e das MC’s Mattenie, Killabi, Janvi e Meire D’origem. 

Em uma época onde muitos curtem mega festivais, festas em clubes luxuosos, a Laje da Ruera carrega o DNA de uma festa onde a comunhão é visível, mesmo a pouco mais de 2.000 km de distância. E isso não é por acaso, mas é o fruto de uma caminhada que começou em 2016 e que tornou o sonho e as dificuldades em combustível de luta para que em 2024 a MC e produtora cultural conseguisse construir o primeiro estúdio de uma mulher no Vale do Paraíba. 

Em uma conversa por telefone, alguns meses atrás, Alra Alves nos contou que começou a rimar em 2016 em rodas de freestyle na porta do Sesc de sua cidade. Já em 2017 ela participa da Cypher Mente Milionária junto às MC’s Preta Ary, Thamara e Eliza Branca. No ano seguinte, foi a vez de participar do último episódio do projeto de Cyphers do beatmaker Símio, “Bruxaria”, dessa vez ao lado de Wicca, Ninah, Laís, Gabi Killabi e da Meire D’origem. E como é bom ver registro mais antigos e sobretudo do início de carreira de artistas. Ali, já é fácil perceber a destreza de Alra tanto junto à MC’s contemporâneas suas, como diante de suas influências.  

Ainda em 2018, Alra Alves deu o start no seu primeiro projeto solo com o clipe single da faixa Ruera, onde conseguiu em um videoclipe com direção do Silvio Cesar, plasmar uma espécie de carta de intenções. Abordando suas origens no pixo e a “facilidade” em escolher e ser escolhida pelo underground, como local de criação e estética.  

Infelizmente, nesta altura não a conhecíamos, e nem sempre o que entra no nosso radar se transforma em texto, porém em 2019 ouvimos muito o disco de estreia da Alra Alves: “Ruera”, que se transformou em 2025 em uma marca. Com beats do Noise System, Tio Galera, Raul Rondé, Símio, Veiga e Murilo Beats, Alra Alves impressionava com um disco de boombap under na melhor tradição do Vale. 

Dona de um flow e de uma voz capaz de cantar as partes melódicas com excelência, as 8 faixas que compõem esse disco de estreia apresentam a afirmação de um feminino combativo, denunciando diversas opressões. Em “Ruera”, Alra Alves trouxe a essência do rap de rua e suas vivências, sem apelo pop, mas também abordando questões que lhe atravessam, como as questões referentes a violência contra mulheres, a violência policial, questões de opressão de classe e de saúde mental. 

Influenciada por nomes como Meire D’origem e Preta Ary MC’s próximas, Alra Alves esperou e sobretudo trabalhou por 5 anos desde o lançamento de “Ruera” para construir o seu Estúdio. E nesse processo encetar e oportunizar alguns projetos que são os mais importantes para a nossa cultura, pois formam uma base sólida de produção de arte e de público. Muitos não percebem, mas existem os produtores e mantenedores da cultura e ao mesmo tempo, artistas mais sólidos, onde suas linhas são bio-grafias (linhas escritas de vida) contra culturais, e existem as vedetes do mainstream. 

Alra Alves Essa distinção é de fundamental importância, para compreendermos a cultura Hip-Hop hoje, em um momento de investida da indústria cultural que visa sobretudo diluir até o nível de água de salsicha, uma arte que surge da combatividade. E neste sentido, não há apenas um privilégio masculino, isso também vem ocorrendo – como não poderia ser diferente – com o rap feito por mulheres. Outra é a vertente de uma MC como Alra Alves, que sem milhões na conta, construiu para a cultura o que nenhuma das MC’s que estão no Hype construiu. 

Sem se curvar para falar a língua da cultura dominante e os seus tiques nervosos, onde muitas outras, se comprazem em falar das “vadias invejosas”, Alra Alves oportuniza e visibiliza outras MC’s. Produtora e também beatmaker, Alra Alves criou o Projeto Guia que tem apresentado jovens nomes como Azurah, Baloo, Jéssica Sales e a Nwazz. Porque é como disse o Don L: “se você não traz ninguém, não fala que você é Hip-Hop”.

Superando a falta de grana e acesso, Alra Alves tem feito micro revoluções, e o seu disco lançado este ano: “Nosso Lugar” é mais do que um mero objeto estético, mas condensa a essência de sua trajetória de valorização do seu lugar no mundo e na cultura Hip-Hop. Mas ao mesmo tempo, a construção de uma perspectiva de horizonte aberto, que lhe dê e que ela possa partilhar com os seus e as suas noções de progresso coletivo. 

Neste novo EP, composto por 5 faixas produzidas por DJ Kaizen, Marci VSR, Kadow, Jazzkey, GAD e Blaze Boy e traz feats com a MC Janvi e o trompetista Rafael Jarcem. Como já deveria ser de conhecimento público, a Alra Alves alia a militância coletiva no Hip-Hop à excelência como MC e atualmente beatmaker e produtora cultural. Neste novo EP ela se apresenta em outra faceta diferente do trabalho anterior, aqui a MC do Vale se mostra menos agressiva mais ainda assim com uma contundência proveniente da força dos seus versos. 

Progresso coletivo e paz, lutas diárias pela sobrevivência sempre em vistas de criar condições de dignidade, amor e diversão, a manutenção de sua criança interior como impulso brincante e lúdico para seguir criando. “Calma e Elegante” rimando e cantando, seja na parceria com a Janvi, ou no duelo de flows com o trompetista Rafael Jarcem na faixa que encerra o EP, “Zona Sul”, Alra Alves entrega excelência em seu trabalho. Esta última faixa ganhou um videoclipe do grande Jean Furquim nomes por nós já conhecido há alguns anos. 

O audiovisual é um excelente resumo semiótico de tudo dito até aqui, com cenas de dentro do estúdio Ruera onde a MC é captada escrevendo e rimando, mas sobretudo pelas ruas de sua quebrada. Cenas de feira livre, de apresentação da MC na rua, churrasco rolando, da turma no campinho do bairro. A rua é a mãe do Hip-Hop, e ainda no clipe, uma imagem icônica coloca a Alra Alves em uma bifurcação de ruas, dois caminhos, com ela de um lado e o trompetista Rafael Jarcem do outro. A representação imagética que nós entendemos como a cultura Hip-Hop de um lado e a música rap do Outro. Sem possibilidade de escolha, Alra faz o rap do lado da cultura Hip-Hop… 

-Alra Alves e a laje da “Ruera”, “Nosso Lugar” como território de uma festa do real Hip-Hop!

Por Danilo Cruz 

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Uma epopeia do trabalhador brasileiro é a “Práxis” por Mascote & Digmanybeats https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/08/uma-epopeia-do-trabalhador-brasileiro-e-a-praxis-por-mascote-digmanybeats/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/08/uma-epopeia-do-trabalhador-brasileiro-e-a-praxis-por-mascote-digmanybeats/#respond Fri, 08 Aug 2025 14:40:46 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38833 Ao longo de 10 músicas, Mascote rima com feats do Mattenie e do PaZSado, com produção do Digmanybeats, sobre o dia comum do trabalhador!
Mascote
1.90.5-BFWAX5DBMUQFS2J7HYBPZD6MME.0.1-0

A volta (?) à ativa de um MC do quilate do Mascote é/deveria ser algo muito comemorado, desde de 2023, o artista lançou alguns excelentes trabalhos, como o disco “Ligue os Pontos (prod. Digmanybeats)” em parceria com Dej@ Vu e o DJ Will Cutz, em 2024 o disco em parceria com PaZSado: “Flores em Vida (prod. Digmanybeats)”. No ano passado, o disco quase perdido “Jornada Dupla” com Dr. Drumah e esse ano, outro disco gravado há vários anos e também quase perdido, “Meus Amigos Vol.2”.

O Mascote fez história com o clássico grupo “ContraFluxo” e o pouco conhecido “Primeira Audição”, um dos poucos grupos a produzir um rap jazz brasileiro com imensa qualidade em nossa história. Nesse processo de volta à ativa, nos lançamentos, Mascote tem contado sempre com as produções do Digmanybeats e com ele que ele compôs o seu último disco “Práxis”. Apesar de curtinho, os seus 19 min e 43s condensa uma epopeia que é a de milhões e milhões de brasileiros. 

Não é um disco para se ouvir buscando diversão, muito menos motivação – Raps Motivacionais deveriam ser proibidos – muito pelo contrário. O retrato em ritmo de curta metragem, um imenso storytelling de 18 horas de um trabalhador brasileiro, no caso o próprio Mascote. Que ao traçar os passos de um dia comum em sua vida, termina por uma questão de classe, falando de todos nós que trabalhamos no dia a dia, de sol a sol, que pegamos o busão ou o metrô lotado. 

Recentemente li em uma rede social que o artista só é profissional se ele é remunerado pelo seu trabalho, caso contrário é um amador. Sob certo ponto de vista – capitalista – isso é até verdade. Porém, nos indica o quanto a subjetividade de muitos está completamente submetida aos modos de produção capitalista. Perceber a arte e o artista sob esse viés – que é o da imensa maioria das pessoas em nosso país – é extremamente redutor, empobrecedor mesmo. Sobretudo, se tivermos um olhar crítico tanto para a história, quanto para o que hoje habita o mainstream da música brasileira. 

Com certeza, e não quero aqui fazer nenhum tipo de elogio da precariedade, artistas do mainstream não são capazes de produzir um disco de rap inteiro narrando a vida do trabalhador comum. Muito pelo contrário, o mainstream hoje é uma eterna cantilena em loop sobre ser vencedor. Fornecedores de esperanças vãs, que termina por reificar o sistema capitalista da forma mais vil. São em quase sua totalidade MCoachs! 

Outra é a proposta do Mascote que recorta um cotidiano comum de nós trabalhadores que somos capazes de olhar para a realidade de forma crítica. O disco começa com o Mascote acordando e cuidando da sua cria “5h45(intro)”, colocando na escola e seguindo pro trampo. Já em “Práxis” a narrativa começa a rasgar o tom de normalidade cotidiana e ou mesmo nos apresenta as suas “práticas comuns”. que é também além da de milhões de trabalhadores, a de milhares de artistas amadores. Ouvir algo para alimentar o espírito criativo (beats), se informar em trânsito (ouvindo clássicos e podcasts).

A rotina estressante dos trabalhadores em meio ao capitalismo tardio em um sistema neoliberal meramente administrado, já é mencionado “de passagem” sobre o burnout sofrido por uma colega de trabalho. Mascote aborda também, cansaço provocado no trabalhador pelo péssimo sistema de transporte nas nossas capitais, que é algo sofrido pela esmagadora maioria da população que paga caro por um sistema completamente sucateado. 

Mascote Os “Desalinhos” entre trabalhadores e patrões são traçados nos mostrando, levantando o véu das atuais práticas do sistema que prevê a uberização cada vez maior da classe trabalhadora, assim como a já longeva jornada 6×1, um dos temas da participação do PaZSado na faixa. A ausência de perspectivas e o auto engano de que as coisas vão melhorar são ideias demolidas pelo Mascote em “Murmúrios”, ao mesmo tempo que reflete sobre a possibilidade de entrar para vida do crime. Uma reflexão muito pertinente sobre como permanecemos acuados entre a exploração e a certeza de prisão ou morte. 

Após o intervalo “12h30(intervalo)”, é a vez de uma análise mais pormenorizada sobre o Capital e o seu funcionamento, “Mão Invisível” traz o Mattenie no feat, que segue a mesma toada, mas acrescenta algo presente em uma das 11 Teses sobre Feuerbach, a saber: 

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”

A volta pra casa, “18h30(interlúdio)”, enfim “Lar Doce Lar (partes I&II)” porém outro momento de tortura para trabalhadores que se amontoam em transportes. Única faixa presente no disco que possui batidas, mas que logo volta ao drumless, nos mostra a coesão estética da sonoridade construída por todo o trabalho fruto do Digmanybeats. Enfim, o “Sono dos Justos”, entre observações em forma de crônica, Mascote narra essa volta pra casa como de fato ela é para muitos: a certeza de uma batalha inglória, porém vencida. 

A alegria do filho recebendo o pai, uma imagem que só ressalta toda a melancolia que o cotidiano poetizado nos apresenta. A sensação de alívio e segurança de estar em casa, ainda encontrar tempo para brincar com a sua criança, lhe colocar na cama. Deitar para dormir mas a mente a milhão, pensar nas contradições da vida, se programar para o final de semana etc… 

MascoteO produtor Digmanybeats cria uma atmosfera sonora praticamente toda ancorada no drumless, mas longe de um trabalho genérico, o artista proporciona as tonalidades para cada momento do dia. Criando assim, o complemento musical que tensiona o ouvinte a prestar atenção no trabalho poético do Mascote, mas os loops nos injetam sub-repticiamente as sensações adequadas ao tema. 

O disco se fecha às “23h45(outro)”, em um áudio onde o Digmanybeats convida o Mascote para um novo disco. E tudo recomeçará de novo no dia seguinte, o Mascote voltará ao trabalho, o Digmanybeats vai lhe mandar beats e outro disco vai sair. Essa é a rotina dos trabalhadores em geral e dos artistas/trabalhadores em particular. 

Como disse acima, a audição de “Práxis” não diverte e obviamente não se pretende a isso. Ao poetizar a vida do trabalhador brasileiro que é a sua também, mas do que trabalhar com palavras de ordem “revolucionárias”, Mascote nos induz a pensar no absurdo em que vivemos, na exploração brutal que sofremos, no tratamento escroto que sofremos dos poderes. Esteticamente é um trabalho muito bem acabado pois nos carrega em sua duração dentro de uma perspectiva musical monótona, tensa, dura, algo que é conseguido pelo flow empregado pelo Mascote e pelos feats, assim como reiteramos, pela produção musical.   

Escute:

-Uma epopeia do trabalhador brasileiro é a “Práxis” por Mascote & Digmanybeats

Por Danilo Cruz 

 

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