Galf AC – Oganpazan https://homolog.oganpazan.com.br Oganpazan Wed, 20 Aug 2025 18:30:39 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 Relvi & Traumatopia, MC e DJ virados na “Peste”, diversão garantida… https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/relvi-traumatopia-mc-e-dj-virados-na-peste-diversao-garantida/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/relvi-traumatopia-mc-e-dj-virados-na-peste-diversao-garantida/#respond Wed, 20 Aug 2025 18:30:39 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38884 Diretamente de Curitiba, a dupla Relvi & Traumatopia fizeram um disco onde as 13 músicas mostram a afinidade essencial!

Relvi

 

A parceria entre Relvi & Traumatopia tem nos entregado excelentes discos desde 2023, primeiro com “Cinza com Azul Mesclado” e depois no mesmo ano com “A Guerra Que os Heróis Não Sabem”, este último junto ao Galf AC. Dois discos que nós resenhamos na altura do lançamento, e quem acompanha meu trabalho sabe que o Traumatopia é um dos, senão o beatmaker que mais me impressiona atualmente, mas cordialmente devo discordar dele, “Peste” é sim, também um disco de festa.

Inclusive, estou tendo dificuldades para escrever enquanto escuto o disco, pois a produção musical – independente do bpm – faz o corpo responder. Por exemplo, começou a tocar agora “Miradouro”, como ficar parado ouvindo esse beat? Fica aí o questionamento. Nos parece que a questão é outra: quem hoje está a altura de uma festa do “Peste”? Quem hoje é capaz de se divertir seriamente? Afinal, é sempre bom lembrar: Diversão é coisa séria!

Nos últimos anos, principalmente após 2015, vendeu-se a ideia de que o rap tinha que falar merda, ou ser algo aguado para que seja melhor digerido e “curtido”. A música preta já passou por isso, quando o Bebop foi vendido como uma música “intelectual”, para pensar, e não para dançar, não para se divertir – como antes eram as orquestras de Swing. O que é uma visão eurocêntrica, que separa a mente do corpo. Onde o intelectual é o sério, o relevante, e a diversão é irracional e superficial, em uma dualidade que nos remete ao que de pior a Europa e o colonialismo nos relegou. 

Com “Peste”, a dupla Relvi & Traumatopia produziram um disco que alia muito bem essas duas perspectivas, e onde a música seduz corpo e mente, como ocorre em grandes obras. O disco lançado pelo selo – com projeto de dominação mundial – “Sujoground”, balança com a excelência da produção do Traumatopia ao longo das suas 13 músicas, com o Relvi recheando as batidas de flow e ideias e contando com as participações dos MC’s Cabes, Will Santos, Galf AC e Alienação Afrofuturista.

A faixa de abertura dos “Peste” traz o emblemático título de “Construção” e vai na contramão dos discursos ilusórios de uma metafísica neoliberal que pretende ofertar recompensas provenientes de um céu do capital, onde se chegará por mérito próprio. A faixa construída com um loop hipnótico de guitarra, made Traumatopia, elabora uma outra visão de mundo, onde o coletivo e as alianças, junto com muito trabalho: “Carrega a massa subindo a construção”.

E o concreto utilizado na faixa seguinte, e ao longo de todo o disco, é não o resgate de uma estética, mas a atualização da pertinência do boombap como espaço de pensamento e diversão. Muitas pessoas não prestam atenção à importância das palavras como ferramentas do pensamento, e não é incomum vermos a utilização de termos como evolução, a frente do tempo, avançado, e outras denominações “temporais” que pretendem dar conta da avaliação de trabalhos e artistas. 

Mesmo entre figuras destacadas do cenário brasileiro, é possível por exemplo ver críticas à utilização de “palavras difíceis”, como se fosse necessário e mesmo desejável o empobrecimento da linguagem para que a comunicação dentro do campo da arte, seja vitoriosa. Falo disso aqui, porque no campo da arte não existe evolução, há desenvolvimento técnico e criativo, da mesma sorte que não há artista à frente do tempo, o que existe muitas e muitas vezes é um público empobrecido cognitivamente e embotado afectivamente, por conta de nossa história de desigualdade social, econômica e política e pela massificação da indústria cultural. 

Relvi
Relvi & Traumatopia

Neste sentido, o retorno do boombap aos holofotes possui um outro significado para além da mera estratégia marketeira que tem alçado alguns MC’s medianos ao estrelato da indústria. O boombap possui em sua forma um espaço possível de criação que une, a tal diversão ao desfiar lírico que não precisa se encurtar para se encaixar, tendo possibilidades infinitas de modulação de flow e de criação lírica. Obviamente, as características espaço-temporais presentes em cada uma das formas musicais dos subgêneros do rap são singulares e passíveis de criações diversas. 

No entanto, nos parece que “Peste” – nosso objeto aqui – é um excelente exemplar de como formas consagradas encontram em sua repetição elementos diferenciais e singulares, únicos. Os timbres usados por Traumatopia e suas construções de batida, são a prova disso. Somos arrebatados pelos beats não por um exercício de semelhança com clássicos, senão obviamente, preferiríamos ouvir os “originais”, mas pelo diferencial que o artista capta e comunica hoje. 

Em “Cotidiano” esse exemplo é notório, Traumatopia vai além como em outros momentos do disco, e nos mostra não apenas a pertinência criativa das formas consagradas do boombap, como risca os toca-discos com maestria. Relvi por sua vez, constrói uma lírica que vai muito de encontro com a questão aqui abordada: 

“a Peste vai infectar não existe abrigo, o final é o início, reset não tem, mas recomeçar é de lei, passado só serve pra museu, eu sei que nada é pra sempre, ficando só o que plantei”     

Uma concepção que não nega a tradição, mas que se entende como parte de um círculo temporal que arremessa uma flecha para o futuro. O bate cabeça é a tônica de “Dois Elementos” onde Relvi afirma a importância de sua parceria dos beats do Traumatopia, que juntos colocam na fogueira toda a mediocridade. Esses dois elementos já tinham lançado excelentes trabalhos nos últimos anos, trazem de Curitiba, um dos pontos altos do rap feito no Brasil em 2025.      

Relvi E é isso né, o artista que é contemporâneo ao seu tempo é aquele que não fala a mesma língua de todo mundo, porque ancorado de modo profundo no tempo em que vive, consegue nos trazer a compreensão que muitas vezes a vida cotidiana nos nega. “Deixa que o tempo vai dizer o que tem que fazer, certas são ilusões melhor deixar de saber”, “Ordem do Dia” já começa com esse tiro no pensamento do homem médio. Hoje encarnado no pessoal que se entende informado, pelo whatsapp e ou por páginas de fofoca, por notícias que escondem suas causas. 

A faixa traz a participação do mestre curitibano Cabes MC, que já emenda uma sequência cabreira de versos onde o artista nos mostra o “caos” do cotidiano e o aprisionamento subjetivo e consequentemente político de possíveis visões de futuro. Ainda sobre a questão do tempo, os 3 minutos da faixa parecem se passar em 30 segundos, dada a força de sua duração, um dos grandes momentos do disco. 

Em “Envelhecer”, Traumatopia recicla o sample loopado na primeira faixa e acrescenta uma batida, que é assumida pela lírica do Relvi que segue fazendo seu próprio “tempo” dentro do Tempo em que vive, combatendo o racismo e o fascismo mais atual do que nunca. Colocando fogo no parquinho, “Inflamável” em mais um beat que nos coloca no mood de balançar o corpo e o pescocinho, e onde Relvi segue destilando um flow incandescente.    

Aliado à batida, Traumatopia mete um baixo estourado em “Rocky & Apollo” que traz o MC Wil Santos no feat com Relvi, DJ Trauma novamente esculachando nos scratchs, arranhando nossos cérebros. A faixa destila a luta simbolizada no título, como a busca dos “perdedores” dentro do sistema em que vivemos, onde os MC’s diagnosticam com excelência os obstáculos da classe trabalhadora.

Momento importante dentro do aspecto discursivo do disco, e que nos parece coadunar bastante com a visão espaço-temporal, mas também ética presente ao longo do “Peste”, a faixa “Cautela” chega no que podemos chamar de metade do disco. As linhas do Relvi, muito bem construídas em todas as faixas, aqui é um aviso sobre o game, sobre a política, mas sobretudo sobre o “Ethos” que o move. 

Se distanciando do falatório que muitas vezes compõem as personas de muitos dos atores da indústria do Rap, Relvi flutua bonito em “Altos e Baixos”, mas um beat exemplar do Traumatopia. E mesmo diante de um momento onde os acontecimentos da vida poderia indicar uma baixa tendencial, Relvi encontrou sua medicina nos versos, em suas criações, como espaço vital para seguir construindo sua história. 

Longe de serem poetas em torre de marfim, em Miradouro, Relvi & Galf AC, entregam aulas em cima do que considero o beat mais sensacional do disco, algo difícil em uma das melhores produções do ano. Os versos do Relvi reforçam a ideia de que em Peste, a questão da temporalidade é talvez o tema central, seja da própria percepção do tempo da vida humana e sobretudo da questão da finitude, seja do tempo transformado em mercadoria dentro do capitalismo. Onde utilizamos palavras completamente viciadas para falar de algo que nos constitui, que são as bases mentais através das quais percebemos o mundo. 

Relvi

“Deixa eu falar, que o tempo é rei, mas às vezes um pouco escasso, agora eu sei eu sei, faltam horas nessas 24, faltam verdades nesses fantasmas, e isso é fato” 

Para quem prestar atenção, perceberá uma contradição entre o tempo é rei e faltar horas nas 24 que compõem o dia. Contradição essa que pode ser entendida pelo completo descompasso entre o ritmo da vida e o regime capitalista de produção em que estamos inseridos. E que à guisa de resposta, encontra nos versos de Galf AC uma interessante visão, da necessidade de voltar-se para dentro de si, com um processo de introspecção que rompa com a velocidade alucinatória em que vivemos. Buscar reger o próprio tempo, como senhor de si mesmo e do seu próprio ritmo, melodia e harmonia, não é outro senão o papel da nossa busca por liberdade. 

Como escrevi recentemente, em uma resenha sobre o disco do grapiúna Dario Inerente, hoje no rap nacional é comum projetos grandiosos e com conceitos megalomaníacos não entregarem a mesma solidez marqueteira em termos estéticos. Ao que me parece, aqui estamos diante de outro exemplo de um disco que foi vendido pelos artistas e nem pela Sujoground como conceitual mas que ainda assim, possui uma forte coesão de ideias sonoras e de temas poéticos. 

E quem diz não sou eu, é o próprio Relvi, que comunica ao Traumatopia o desejo de tomar a música do clássico Subsolo como tema da faixa “À Deriva”: “Outro ano vem outro vai e eu nem vi passar”. Diante do caos social e político a música aborda essa forma de estar no mundo, à deriva, seguindo o fluxo dos acontecimentos. Relvi desfia versos diversos sobre temas que são éticos e geopolíticos com uma urgência muito forte mas sobretudo como um sinal de saúde artística. 

Com “Eclipse” penúltima música do “Peste”, Relvi traz uma semiótica do fim: “Vivendo o Pós Apocalipse no Apocalipse”, algo hoje muito comum de ouvir, e que não tem o mesmo aspecto milenarista que ocorreram nas viradas dos anos 1.000 e no ano 2.000, com o famigerado Bug do Milênio. Hoje, muitos assumiram um fatalismo covarde diante das crises todas que o Antropoceno e o Capitalismo tardio provocaram, provocam e provocarão cada vez mais e mais rápido nos próximos anos. 

O disco se encerra com a participação do Alienação Afrofuturista na faixa “Song from the Death”, e extrai da mesma fonte da faixa anterior – um mundo que caminha para vala a passos largos – as ideias líricas. Aqui, Blade, Constantine, são evocados como anti-heróis para combater os monstros, vampiros e congêneres que impulsionam e produzem um estado de morte constante. É só o ouvinte pensar na ascenção da extrema direita e no atual genocídio televisionado do povo palestino por Israel que nenhuma imagem ou metáfora parecerá sobrenatural.      

Ao fim da audição, diante de todo o quadro apresentado em Peste, não é fácil pensar em diversão, quando entendemos essa palavra como escapismo. O mero entretenimento, diante de um mundo caótico, que o indivíduo desesperado busca para algumas horas de entorpecimento. No entanto, a realidade volta e muitas vezes em um rebote mais forte, pois grande parte do que é colocado na caixa de entretenimento inofensivo é mais uma tecnologia da indústria cultural supremacista branca, para o melhor apodrecimento e subjugação subjetiva da massa incauta.  

Dito isso, na festa que eu imagino e sonho, mas que pratico aqui em minha humilde residência, “Peste” é um disco festivo. É o estímulo que me alegra e me faz querer escrever sobre. Obrigado aos envolvidos!   

-Relvi & Traumatopia, MC e DJ virados na “Peste”

Por Danilo Cruz 

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Diego 157 Day, e porque devemos louvar esse mestre da nossa cultura https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/diego-157-day-e-porque-devemos-louvar-esse-mestre-da-nossa-cultura/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/diego-157-day-e-porque-devemos-louvar-esse-mestre-da-nossa-cultura/#respond Fri, 15 Aug 2025 17:29:13 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38898 Diego 157, MC e beatmaker que é um dos arquitetos da cultura Hip-Hop no elemento Rap, completa hoje 42 anos, você conhece a história?
Diego 157
Da esquerda Spock MC, Pacato & Diego 157. infelizmente não conseguimos identificar a irmã presente.

Diego 157 é um dos arquitetos da cultura Hip-Hop na Bahia, com mais de 20 anos de produções, o Hobbit da Massaranduba possui uma obra grandiosa e que se confunde com o próprio desenvolvimento do Rap baiano no século XXI. Conhecido inclusive nacionalmente, o trabalho do MC e beatmaker reúne produções diversas entre projetos coletivos e solo, que desde os primeiros passos sempre demonstrou uma imensa qualidade e relevância. 

É próprio da indústria cultural capitalista e supremacista branca brasileira produzir, por um lado, o esvaziamento de culturas pretas e periféricas e por outro, ignorância e invisibilidade, mesmo dos maiores mestres do nosso povo. Por isso, mais do que elogios e tapinhas nas costas, é preciso sempre lembrar de não esquecer o que “as areias do tempo” pretende encobrir. 

Diego 157
Formação oficial Coscarque, Diego 157, Lord e DJ Poeira

O primeiro registro fonográfico de Diego 157 a que tivemos acesso foi o projeto “H.U.N. – Hip-Hop Underground Nordestino”, em um EPzinho de apenas 4 músicas mas que é um documento histórico brutal. Dito & Feito foi gravado há quase 20 anos atrás, em 2006 e o grupo era formado pela tríade Diego 157, Lord, Coscarque e DJ Poeira, é mole? De acordo com Cosca: “O grupo possuía como agregados que se identificavam com o trabalho, nomes como Baga, Betinho, Victor Haggar, Spock MC, Sinho Representativo, MC Sardinha, Man-Doin e DJ Jarrão aka DJ Jarron”. 

Com beats produzidos por Cosca e Diego 157, sob a atenta “Super Visão” de Spock MC, o disco é um dos primeiros – senão o primeiro – registros de um rap com estética underground, do nosso estado. Houve um tempo, onde artistas de bairros diferentes se frequentavam e colaboravam com cenários muito próprios, por exemplo, no caso do H.U.N duas escolas fundamentais para o rap de Salvador dialogavam e produziam o futuro. São Caetano e Cidade Baixa/Subúrbio Ferroviário. Não posso deixar de pensar como esse EPzinho serviu para mostrar possibilidades e formar também, outros tantos MC’s e beatmakers que anos depois iriam formar outros tantos projetos importantes para a nossa história. 

Diego 157
Capa do projeto Coletivo 071, idealizado pelo grande DJ Índio

Um ano depois, em 2007 Diego 157 colabora com outro projeto que não está sequer nas plataformas de streaming mas que é também um marco desconhecido de grande parte do público: O Coletivo 071. Imagine aí jovem incauto, Daganja, Dimak, Sereno, Fall Clássico, Spock, Aladdin, Diego 157 em um mesmo projeto? Pois é, é essa a “gang” poderosa reunida no EP Todo o “Dom que Deus nos Reservou”, por uma iniciativa do grande DJ Índio que tocou e produziu os beats.

Estes dois trabalhos guardam riquezas que deveriam ser de conhecimento público, porém estamos falando de uma época onde era muito difícil divulgar trabalhos, onde o acesso a tecnologia – hoje comum – era uma batalha. Mas, não faltava qualidade inventiva. Infelizmente, esses dois registros sumiram da internet com a queda do Myspace, porém se você ainda ouve MP3 como os antigos Incas, vou deixar um link para download aqui

Apesar do rap acontecer desde os anos 90 em Salvador, em termos fonográficos, é nos anos 2000 que se começa a moldar um modo próprio de se fazer o rap em nossa cidade e estado. Trabalhos como os dos grupos Quilombo Vivo, Júri Racional, Testemunhaz e OQuadro (Ilhéus) e a expressão nacional alcançada pelo Afrogueto, através do Prêmio Hutuz, lançaram as bases para um Rap orgulhosamente baiano e nordestino. 

Capa e contra capa do clássico disco lançado pelo Juri Racional – Por Todos os Meios Necessários em 2005

Em 2009, Diego 157 se junta a Spock MC e ao Man-Duin lançam o disco “A Cria Rebelde” de um dos grupos mais fodas da nossa história: “157 Nervoso”. Composto por 12 músicas, com participações de Aladdin e Léo Souza, trazia uma lírica que mesclava a ginga underground com ideias muito fortes de revolução social e denúncia política. Um disco que bate muito bem até hoje, como tudo que Diego colocou a mão, não possui data de validade. 

A passagem do tempo, e a atenção diante das mudanças históricas é sempre importante para não perdermos o bonde da história e muito menos nos tornarmos engessados. Escutar 157 Nervoso é voltar para um tempo onde o rap se constituía como uma verdadeira arma de luta político racial e de classe, onde se entendia que depois da raça, e que vivíamos em uma sociedade onde a burguesia nos esmaga através de diversas tecnologias de opressão. 

Diego 157

Em “A Cria Rebelde” o discurso é revolucionário e muito bem embasado, o trio de MC’s Diego 157, Spock e Man-Duin estavam longes de serem meros panfletários. O tempero singular baiano se deu pelas produções presentes no disco de nomes como Armeng, DJ Índio, de DJ Leandro e do próprio Diego. Muito próximos de outros grupos nordestinos como Clâ Nordestino e Gíria Vermelha, pregando morte a burguesia e o levante do povo preto, mas com identidade lírica e sonora próprias. “Enfia no cu a sua lei que nos garante liberdade, seu american way of life e a burocracia das universidades”, dá bem a visão política que permeia todo o disco. 

Apesar de todo o disco possuir uma coesão estética e não existir ao longo do play momentos de baixa, a música “Ancestrais” (prod. DJ Leandro) me parece um clássico do rap nordestino. Utilizando um sample de forró, a construção desse beat é aulas demais, e obviamente é acompanhado na excelência pelo trio de MC’s. Enfim, um clássico que para a sua sorte está presente nas plataformas de streaming.

Não bastasse em pouco tempo de carreira fonográfica, Diego 157, já ter marcado seu nome no cenário que hoje é história, ele também passa, a partir de 2009 a se tornar um dos melhores beatmakers do país. Finalista de concursos de beat com nomes hoje nacionalmente conhecidos como Coyote Beats e Efieli, ganhou concurso na cidade e participou da Liga dos Beats em São Paulo em 2010. 

Diego 157 Em 2009, o artista lançou uma mixtape: “Originais & Remixadas Vol.1” que trazia remixes de nomes do rap feito aqui no nordeste, com o clássico Inquilinus de Pernambuco, do sul com o paranaense Cabes, e de nomes como Emicida e Rodrigo Ogi. Nas palavras do Felipe Schmidt à época: 

“O projeto serve até como uma ferramenta para “educar” novos fãs do rap. É que Diego, antes de apresentar sua versão, solta a original. Outro ponto legal e digno de nota é a quantidade de artistas nacionais remixados, algo que não é muito comum por aqui. Das 12 faixas do trabalho, oito são made in Brazil. Mas, em meio a percussões brasileiras e samples tranquilos, é a voz infantil apresentando a mixtape do pai logo no início a parte mais emblemática da parada. E foi só o início, o prelúdio para a criatividade que transbordaria até o último segundo da audição. Enfim, fiquem com os remixes de Diego 157.”

Após a dissolução do 157 Nervoso, Diego 157 segue com Man-Duin com o projeto Niggaz com quem lançou uma outra pedrada em 2011, mais uma das gemas que só quem é de fato conhece. Os teleguiados pelo hype, os amantes de famosos, não conhecem. “Single’s” é exatamente isso, um agrupamento de singles com participações de peso como Daganja, Eleitos, Galf AC, Victor Duarte e Spok. Vou deixar o player marotamente aqui:

Este ano, outro trabalho essencial do Diego 157, que hoje se tornou um documento histórico, é o EP “Antes da Mixtape”, que completa 10 anos agora em 2025. Certamente, é um dos discos do rap nacional que mais ouvi na vida, no ano em que foi lançado lembro de sair de Macaúbas para o Planeta dos Macacos em São Cristovão ouvindo no repeat. E ao longo dos anos não perdi esse hábito. 

Porém, nunca resenhei mais profundamente esse trabalho, algo que farei daqui para o fim do ano, mas não posso deixar de apontar para o fato de que um dream team da rima participa desse disquinho. Nomes como Ravi Lobo, Galf AC, Baga, Xarope MC, Seth aka Jhomp (NPN), Brown Santana, José Macedo aka Zé Atumbi , Man-Duim e Oddish. Um EP pesado seja pelas participações, pelo próprio Diego 157 suas rimas e beats, dúvida? Dê o play:

A partir de 2015, o Oganpazan passou a registrar os trabalhos lançados por Diego 157, sejam os seus outros EP’s ou o excelente disco do coletivo Fraternidade Maus Elementos, outros tantos trabalhos que marcaram época do Rap baiano e nacional. Hoje, Diego completa 42 anos e segue como um dos pilares da nossa cultura. Esse pequeno perfil é um exercício de admiração, e um informativo para quem está de touca dentro e fora do Hip-Hop baiano, de que sim, temos um mestre vivo, produzindo, e devemos – que tem compromisso com essa cultura – louvarmos seu trabalho enquanto aqui ele está. 

Vida longa Diego, um brinde a sua vida e a sua obra, o rap e a cultura Hip-Hop baiana agradece. 

-Diego 157 Day! Porque devemos louvar esse mestre da nossa cultura!

Por Danilo Cruz 

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