Rap – Oganpazan https://homolog.oganpazan.com.br Oganpazan Fri, 22 Aug 2025 15:33:03 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 Oddish do velho testamento voltou, plantando a Dissgraça contra Baco Exu do Blues! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/oddish/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/oddish/#respond Fri, 22 Aug 2025 15:33:03 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38950 Oddish, MC conterrâneo de Baco Exu do Blues, retirou alguns esqueletos do armário e soltou uma diss pesada!
Oddish
Oddish

Oddish é um dos grandes nomes da história do Rap Baiano, o Mc possui uma caminhada oriunda das batalhas, onde durante anos foi um nome simplesmente imbatível. Em 2014, ele lançou seu primeiro disco solo: “Ponteiros Voam Como Jatos”, um disco sujo e cáustico, que deu o start para sua obra fonográfica de modo irremediavelmente baiano, trazendo samples do Igor Kanario e cuspindo barras. 

Integrando o bando “Fraternidade Maus Elementos”, Oddish foi uma das peças psicóticas utilizadas no clássico recente: “Eles Não Vão Perdoar” de 2015, e daí o MC seguiu trampando com seus parceiros de grupo e soltando diversos singles nos anos 2017-2018. Oddish retornou ao cenário em 2021, com o consistente disco Onironauta. O disco que chegou na pista com a produção do Degraus Beats, trouxe participações do Teagacê e do Dactes. 

Ao longo de sua obra, Oddish trabalha meio numa perspectiva o Médico & o Monstro. O Monstro é o que chamo de Oddish do velho testamento, cuspindo sujeira de modo muito único e com uma identidade muito baiana. O Médico é o Felipe Castro, lidando com os seus demônios internos, expondo-os em lírica numa pegada mais alternativa. Exemplo disso, é o seu EP lançado no ano passado: Âmago. 

Hoje ao meio dia, o Monstro ressuscitou e veio inclusive com as características iniciais, reeditando a sua inspiração em outro Parmalat: Igor Kannário. A faixa “Breja na Sacada” é um diss pesada ao rapper seu conterrâneo e desafeto: Baco Exu do Blues. Oddish tirou uns esqueletos do armário, algumas coisas que são comentadas na cena baiana, e produziu uma diss que dá gosto de ouvir pela já conhecida qualidade lírica do MC.

 

As linhas de soco que Oddish disparou atacam elementos diversos da construção artística do Baco Exu do Blues e a sua virada pop, como o seu novo Rebranding, mas vão além e expõem questões “supostamente” vivenciadas juntos, por isso o título “Breja na Sacada”. Além de usar os títulos de algumas das faixas do Baco como parte da construção da diss.   

Será que haverá resposta? Até hoje, Baco nunca respondeu as diversas linhas que recebeu e nem as diss abertas de ataque, então é aguardar!

-Plantando a disgraça? Oddish do velho testamento voltou com uma diss para Baco!

PorDanilo Cruz 

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Relvi & Traumatopia, MC e DJ virados na “Peste”, diversão garantida… https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/relvi-traumatopia-mc-e-dj-virados-na-peste-diversao-garantida/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/relvi-traumatopia-mc-e-dj-virados-na-peste-diversao-garantida/#respond Wed, 20 Aug 2025 18:30:39 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38884 Diretamente de Curitiba, a dupla Relvi & Traumatopia fizeram um disco onde as 13 músicas mostram a afinidade essencial!

Relvi

 

A parceria entre Relvi & Traumatopia tem nos entregado excelentes discos desde 2023, primeiro com “Cinza com Azul Mesclado” e depois no mesmo ano com “A Guerra Que os Heróis Não Sabem”, este último junto ao Galf AC. Dois discos que nós resenhamos na altura do lançamento, e quem acompanha meu trabalho sabe que o Traumatopia é um dos, senão o beatmaker que mais me impressiona atualmente, mas cordialmente devo discordar dele, “Peste” é sim, também um disco de festa.

Inclusive, estou tendo dificuldades para escrever enquanto escuto o disco, pois a produção musical – independente do bpm – faz o corpo responder. Por exemplo, começou a tocar agora “Miradouro”, como ficar parado ouvindo esse beat? Fica aí o questionamento. Nos parece que a questão é outra: quem hoje está a altura de uma festa do “Peste”? Quem hoje é capaz de se divertir seriamente? Afinal, é sempre bom lembrar: Diversão é coisa séria!

Nos últimos anos, principalmente após 2015, vendeu-se a ideia de que o rap tinha que falar merda, ou ser algo aguado para que seja melhor digerido e “curtido”. A música preta já passou por isso, quando o Bebop foi vendido como uma música “intelectual”, para pensar, e não para dançar, não para se divertir – como antes eram as orquestras de Swing. O que é uma visão eurocêntrica, que separa a mente do corpo. Onde o intelectual é o sério, o relevante, e a diversão é irracional e superficial, em uma dualidade que nos remete ao que de pior a Europa e o colonialismo nos relegou. 

Com “Peste”, a dupla Relvi & Traumatopia produziram um disco que alia muito bem essas duas perspectivas, e onde a música seduz corpo e mente, como ocorre em grandes obras. O disco lançado pelo selo – com projeto de dominação mundial – “Sujoground”, balança com a excelência da produção do Traumatopia ao longo das suas 13 músicas, com o Relvi recheando as batidas de flow e ideias e contando com as participações dos MC’s Cabes, Will Santos, Galf AC e Alienação Afrofuturista.

A faixa de abertura dos “Peste” traz o emblemático título de “Construção” e vai na contramão dos discursos ilusórios de uma metafísica neoliberal que pretende ofertar recompensas provenientes de um céu do capital, onde se chegará por mérito próprio. A faixa construída com um loop hipnótico de guitarra, made Traumatopia, elabora uma outra visão de mundo, onde o coletivo e as alianças, junto com muito trabalho: “Carrega a massa subindo a construção”.

E o concreto utilizado na faixa seguinte, e ao longo de todo o disco, é não o resgate de uma estética, mas a atualização da pertinência do boombap como espaço de pensamento e diversão. Muitas pessoas não prestam atenção à importância das palavras como ferramentas do pensamento, e não é incomum vermos a utilização de termos como evolução, a frente do tempo, avançado, e outras denominações “temporais” que pretendem dar conta da avaliação de trabalhos e artistas. 

Mesmo entre figuras destacadas do cenário brasileiro, é possível por exemplo ver críticas à utilização de “palavras difíceis”, como se fosse necessário e mesmo desejável o empobrecimento da linguagem para que a comunicação dentro do campo da arte, seja vitoriosa. Falo disso aqui, porque no campo da arte não existe evolução, há desenvolvimento técnico e criativo, da mesma sorte que não há artista à frente do tempo, o que existe muitas e muitas vezes é um público empobrecido cognitivamente e embotado afectivamente, por conta de nossa história de desigualdade social, econômica e política e pela massificação da indústria cultural. 

Relvi
Relvi & Traumatopia

Neste sentido, o retorno do boombap aos holofotes possui um outro significado para além da mera estratégia marketeira que tem alçado alguns MC’s medianos ao estrelato da indústria. O boombap possui em sua forma um espaço possível de criação que une, a tal diversão ao desfiar lírico que não precisa se encurtar para se encaixar, tendo possibilidades infinitas de modulação de flow e de criação lírica. Obviamente, as características espaço-temporais presentes em cada uma das formas musicais dos subgêneros do rap são singulares e passíveis de criações diversas. 

No entanto, nos parece que “Peste” – nosso objeto aqui – é um excelente exemplar de como formas consagradas encontram em sua repetição elementos diferenciais e singulares, únicos. Os timbres usados por Traumatopia e suas construções de batida, são a prova disso. Somos arrebatados pelos beats não por um exercício de semelhança com clássicos, senão obviamente, preferiríamos ouvir os “originais”, mas pelo diferencial que o artista capta e comunica hoje. 

Em “Cotidiano” esse exemplo é notório, Traumatopia vai além como em outros momentos do disco, e nos mostra não apenas a pertinência criativa das formas consagradas do boombap, como risca os toca-discos com maestria. Relvi por sua vez, constrói uma lírica que vai muito de encontro com a questão aqui abordada: 

“a Peste vai infectar não existe abrigo, o final é o início, reset não tem, mas recomeçar é de lei, passado só serve pra museu, eu sei que nada é pra sempre, ficando só o que plantei”     

Uma concepção que não nega a tradição, mas que se entende como parte de um círculo temporal que arremessa uma flecha para o futuro. O bate cabeça é a tônica de “Dois Elementos” onde Relvi afirma a importância de sua parceria dos beats do Traumatopia, que juntos colocam na fogueira toda a mediocridade. Esses dois elementos já tinham lançado excelentes trabalhos nos últimos anos, trazem de Curitiba, um dos pontos altos do rap feito no Brasil em 2025.      

Relvi E é isso né, o artista que é contemporâneo ao seu tempo é aquele que não fala a mesma língua de todo mundo, porque ancorado de modo profundo no tempo em que vive, consegue nos trazer a compreensão que muitas vezes a vida cotidiana nos nega. “Deixa que o tempo vai dizer o que tem que fazer, certas são ilusões melhor deixar de saber”, “Ordem do Dia” já começa com esse tiro no pensamento do homem médio. Hoje encarnado no pessoal que se entende informado, pelo whatsapp e ou por páginas de fofoca, por notícias que escondem suas causas. 

A faixa traz a participação do mestre curitibano Cabes MC, que já emenda uma sequência cabreira de versos onde o artista nos mostra o “caos” do cotidiano e o aprisionamento subjetivo e consequentemente político de possíveis visões de futuro. Ainda sobre a questão do tempo, os 3 minutos da faixa parecem se passar em 30 segundos, dada a força de sua duração, um dos grandes momentos do disco. 

Em “Envelhecer”, Traumatopia recicla o sample loopado na primeira faixa e acrescenta uma batida, que é assumida pela lírica do Relvi que segue fazendo seu próprio “tempo” dentro do Tempo em que vive, combatendo o racismo e o fascismo mais atual do que nunca. Colocando fogo no parquinho, “Inflamável” em mais um beat que nos coloca no mood de balançar o corpo e o pescocinho, e onde Relvi segue destilando um flow incandescente.    

Aliado à batida, Traumatopia mete um baixo estourado em “Rocky & Apollo” que traz o MC Wil Santos no feat com Relvi, DJ Trauma novamente esculachando nos scratchs, arranhando nossos cérebros. A faixa destila a luta simbolizada no título, como a busca dos “perdedores” dentro do sistema em que vivemos, onde os MC’s diagnosticam com excelência os obstáculos da classe trabalhadora.

Momento importante dentro do aspecto discursivo do disco, e que nos parece coadunar bastante com a visão espaço-temporal, mas também ética presente ao longo do “Peste”, a faixa “Cautela” chega no que podemos chamar de metade do disco. As linhas do Relvi, muito bem construídas em todas as faixas, aqui é um aviso sobre o game, sobre a política, mas sobretudo sobre o “Ethos” que o move. 

Se distanciando do falatório que muitas vezes compõem as personas de muitos dos atores da indústria do Rap, Relvi flutua bonito em “Altos e Baixos”, mas um beat exemplar do Traumatopia. E mesmo diante de um momento onde os acontecimentos da vida poderia indicar uma baixa tendencial, Relvi encontrou sua medicina nos versos, em suas criações, como espaço vital para seguir construindo sua história. 

Longe de serem poetas em torre de marfim, em Miradouro, Relvi & Galf AC, entregam aulas em cima do que considero o beat mais sensacional do disco, algo difícil em uma das melhores produções do ano. Os versos do Relvi reforçam a ideia de que em Peste, a questão da temporalidade é talvez o tema central, seja da própria percepção do tempo da vida humana e sobretudo da questão da finitude, seja do tempo transformado em mercadoria dentro do capitalismo. Onde utilizamos palavras completamente viciadas para falar de algo que nos constitui, que são as bases mentais através das quais percebemos o mundo. 

Relvi

“Deixa eu falar, que o tempo é rei, mas às vezes um pouco escasso, agora eu sei eu sei, faltam horas nessas 24, faltam verdades nesses fantasmas, e isso é fato” 

Para quem prestar atenção, perceberá uma contradição entre o tempo é rei e faltar horas nas 24 que compõem o dia. Contradição essa que pode ser entendida pelo completo descompasso entre o ritmo da vida e o regime capitalista de produção em que estamos inseridos. E que à guisa de resposta, encontra nos versos de Galf AC uma interessante visão, da necessidade de voltar-se para dentro de si, com um processo de introspecção que rompa com a velocidade alucinatória em que vivemos. Buscar reger o próprio tempo, como senhor de si mesmo e do seu próprio ritmo, melodia e harmonia, não é outro senão o papel da nossa busca por liberdade. 

Como escrevi recentemente, em uma resenha sobre o disco do grapiúna Dario Inerente, hoje no rap nacional é comum projetos grandiosos e com conceitos megalomaníacos não entregarem a mesma solidez marqueteira em termos estéticos. Ao que me parece, aqui estamos diante de outro exemplo de um disco que foi vendido pelos artistas e nem pela Sujoground como conceitual mas que ainda assim, possui uma forte coesão de ideias sonoras e de temas poéticos. 

E quem diz não sou eu, é o próprio Relvi, que comunica ao Traumatopia o desejo de tomar a música do clássico Subsolo como tema da faixa “À Deriva”: “Outro ano vem outro vai e eu nem vi passar”. Diante do caos social e político a música aborda essa forma de estar no mundo, à deriva, seguindo o fluxo dos acontecimentos. Relvi desfia versos diversos sobre temas que são éticos e geopolíticos com uma urgência muito forte mas sobretudo como um sinal de saúde artística. 

Com “Eclipse” penúltima música do “Peste”, Relvi traz uma semiótica do fim: “Vivendo o Pós Apocalipse no Apocalipse”, algo hoje muito comum de ouvir, e que não tem o mesmo aspecto milenarista que ocorreram nas viradas dos anos 1.000 e no ano 2.000, com o famigerado Bug do Milênio. Hoje, muitos assumiram um fatalismo covarde diante das crises todas que o Antropoceno e o Capitalismo tardio provocaram, provocam e provocarão cada vez mais e mais rápido nos próximos anos. 

O disco se encerra com a participação do Alienação Afrofuturista na faixa “Song from the Death”, e extrai da mesma fonte da faixa anterior – um mundo que caminha para vala a passos largos – as ideias líricas. Aqui, Blade, Constantine, são evocados como anti-heróis para combater os monstros, vampiros e congêneres que impulsionam e produzem um estado de morte constante. É só o ouvinte pensar na ascenção da extrema direita e no atual genocídio televisionado do povo palestino por Israel que nenhuma imagem ou metáfora parecerá sobrenatural.      

Ao fim da audição, diante de todo o quadro apresentado em Peste, não é fácil pensar em diversão, quando entendemos essa palavra como escapismo. O mero entretenimento, diante de um mundo caótico, que o indivíduo desesperado busca para algumas horas de entorpecimento. No entanto, a realidade volta e muitas vezes em um rebote mais forte, pois grande parte do que é colocado na caixa de entretenimento inofensivo é mais uma tecnologia da indústria cultural supremacista branca, para o melhor apodrecimento e subjugação subjetiva da massa incauta.  

Dito isso, na festa que eu imagino e sonho, mas que pratico aqui em minha humilde residência, “Peste” é um disco festivo. É o estímulo que me alegra e me faz querer escrever sobre. Obrigado aos envolvidos!   

-Relvi & Traumatopia, MC e DJ virados na “Peste”

Por Danilo Cruz 

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Os 10 Pilares de Abebe Bikila (BK) ou Pablo Marçal na Etiópia, arrivismo hard em “DRLE” https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/os-10-pilares-de-abebe-bikila-bk-ou-pablo-marcal-na-etiopia-arrivismo-hard-em-drle/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/20/os-10-pilares-de-abebe-bikila-bk-ou-pablo-marcal-na-etiopia-arrivismo-hard-em-drle/#respond Wed, 20 Aug 2025 15:31:02 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38925 Recentemente o MC carioca BK, um dos nomes mais destacados do Rap brasileiro lançou o filme “Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer”, analisamos os 10 Pilares propostos!

BK

No penúltimo lançamento do BK, Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer (o filme), o arrivismo narcisista, há muito já presente no rap brasileiro, totalmente rendido aos preceitos neoliberais, alcançou talvez o seu ponto mais agudo. Já faz muitos anos que artistas como Filipe Ret entre outros, transformaram a capacidade crítica do Rap em mera performance narcisista, recheada de clichês de auto-ajuda, posando de filosofia existencial. 

Este texto é uma análise semiótica e de discurso, do que subjaz como texto subreptício presente no filme “D.R.L.E” que possui a direção do Vellas. Porém, não conseguimos localizar a autoria das falas e dos textos presentes no filme, o seu escabroso roteiro. No entanto, tomamos aqui o conjunto da obra como assumido por BK, uma representação visual do disco Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer (2025) e consequentemente como reflexo e complemento imagético e ideológico do mesmo.  

No filme que precedeu o lançamento de “DRLE”, último disco do MC carioca BK, Os 10 Pilares do Abebe Bikila – ele mesmo e não a figura histórica – o coach rap contemporâneo no Brasil, encontrou o seu messias mais radical. O filme gravado na Etiópia mescla mistificação histórica e um flerte muito forte com uma noção difusa de Darwinismo Social. O discurso do MC empreendedor de si mesmo, o self made man, agora se porta como líder de um bando nômade – sem nenhum fundamento histórico – convidando seus “colaboradores” a se portarem com o máximo de crueldade possível diante do Outro. 

A forma completamente deturpada que pretende contrapor o Nomadismo – como origem humana – ao Sedentarismo – forma de desenvolvimento das primeiras civilizações africanas –  é no começo do filme, a tese de base  na qual BK pretende assentar a sua visão estética.

“O homem é de origem nômade. O que fica parado atrofia. Perde a força. Vira o elo frágil de um bando que caminha pelo progresso. Um elo que atrasa e deve ser abandonado.”

Essa fala de um mais velho etiope, já nos primeiros segundos do filme, sugere uma confusão conceitual onde o nosso passado e o presente atual, longe de dialogar de forma crítica, é mistificado em nome de um ideal de progresso neoliberal. Confunde o “corre” contemporâneo, no estágio civilizacional extremamente crítico em que vivemos atualmente, com a vida nos períodos Pré-Neolíticos. 

BK

Já faz literalmente uns 10 mil anos, que deixamos de ser caçadores coletores, e passamos a dominar a agricultura e a criação de animais, assentando-nos em aldeias, cidades, etc. Apesar de ainda hoje existirem povos nômades, principalmente no continente africano, a busca por essa “origem” da humanidade, revela o caráter ético e político atual do trabalho do BK. Tanto no filme como no disco, aquilo que se pretendia movimento é na verdade um giro em falso dentro de uma ética de coach e de uma postura política neoliberal que beira o Darwinismo Social. 

A fera mítica utilizada no filme é bastante atual, a entidade que vive nas sombras e ri antes do ataque é no final das contas aquilo que BK pretende escamotear com os seus 10 Pilares, chama-se Capitalismo Tardio. Atualmente, na posição de corredor privilegiado, o artista carioca não possui nenhum escrúpulo em assumir a mesma posição do patrão inclemente, que não permite que uma mãe dê a luz aos seus filhos ou que quer que o seu “colaborador” use fraldas para não ir ao banheiro. 

Como passageiro na classe especial – mainstream –  da indústria cultural, ele observa impassível os que são deixados para trás, para morrer, pois o bando não espera. Sem nenhum distanciamento poético, a construção do roteiro são meras ilustrações em imagens movimento, das teses, que serão expostas ao final. Os ares de pseudo ancestralidade contida no mais velho que narra a lenda, se nos mostra em um esforço mínimo de interpretação como mera mistificação, que parece roteirizada pelo Pablo Marçal. 

Em entrevista recente ao programa Provocações, BK explica que viajou à Etiópia com o disco já pronto e que lá buscava por um lado, a exemplificação do Monstro – nome de uma das faixas do disco – e por outro a ligação do seu próprio nome. Ao chegar no único país do continente africano que nunca foi colonizado – junto a Libéria nação fundada em 1847 por ex-escravizados vindos dos EUA – o que BK nos apresenta é algo totalmente anti-africano: 

“Por isso, o bando não espera. Não faz distinção e nem concessão, amigos, família, amores. Todos ficam para trás.”

BKMetaforicamente, para serem devorados – “membro por membro, osso por osso” – social e no presente histórico para serem esquecidos, abandonados à própria sorte, marginalizados e por que não, mortos. Pois, o monstro atual assim procede e ele não é nem o BK e muito menos o Tempo, que nas religiões e nas cosmovisões de matriz africana possui uma forma cíclica e muito longe da linearidade ocidental proposta pelo artista. E que mesmo ao pensarmos na história da Etiópia, com forte ligação com o Judaísmo, com o cristianismo e com a religião muçulmana, manteve-se independente politicamente. 

Quanto mais BK busca se apropriar da ancestralidade etiope do seu nome, mais distante fica. Abebe Bikila, o maratonista que venceu duas vezes as Olimpíadas, na primeira delas descalço, um exemplo de resistência que está anos luz à frente do Abebe Bikila que parece propositalmente não reconhecer princípios básicos, hoje populares até no jargão das redes sociais como o: Ubuntu. A circularidade como forma e signo de grande parte – senão na totalidade – das bases ancestrais do pensamento africano em todas as dimensões, perde a corrida para um código de conduta que não encontra reflexo no território de onde é anunciado, a não ser como praga colonial inoculada e consequentemente reproduzida. 

O continente africano é um dos principais produtores de diamantes do mundo. Utilizando o diamante como signo de “progresso” e foco principal da “empresa”, BK o artista, esquece ou finge esquecer completamente do “custo” destes, aos países e aos povos africanos. E ao que parece daí deriva o resto, o BK que aparece ao final com uma tocha iluminando os rostos de um “bando” que ouve o patrão recitar os códigos de conduta, os 10 Pilares do neoliberalismo como política e do Pablo Marçal como modelo ético. 

A cultura Hip-Hop que outrora serviu de escola para jovens negros aprenderem sobre a história do continente, sobre as figuras de luta e resistência em África, se converte na imagem proposta em “D.L.R.E.” na mais absoluta mistificação neoliberal. Por vezes, nos lembra aqueles que falam sobre as formas de escravidão em África, antes do colonialismo. E sobretudo, na fixidez das estruturas prontas, o pensamento de BK presente no filme, não viaja, ele está completamente “mumificado pelas substâncias mais banais e comuns”, bandanas lhe atam firmemente e aprisionam o seu pensamento poético, levando basicamente a se tornar um ventríloquo das ideologias hegemônicas do Ocidente.

BK

Ele vai para a Etiópia, mas não há sinais de pensamento político africano, ou mesmo etiope, zero combatividade, nenhuma resistência. Na terra dos reis Menelik II e do honorável Haile Selassie, se comporta como um garoto de recados do Capitalismo tardio, reproduzindo a ética daí derivada. Não apenas preservando as estruturas de opressão, como reforçando e buscando expandi-las em seus aspectos mais permissivos e porque não crueis. 

Sendo assim, o viés sereno e duro com que BK aparece diante da câmera nas cenas do filme, longe de se portar de forma crítica, ou mesmo como um mero observador do status quo – filmado e poetizado – se coloca como administrador e porque não ideólogo de toda a alienação, brutalidade e mistificação que o filme presentifica. Em momento algum, há uma critica à quaisquer dos pontos apresentados e abordados acima. As imagens de época do maratonista Abebe Bikila – única fonte histórica real presente no filme – que tenta ser apropriada como signo da luta por acompanhar o “Tempo”, identificado como monstro, soam pueris. 

O filme se converte dessa forma em manifesto que não está ancorado em nenhuma visão crítica da realidade, um mero panfleto digno do movimento dos Legendários. Uma dureza masculina e negra que não condiz com o atual nível de debate sobre estes temas, uma visão política completamente despolitizante, entendendo política aqui, como a busca do bem comum, aliás não há “comum” na visão do bando que BK cria. Se entendermos o comum como reconhecimento e partilha com o Outro, o que há é o entendimento das relações éticas provenientes meramente de um “utilitarismo hardcore”, o que não mais “serve” é descartado e vale ressaltar, qualquer um – pai, mãe, filho, amores, amigos…

Desta sorte, nos surpreende um pouco a recepção calorosa por parte da crítica e do público, sem nenhum traço de reflexão. No entanto, entendemos que neste filme, BK e sua produção avançaram a um ponto que até então não tínhamos chegado no rap feito no Brasil. As oposições infantis e irrefletidamente reproduzidas sobre vencedores e perdedores, agora possuem um código de conduta que serve de diretriz base para os MC’s/Empresas. 

Os 10 pilares do Abebe Bikila é a primeira sistematização racional – não dá pra chamar de poética ou artística – de todas as frases de auto ajuda e as rimas motivacionais como: “Você é o único representante do seu sonho na terra”, encontra aqui seu estágio final e mais bem elaborado. BK se encarrega de ser o próprio Moisés, porém do Neoliberalismo mais tosco e cruel. A Ego Trip com recurso poético se torna práxis, saindo do campo da fabulação literária para o campo do pressuposto das leis éticas para o estabelecimento da relação entre as pessoas. O fracasso é covardia, a doença é preguiça, e o BK no filme “D.R.L.E” estabelece a norma – das mais crueis –  para os operadores, os gerenciadores da máquina de moer gente, nesta metade de segunda década do Século XXI. 

-Os 10 Pilares de Abebe Bikila (BK) ou Pablo Marçal na Etiópia, arrivismo em “DRLE” 

Por Danilo Cruz 

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A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim” https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/a-revolucao-que-vem-de-rondoniao-mc-kami-lauan-e-o-ttrazedor-de-noticia-ruim/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/a-revolucao-que-vem-de-rondoniao-mc-kami-lauan-e-o-ttrazedor-de-noticia-ruim/#respond Fri, 15 Aug 2025 12:53:40 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38871 Com dois discos lançados em 2025, o rondoniense kami lauan chega com “tTrazedor de Notícia Ruim”, um disco fora da curva!
kami lauan
O MC e Beatmaker kami lauan

kami lauan e o seu disco “tTrazedor de Notícia Ruim” é um acontecimento para o rap nacional em 2025. Se você acompanha de fato o rap nacional, certamente você sabe que em termos estéticos, há uma pobreza gritante no que é produzido no mainstream do gênero em nosso país. É no underground que a invenção e a subversão característica do rap brasileiro tem se dado, e isso é um fato objetivo. 

E você, caro leitor, quer algo mais underground do que fazer rap em Rondônia? Mas ainda, fazer rap no interior deste estado? Pois bem, kami lauan é um MC e beatmaker da cidade de Rolim de Moura que produz música desde 2022, pelo menos oficialmente. Entre 2022-2023, ele produziu uma caralhada de discos e de mixtapes entre o eletrônico e o beats de rap, que indo escutar agora, nos parece um período de desenvolvimento de toda a estética que emerge agora em 2025 no seu trabalho. 

Pelo que pudemos apurar, somente em 2024 kami lauan começa a rimar e lançar publicamente, com a faixa “Hall&Nash” e logo depois com outro single “All Black” que prepararam sua primeira mixtape rimando 069 Mixtap. Com todos os beats produzidos por MAGNI e participações de Marreta, DJ VITTIN MG, 4ngelnumber e Fllw, o trampo já ali se diferenciava bastante do que é comumente produzido no trap nacional, por exemplo. 

Daí seguiu-se os discos SIDDARTTTHA, os EP’s …e as maquinas nao param e FLORES DE OUTONO (REMIX DE SIDDARTHA), e outro disco com BLOOD.MOON, tudo isso em 1 ano. Até chegarmos agora em 2025, onde nos parece kami lauan nos parece alcançou um pico de produção, com dois discos muito singulares no contexto, paralisia~do~sono e paralisia~do~sono: ACORDADO, a versão deluxe e o totalmente disruptivo “tTrazedor de Notícia Ruim” disco que nos foi apresentado pelo excelente trabalho do pesquisador GG Albuquerque. 

Entrevistamos o kami lauan para saber mais sobre a sua caminhada com a música e para entendermos mais sobre o seu trabalho e suas ideias. 

Oganpazan – Você me falou que somente esse ano, você passou a levar o seu trampo a sério, mesmo tendo discos muito bons lançados no ano passado, porque ?

kami lauan – Então cara, ao longo do tempo eu fui percebendo que só fazer por fazer não sustenta o poder que minhas ideias e meus projetos tem, por isso eu decidi mudar meu ponto de vista em relação a minha arte.

Oganpazan – Vamos voltar ao começo meu mano, qual o seu primeiro contato com a música e ou com a música rap?

kami lauan – eu cresci em um ambiente muito enraizado no sertanejo e nos rodeios, então no começo da minha vida eu nunca ouvi muita música fora disso, na minha adolescência, na internet, comecei a acompanhar a cena do eletrônico, no dubstep e no riddim e etc. Nesses gêneros tem vários rappers que fazem feat nas músicas dos DJs, foi meio que isso que me levou pro hip hop de uma forma indireta, depois eu comecei a ouvir mais rap de verdade, começando infelizmente pelo falecido Kanye West, e daí pra frente só fui expandindo meus horizontes.

Oganpazan – Quando você passou a fazer música e qual foi o impulso para isso? 

kami lauan – Minha memória é bem falha e eu não consigo lembrar disso com tanta certeza, mas eu lembro de ter visto um tutorial de FL studio lá por 2018-2019 e gostei muito do programa, depois disso fui entrando em várias comunidades de Discord e tal, aí depois disso bateu a pandemia e eu fiquei muito mais tempo online do que antes, aí já sabe né, junta um cara com um interesse muito específico e muito tempo livre vagabundeando, não tinha como ter outro resultado.

Oganpazan – Gostaria de entender o seu período criativo 22/23, onde você lançou muitos discos de instrumentais. Conta pra gente o que foi esses anos e como isso ajudou a te constituir artisticamente.

kami lauan – Esse período foi a época q eu tava aprendendo a produzir ainda, eu sempre gostei da ideia de álbuns e mixtapes e eu peguei isso pra aproveitar e fazer alguns projetos mais concretos, na época eu participava de algumas comunidades gringas e soltava tudo no soundcloud, isso influenciou bastante minhas influências desde aquela época.

Oganpazan – Como é fazer o tipo de música que você faz, vivendo em Rolim de Moura, no interior de Rondônia? E como é o cenário de rap do seu estado? 

kami lauan – É difícil mano, MUITO difícil, pra dar certo aqui só sendo herdeiro ou fazendo funk de tiktok sem falar onde mora, mas ainda assim eu prefiro fazer as coisas do meu jeito independente do que acontece. O rap por aqui é bem desanimado, aqui na Zona da Mata o que mais rola é batalha, alguns MCs rimam também mas é mais pro lado do boom bap ou do trap, alguns exemplos são o Magni, o Paniagua, o DRaiGO, o Dablonn, entre outros, são os que mais se destacam por aqui. 

Oganpazan – Quais as suas principais influências musicais e quais as principais extra-musicais (cinema, literatura, etc…)? 

kami lauan – Rapaz, é complicado, no início eu me inspirei bastante no Lil Ugly Mane liricamente e no JPEGMAFIA e no MF DOOM na sonoridade, hoje em dia eu só sigo o que passa pela minha cabeça, muita coisa eu tiro de ideias soltas ou de sonhos, esse dia mesmo eu sonhei que tinha feito um álbum de house e já dei início na produção, eu gosto muito disso. Leitura eu não consigo muito porque minha mente não deixa, mas eu gosto bastante de filmes de terror e alguns meio experimentais que usam equipamentos e artifícios diferenciados, tento pegar algumas influências assim pros meus audiovisuais também.

Oganpazan – Você tem muitos trampos com artistas de fora de Rondônia né? Como se deram esses contatos? 

kami lauan – O instagram é um negócio foda né, acho que 95% das conexões que eu fiz foram por lá, eu gosto de usar isso como uma forma de divulgação, eu gosto muito de trabalhar com outros artistas.

Oganpazan – O que você pretendia com o lançamento de “paralisia~do~sono, paralisia~do~sono: ACORDADO e com tTrazedor de Notícia Ruim”, que me parecem serem discos muito próximos em termos de invenção? 

kami lauan – Meu objetivo com paralisia do sono foi falar sobre sentimentos, por cima da minha sonoridade mas de um jeito mais melódico, usando isso pra terminar um projeto que eu tinha feito em 2023 mas nunca gostei do resultado, na época era chamado de ‘não verbal’. TdNR já é uma história mais doida, meu objetivo inicial era fazer um álbum meio jazz rap meio boom bap, mas aí eu fui misturando muita coisa e fui gostando dessa mistura gigantesca que eu fiz, quando o projeto foi evoluindo eu fui decidindo crescer essa ideia exponencialmente e virou o que virou.

Oganpazan – Sobre o “tTrazedor de Notícia Ruim”, quase todos os beats são produzidos por hype the kid, como se deu esse contato e como se deu a produção do disco, você encomendou os beats, deu sugestões ou pegou do catálogo dele?  

kami lauan – o hype é um cara MUITO foda, um brasileiro que mora na inglaterra, conheci ele por páginas de lofi no instagram, cheguei na DM dele lá em 2024 e pedi uns beats, ele foi mandando uns 2 ou 3 por dia e eu fui salvando tudo, um dia eu decidi juntar tudo num álbum. A maioria dos beats são dele, mas a minha vontade de mudar tudo do nada e assustar quem tá ouvindo falou mais alto, foi assim que eu fiz mais alguns beats pro projeto, chamei também o NCCO e o gallego pra fazer um bagulho mais industrial e encaixou perfeitamente.

Oganpazan – kami, como você constroi a sua lírica? Porque, é algo bastante diferente de tudo o que já ouvi, você possui alguma referência nessa área? 

kami lauan – te falar que não muito, eu geralmente só escrevo e deixo as ideias no papel, uns 5 dias ou uma semana depois eu volto e leio, se tiver bom eu continuo, se tiver ruim eu queimo e jogo no cinzeiro.

Oganpazan – Você trampa durante o dia né? Em qual momento da semana você cria suas músicas, escreve, produz?

kami lauan – Minha rotina fora do trabalho se resume em: Escrever em rascunho no trabalho, gravar na hora do almoço e mixar de noite, quase nunca fujo disso, fim de semana o cara descansa pq ninguém é de ferro né.

kami lauan Oganpazan – Você está atualmente produzindo um novo disco né? Você pode falar um pouco sobre esse projeto? 

kami lauan – Cara eu tô trabalhando num projeto mais pé no chão dessa vez, mais focado em animar do que chocar sabe, o nome do projeto é ‘Make Rondônia Great Again’ e conta com pouquíssimos feats mas com alguns beats de um pessoal muito foda do BR, escolhi todas as samples desse projeto a dedo, a maioria dos beats é meu mas chamei alguns amigos pra me ajudar na bateria, tá recheado até o topo de samples brasileiras e tem uma mensagem escondida muito dahora, TDnR também tem, e o próximo disco expande um pouco a ideia.

Oganpazan – Na música brasileira atualmente, o que você tem ouvido, tem algo que te inspira no cenário atual?    

kami lauan – Até um tempo atrás a maioria das minhas influências era gringa, não me interesso muito pelo mainstream do Brasil e não tenho muito tempo pra garimpar o underground, ultimamente tô viciadissímo no disco 333 do Matuê e no SEMRÉH: Final Sprint do Ryu The Runner, pra mim foram os discos mais artísticos do trap mainstream do Brasil (entre os que eu ouvi).

-A revolução que vem de Rondônia,o MC kami lauan é o “tTrazedor de Notícia Ruim”

Por Danilo Cruz 

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Alra Alves e a laje da “Ruera”, “Nosso Lugar” como território de uma festa do real Hip-Hop! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/12/alra-alves-e-a-laje-da-ruera-nosso-lugar-como-territorio-de-uma-festa-do-real-hip-hop/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/12/alra-alves-e-a-laje-da-ruera-nosso-lugar-como-territorio-de-uma-festa-do-real-hip-hop/#respond Tue, 12 Aug 2025 13:40:16 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38862 Alra Alves é uma das grandes no Rap feito no Vale do Paraíba, aliando produção ao fomento da cultura Hip-Hop!
Alra Alves
Os dois discos da Alra Alves

Alra Alves proporcionou no último domingo, no dia 10 de agosto ocorreu a comemoração de um ano do Estúdio Ruera, e através das dezenas de vídeos nos stories dos participantes da festa em sua 3º edição, a sensação era de que a Cindy Campbell reencarnou em São José dos Campos, no Vale do Paraíba. Porém, não se trata de imitação e sim da continuidade da cultura Hip-Hop em suas bases mais essenciais. A festa contou com a discotecagem do Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops, do DJ Loucas e do DJ Diniz, e a participação dos e das MC’s Mattenie, Killabi, Janvi e Meire D’origem. 

Em uma época onde muitos curtem mega festivais, festas em clubes luxuosos, a Laje da Ruera carrega o DNA de uma festa onde a comunhão é visível, mesmo a pouco mais de 2.000 km de distância. E isso não é por acaso, mas é o fruto de uma caminhada que começou em 2016 e que tornou o sonho e as dificuldades em combustível de luta para que em 2024 a MC e produtora cultural conseguisse construir o primeiro estúdio de uma mulher no Vale do Paraíba. 

Em uma conversa por telefone, alguns meses atrás, Alra Alves nos contou que começou a rimar em 2016 em rodas de freestyle na porta do Sesc de sua cidade. Já em 2017 ela participa da Cypher Mente Milionária junto às MC’s Preta Ary, Thamara e Eliza Branca. No ano seguinte, foi a vez de participar do último episódio do projeto de Cyphers do beatmaker Símio, “Bruxaria”, dessa vez ao lado de Wicca, Ninah, Laís, Gabi Killabi e da Meire D’origem. E como é bom ver registro mais antigos e sobretudo do início de carreira de artistas. Ali, já é fácil perceber a destreza de Alra tanto junto à MC’s contemporâneas suas, como diante de suas influências.  

Ainda em 2018, Alra Alves deu o start no seu primeiro projeto solo com o clipe single da faixa Ruera, onde conseguiu em um videoclipe com direção do Silvio Cesar, plasmar uma espécie de carta de intenções. Abordando suas origens no pixo e a “facilidade” em escolher e ser escolhida pelo underground, como local de criação e estética.  

Infelizmente, nesta altura não a conhecíamos, e nem sempre o que entra no nosso radar se transforma em texto, porém em 2019 ouvimos muito o disco de estreia da Alra Alves: “Ruera”, que se transformou em 2025 em uma marca. Com beats do Noise System, Tio Galera, Raul Rondé, Símio, Veiga e Murilo Beats, Alra Alves impressionava com um disco de boombap under na melhor tradição do Vale. 

Dona de um flow e de uma voz capaz de cantar as partes melódicas com excelência, as 8 faixas que compõem esse disco de estreia apresentam a afirmação de um feminino combativo, denunciando diversas opressões. Em “Ruera”, Alra Alves trouxe a essência do rap de rua e suas vivências, sem apelo pop, mas também abordando questões que lhe atravessam, como as questões referentes a violência contra mulheres, a violência policial, questões de opressão de classe e de saúde mental. 

Influenciada por nomes como Meire D’origem e Preta Ary MC’s próximas, Alra Alves esperou e sobretudo trabalhou por 5 anos desde o lançamento de “Ruera” para construir o seu Estúdio. E nesse processo encetar e oportunizar alguns projetos que são os mais importantes para a nossa cultura, pois formam uma base sólida de produção de arte e de público. Muitos não percebem, mas existem os produtores e mantenedores da cultura e ao mesmo tempo, artistas mais sólidos, onde suas linhas são bio-grafias (linhas escritas de vida) contra culturais, e existem as vedetes do mainstream. 

Alra Alves Essa distinção é de fundamental importância, para compreendermos a cultura Hip-Hop hoje, em um momento de investida da indústria cultural que visa sobretudo diluir até o nível de água de salsicha, uma arte que surge da combatividade. E neste sentido, não há apenas um privilégio masculino, isso também vem ocorrendo – como não poderia ser diferente – com o rap feito por mulheres. Outra é a vertente de uma MC como Alra Alves, que sem milhões na conta, construiu para a cultura o que nenhuma das MC’s que estão no Hype construiu. 

Sem se curvar para falar a língua da cultura dominante e os seus tiques nervosos, onde muitas outras, se comprazem em falar das “vadias invejosas”, Alra Alves oportuniza e visibiliza outras MC’s. Produtora e também beatmaker, Alra Alves criou o Projeto Guia que tem apresentado jovens nomes como Azurah, Baloo, Jéssica Sales e a Nwazz. Porque é como disse o Don L: “se você não traz ninguém, não fala que você é Hip-Hop”.

Superando a falta de grana e acesso, Alra Alves tem feito micro revoluções, e o seu disco lançado este ano: “Nosso Lugar” é mais do que um mero objeto estético, mas condensa a essência de sua trajetória de valorização do seu lugar no mundo e na cultura Hip-Hop. Mas ao mesmo tempo, a construção de uma perspectiva de horizonte aberto, que lhe dê e que ela possa partilhar com os seus e as suas noções de progresso coletivo. 

Neste novo EP, composto por 5 faixas produzidas por DJ Kaizen, Marci VSR, Kadow, Jazzkey, GAD e Blaze Boy e traz feats com a MC Janvi e o trompetista Rafael Jarcem. Como já deveria ser de conhecimento público, a Alra Alves alia a militância coletiva no Hip-Hop à excelência como MC e atualmente beatmaker e produtora cultural. Neste novo EP ela se apresenta em outra faceta diferente do trabalho anterior, aqui a MC do Vale se mostra menos agressiva mais ainda assim com uma contundência proveniente da força dos seus versos. 

Progresso coletivo e paz, lutas diárias pela sobrevivência sempre em vistas de criar condições de dignidade, amor e diversão, a manutenção de sua criança interior como impulso brincante e lúdico para seguir criando. “Calma e Elegante” rimando e cantando, seja na parceria com a Janvi, ou no duelo de flows com o trompetista Rafael Jarcem na faixa que encerra o EP, “Zona Sul”, Alra Alves entrega excelência em seu trabalho. Esta última faixa ganhou um videoclipe do grande Jean Furquim nomes por nós já conhecido há alguns anos. 

O audiovisual é um excelente resumo semiótico de tudo dito até aqui, com cenas de dentro do estúdio Ruera onde a MC é captada escrevendo e rimando, mas sobretudo pelas ruas de sua quebrada. Cenas de feira livre, de apresentação da MC na rua, churrasco rolando, da turma no campinho do bairro. A rua é a mãe do Hip-Hop, e ainda no clipe, uma imagem icônica coloca a Alra Alves em uma bifurcação de ruas, dois caminhos, com ela de um lado e o trompetista Rafael Jarcem do outro. A representação imagética que nós entendemos como a cultura Hip-Hop de um lado e a música rap do Outro. Sem possibilidade de escolha, Alra faz o rap do lado da cultura Hip-Hop… 

-Alra Alves e a laje da “Ruera”, “Nosso Lugar” como território de uma festa do real Hip-Hop!

Por Danilo Cruz 

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“Ágil”, Áurea Semiseria segue altiva ao longo de uma trajetória de 10 anos no rap! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/11/agil-aurea-semiseria-segue-altiva-ao-longo-de-uma-trajetoria-de-10-anos-no-rap/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/11/agil-aurea-semiseria-segue-altiva-ao-longo-de-uma-trajetoria-de-10-anos-no-rap/#respond Mon, 11 Aug 2025 21:57:27 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38851 Em um belo audiovisual, Áurea Semiseria apresenta uma reflexão sobre o seu corre nesses últimos 10 anos no rap e na cultura Hip-Hop.

Áurea Semiseria

Eu nunca vou esquecer do vozeirão que me arrepiou no Pelourinho cantando Zé do Caroço da mestra Leci Brandão, então chamada Áurea Maria. Era 2016 e de lá pra cá, pude acompanhar o desenvolvimento muitas vezes atomizado, dela que se tornou Áurea Semiseria. Muitas participações, cypher’s, e o primeiro EP Roxo GG (2017) – minha camisa segue aqui. Ser uma MC preta, gorda, LGBTQIA+ e nordestina não a impediu de chegar na Letônia, com escala na Inglaterra. 

Porém, é uma luta que muitas vezes parece ser inglória, sobretudo por conta de uma indústria que visa apagar produções como as de Áurea Semiseria, em uma cidade como Salvador que está mais para túmulo da música. Mas também, porque a maioria das pessoas tendem a esquecer o “corpus” de um trabalho construído ao longo de uma década, sem investidores e sem hype algum. 

Nestes últimos dez anos, tendo acompanhando de perto os movimentos do Rap baiano, não é exagero algum dizer que Áurea Semiseria é um dos nomes que foram responsáveis pela qualidade e diversidades de produções. Não é preciso lembrar que durante à última década surgiram e sumiram diversos artistas, talentosos também, mas que não seguraram o rojão da invisibilidade e não foram se ligaram para a necessidade de ser “Ágil”, neste jogo. 

Com uma rápida passagem pela Balostrada Rec., onde gravou e lançou duas track: Onze (prod. Owé) e o clássico contemporâneo TUDUDUDU (prod. 2Kike), Áurea veio se movimentando, buscando saídas para não estagnar e murchar. No ano passado lançou o seu primeiro álbum “Semiseria” com beats do El Lif Beatz, ÉoCROSSS e do Mu540. O disco trouxe feats da Iza Sabino, da Una e do Big Bllakk e apresentou uma concepção estética sólida e a sua versatilidade como MC capaz de rimar em qualquer tipo de beat. 

-Leia a resenha da nossa colunista Mara Mukami sobre o último disco da Áurea Semiseria!

Versatilidade que levou a artista baiana ao Brasil Grime Show, que esse ano a colocou no single “Isqueiro” junto a lenda Deize Tigrona. É essa a definição sobre ser “Ágil” e é de certa forma o tema do bonito audiovisual recém lançado por Áurea Semiseria e gravado no ancestral parque São Bartolomeu tendo a Pedra de Xangô como “cenário”. Com direção de Paulo Jordan e produção musical da dupla Saboya & OG Bahia, o single nos relembra que a MC de Cajazeiras pulou de revelação à veterana sem escalas, mas com muita luta.

O videoclipe publicado no canal da produtora Complexo Nine, é simples e certeiro, com uma produção muito bem feita. A música é uma reflexão destes últimos 10 anos no cenário do rap baiano e brasileiro, sobre as oportunidades e as concessões negadas pela artista. Ao mesmo tempo, afirma-se na luta apesar da vontade de desistir – algo que tenta a muitos artistas independentes – e a dificuldade de se manter no jogo.  

O beat swingado chegado pro boombap, linha na qual Áurea Semiseria começou, dialoga musicalmente com o jogo de cintura necessário para se manter na ativa, para enfrentar as dificuldades. E o que podemos concluir disso tudo é que a MC já está há muito tempo escolada, e seguirá dando aulas.  

-“Ágil”, Áurea Semiseria segue altiva ao longo de uma trajetória de 10 anos no rap!

Por Danilo Cruz 

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Uma epopeia do trabalhador brasileiro é a “Práxis” por Mascote & Digmanybeats https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/08/uma-epopeia-do-trabalhador-brasileiro-e-a-praxis-por-mascote-digmanybeats/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/08/uma-epopeia-do-trabalhador-brasileiro-e-a-praxis-por-mascote-digmanybeats/#respond Fri, 08 Aug 2025 14:40:46 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38833 Ao longo de 10 músicas, Mascote rima com feats do Mattenie e do PaZSado, com produção do Digmanybeats, sobre o dia comum do trabalhador!
Mascote
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A volta (?) à ativa de um MC do quilate do Mascote é/deveria ser algo muito comemorado, desde de 2023, o artista lançou alguns excelentes trabalhos, como o disco “Ligue os Pontos (prod. Digmanybeats)” em parceria com Dej@ Vu e o DJ Will Cutz, em 2024 o disco em parceria com PaZSado: “Flores em Vida (prod. Digmanybeats)”. No ano passado, o disco quase perdido “Jornada Dupla” com Dr. Drumah e esse ano, outro disco gravado há vários anos e também quase perdido, “Meus Amigos Vol.2”.

O Mascote fez história com o clássico grupo “ContraFluxo” e o pouco conhecido “Primeira Audição”, um dos poucos grupos a produzir um rap jazz brasileiro com imensa qualidade em nossa história. Nesse processo de volta à ativa, nos lançamentos, Mascote tem contado sempre com as produções do Digmanybeats e com ele que ele compôs o seu último disco “Práxis”. Apesar de curtinho, os seus 19 min e 43s condensa uma epopeia que é a de milhões e milhões de brasileiros. 

Não é um disco para se ouvir buscando diversão, muito menos motivação – Raps Motivacionais deveriam ser proibidos – muito pelo contrário. O retrato em ritmo de curta metragem, um imenso storytelling de 18 horas de um trabalhador brasileiro, no caso o próprio Mascote. Que ao traçar os passos de um dia comum em sua vida, termina por uma questão de classe, falando de todos nós que trabalhamos no dia a dia, de sol a sol, que pegamos o busão ou o metrô lotado. 

Recentemente li em uma rede social que o artista só é profissional se ele é remunerado pelo seu trabalho, caso contrário é um amador. Sob certo ponto de vista – capitalista – isso é até verdade. Porém, nos indica o quanto a subjetividade de muitos está completamente submetida aos modos de produção capitalista. Perceber a arte e o artista sob esse viés – que é o da imensa maioria das pessoas em nosso país – é extremamente redutor, empobrecedor mesmo. Sobretudo, se tivermos um olhar crítico tanto para a história, quanto para o que hoje habita o mainstream da música brasileira. 

Com certeza, e não quero aqui fazer nenhum tipo de elogio da precariedade, artistas do mainstream não são capazes de produzir um disco de rap inteiro narrando a vida do trabalhador comum. Muito pelo contrário, o mainstream hoje é uma eterna cantilena em loop sobre ser vencedor. Fornecedores de esperanças vãs, que termina por reificar o sistema capitalista da forma mais vil. São em quase sua totalidade MCoachs! 

Outra é a proposta do Mascote que recorta um cotidiano comum de nós trabalhadores que somos capazes de olhar para a realidade de forma crítica. O disco começa com o Mascote acordando e cuidando da sua cria “5h45(intro)”, colocando na escola e seguindo pro trampo. Já em “Práxis” a narrativa começa a rasgar o tom de normalidade cotidiana e ou mesmo nos apresenta as suas “práticas comuns”. que é também além da de milhões de trabalhadores, a de milhares de artistas amadores. Ouvir algo para alimentar o espírito criativo (beats), se informar em trânsito (ouvindo clássicos e podcasts).

A rotina estressante dos trabalhadores em meio ao capitalismo tardio em um sistema neoliberal meramente administrado, já é mencionado “de passagem” sobre o burnout sofrido por uma colega de trabalho. Mascote aborda também, cansaço provocado no trabalhador pelo péssimo sistema de transporte nas nossas capitais, que é algo sofrido pela esmagadora maioria da população que paga caro por um sistema completamente sucateado. 

Mascote Os “Desalinhos” entre trabalhadores e patrões são traçados nos mostrando, levantando o véu das atuais práticas do sistema que prevê a uberização cada vez maior da classe trabalhadora, assim como a já longeva jornada 6×1, um dos temas da participação do PaZSado na faixa. A ausência de perspectivas e o auto engano de que as coisas vão melhorar são ideias demolidas pelo Mascote em “Murmúrios”, ao mesmo tempo que reflete sobre a possibilidade de entrar para vida do crime. Uma reflexão muito pertinente sobre como permanecemos acuados entre a exploração e a certeza de prisão ou morte. 

Após o intervalo “12h30(intervalo)”, é a vez de uma análise mais pormenorizada sobre o Capital e o seu funcionamento, “Mão Invisível” traz o Mattenie no feat, que segue a mesma toada, mas acrescenta algo presente em uma das 11 Teses sobre Feuerbach, a saber: 

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”

A volta pra casa, “18h30(interlúdio)”, enfim “Lar Doce Lar (partes I&II)” porém outro momento de tortura para trabalhadores que se amontoam em transportes. Única faixa presente no disco que possui batidas, mas que logo volta ao drumless, nos mostra a coesão estética da sonoridade construída por todo o trabalho fruto do Digmanybeats. Enfim, o “Sono dos Justos”, entre observações em forma de crônica, Mascote narra essa volta pra casa como de fato ela é para muitos: a certeza de uma batalha inglória, porém vencida. 

A alegria do filho recebendo o pai, uma imagem que só ressalta toda a melancolia que o cotidiano poetizado nos apresenta. A sensação de alívio e segurança de estar em casa, ainda encontrar tempo para brincar com a sua criança, lhe colocar na cama. Deitar para dormir mas a mente a milhão, pensar nas contradições da vida, se programar para o final de semana etc… 

MascoteO produtor Digmanybeats cria uma atmosfera sonora praticamente toda ancorada no drumless, mas longe de um trabalho genérico, o artista proporciona as tonalidades para cada momento do dia. Criando assim, o complemento musical que tensiona o ouvinte a prestar atenção no trabalho poético do Mascote, mas os loops nos injetam sub-repticiamente as sensações adequadas ao tema. 

O disco se fecha às “23h45(outro)”, em um áudio onde o Digmanybeats convida o Mascote para um novo disco. E tudo recomeçará de novo no dia seguinte, o Mascote voltará ao trabalho, o Digmanybeats vai lhe mandar beats e outro disco vai sair. Essa é a rotina dos trabalhadores em geral e dos artistas/trabalhadores em particular. 

Como disse acima, a audição de “Práxis” não diverte e obviamente não se pretende a isso. Ao poetizar a vida do trabalhador brasileiro que é a sua também, mas do que trabalhar com palavras de ordem “revolucionárias”, Mascote nos induz a pensar no absurdo em que vivemos, na exploração brutal que sofremos, no tratamento escroto que sofremos dos poderes. Esteticamente é um trabalho muito bem acabado pois nos carrega em sua duração dentro de uma perspectiva musical monótona, tensa, dura, algo que é conseguido pelo flow empregado pelo Mascote e pelos feats, assim como reiteramos, pela produção musical.   

Escute:

-Uma epopeia do trabalhador brasileiro é a “Práxis” por Mascote & Digmanybeats

Por Danilo Cruz 

 

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Dário Inerente em swingue crítico, “Bloco na Rua” é uma afirmação da força do Rap Baiano! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/06/dario-inerente-em-swingue-critico-bloco-na-rua-e-uma-afirmacao-da-forca-do-rap-baiano/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/06/dario-inerente-em-swingue-critico-bloco-na-rua-e-uma-afirmacao-da-forca-do-rap-baiano/#respond Wed, 06 Aug 2025 14:37:10 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38823 Diretamente do sul da Bahia, Dário Inerente lançou seu primeiro álbum, “Bloco na Rua”, em conexão com grandes nomes do Rap no Brasil!
Dário Inerente
Foto por Augusto Santos aka @method_av

Por mais que não se perceba, todo artista se insere em uma tradição e quando no ano passado ouvi as guias de “Bloco na Rua”, duas percepções distintas me assaltaram. A primeira delas é a óbvia associação com Sérgio Sampaio e o clássico de 1973, “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”. A segunda dizia respeito à diferença do Dário que conheci em 2020, por ocasião do lançamento de sua mixtape “Eterna Odisseia para a Luz”. 

No primeiro caso, Dário Inerente se insere em duas tradições, na rica história do boombap feito na Bahia e consequentemente no Brasil, e na relação virtual que o título do seu disco pode suscitar. Porém, ao ouvir “Bloco na Rua” e mesmo já no título, há uma diferença patente e de saída, algo que de certo modo atravessa todo o trabalho e que diz respeito a uma afirmação por parte do MC de Itabuna. Ninguém poderá dizer que ele dormiu de touca, que ele perdeu a boca, que ele fugiu da briga, que ele caiu do galho e não viu saída, ou que ele tenha morrido de medo quando o pau quebrou. 

A uma afirmação e não um desejo em “Bloco na Rua”, ele não quer colocar ele botou – lá ele – o seu bloco na rua, brincando, botando pra gemer, e sobretudo gingando. As 13 faixas que compõe o disco, das quais duas assinadas pelo Jedi, Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops, uma do Gxtv, uma do pedrvso e uma do Neto (Síntese) transpiram uma afirmação alegre, swingada e séria. 

O Dário Inerente de 5 anos atrás com 18 anos se transformou muito em termos estéticos e pessoais, perdeu o pai nesse ínterim, mas se conservou inteiro e se expandiu, encontrando conexões fora de sua cidade, Itabuna. Com seu primeiro álbum, o MC grapiúna nos mostra não somente a sua, como a riqueza e as possibilidades, muitas vezes não percebidas nem por quem está ao lado, do rap feito no sul da Bahia. 

Há uma tônica: “Boas ideias, diversão levada a sério”, que está presente neste “Bloco na Rua” enquanto uma busca de si mesmo em relação com o mundo. Algo que contagia o ouvinte atento, porque as boas ideias aqui estão a serviço de uma diversão que não seja uma alegria no vácuo, pelo contrário o bloco apresentado é um concentrado de poesia e rima, com swingue, com perspectivas de luta e sobretudo ancoradas no coletivo: “Hip-Hop com a mesma essência, mesma classe, uma nova roupagem”. 

-Leia a matéria que fizemos sobre a primeira Mixtape de Dário Inerente

Tem quem separe alegria de reflexão, corpo e espírito, estudo de diversão, dicotomias que ocidente implantou nos corpos colonizados. E obviamente, a indústria cultural faz uma festa, diante da fragilidade de concepção de que a arte pode e deve ser sempre alegria e reflexão, porque não existe arte que entristece, porque mesmo que ela cause incômodo, ela potencializa o nosso viver se estivermos abertos a pensar o que foi recebido.    

Com a potência do coletivo, perceba como Dário Inerente rima a morte do pai com o pandeiro e o passo bêbado de tristeza do equilibrista, e seguiu, “sem pedir, sem me humilhar, sem atrasar o lado dos outros”. Se isso não é uma bela afirmação de vida, eu não sei mais o que é. Esse é o seu “Abre Alas” onde o MC reza e assopra vida no loop do Barba Negra. E o bloco segue desfilando dessa vez em um beat elegantérrimo do Gvtx, um groove jazzy em “Saber Chegar”, onde o ethos da prudência diante da “Vida Puta” é a malandragem que faculdade não ensinam, mas que é extraída das ruas e sobretudo de uma relação diante da alteridade. 

Dário Inerente
Foto por Augusto Santos aka @method_av

A costura do caos, ao “Estilo do Bairro” produção do Neto (Síntese), traz um beat mais cadenciado, onde o Dário Inerente mostra que também compõe bons refrãos: 

A verdade na pupila, identidade não tá no RG, a minha ira, não paga pra ver, o hype vai o real fica, o instinto e a malícia, pra esquivar da maldade, muita ginga

Em seus versos, Dário Inerente consegue – sem didatismos – entregar pensamentos profundos com uma leveza poucas vezes vista, e que não são frases soltas: “ele tem tudo orquestrado, o fundamento, um pensamento blindado”. Aqui em “Estilo do Bairro”, a estrutura dos versos, vai entregando ao ouvinte a formação e as intenções do MC em um pêndulo que trabalha em um zigue-zague temporal, enquanto o beat marca não somente o tempo, mas também o espaço. Note como ele começa com tudo pronto, mas volta pra infância adolescência (meu jeito estranho, me fez muito mais ágil) e segue nessa toada. 

Apesar de contar com o reforço de grandes produtores, Dário Inerente também produz e o beat de “A Todo Vapor” é dele. Essa é mais uma faixa presente no disco que o amarra tematicamente, hoje é comum ver e até mesmo, se tornou uma distinção simbólica anunciar álbuns conceituais. Muito crítico, bunda mole, e uma parte incauta do público ao ouvir conceitual se mija de emoção. Mas muitas vezes são incapazes de julgar a adequação entre o proposto e o executado, por outro lado essa mesma classe não consegue apreender as soluções de continuidades bem construídas, quando não se fala conceitual.

Neste disco, o conceito – apesar de não ter sido anunciado – avança não apenas com jargões mas através da construção poética e rítmica, como um glorioso desfile da cultura Hip-Hop. A rigor, não existe disco conceitual, pelo menos não na música pop, o conceitual foi utilizado para dar conta de disco que possuíam uma unidade estética e narrativa, que se distinguia dos discos como mero agrupamento de singles. Dário Inerente, com o seu “Bloco na Rua” transforma a poesia das ruas em cordão que unifica o seu/nosso movimento de escuta. 

-Leia no site a matéria que fizemos sobre os singles audiovisuais lançados pelo Dário Inerente 

Os riscos do DJ Noé, a cadência contagiante do beat, mas sobretudo a poética do Dário nos carrega por entre sua vida e sua arte, nos colocando na posição de foliões deste Bloco. Note-se novamente e perceba-se como o movimento é algo sempre constante, quando novamente Dário cita a morte do pai não em termos de fim, mas de partida – para o mistério e o desconhecido – que lhe alimentou a ser esse que por onde passa, bagunça, e que faz da vida esse caminho de quedas e vôos, de coletas e entregas, porém “A Todo Vapor”, independente das velocidades ou lentidões.

Dário Inerente
Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops aka MC Ralph

Prova disto é a faixa seguinte “Nas Esquinas”, mais uma cortesia do Barba Negra, onde Dário Inerente prossegue blindado em suas palavras por um universo de referência que vai do escancarado Chico Science – já na intro –  a reelaborações poéticas: “a minha fé que eu amolei tal qual a faca mais fina” – “Fé Cega, Faca Amolada”. Diretamente do underground do underground, ou seja, do interior de um estado nordestino, o movimento prossegue e a substância é o carnaval, a força festiva supramencionada, que Dário Inerente toma de empréstimo, para o seu “Bloco na Rua” de afectos e perceptos. De ideias críticas e de construção poética que não almeja o hype, mas a verdade. 

Uma boombpera nojenta, com acentos jazzy, cortesia do monstrinho pedrvso que sobe novamente os bpm’s, é a avenida em “Camisa 10”. Longe de atualizar inimigos imaginários, como muitos rappers fazem hoje, nesta faixa Dário Inerente aponta sua caneta como vendeta, contra uma pá de otário plastificado, e a polícia genocida. Mas, perceba que é o movimento que conduz a crítica, com os riscos do DJ Noé que presentifica nomes como Marcelo D2, Parteum, OQuadro e GOG. 

Único feat do disco com um MC, Dário Inerente convida Davzera, em um diálogo entre Itabuna e a capital, banhado de “Dendê”. Em mais um beat de sua própria autoria, o grapiúna tempera suas rimas com bastante apuro e a força dos orixás. O já conhecido e aclamado no underground brasileiro flow e construção do Davzera se faz presente. No skit que se segue, tem uma reprodução de uma fala de Elis que é famosa: “Eu dou o tiro, quem mata é deus”. 

Dário Inerente
Foto por Augusto Santos aka @method_av

O Skit em questão chama-se “Coisa de Espírito”, e pescando essa frase de Elis, mais do que concordar com a relação possível de causa e efeito, entre o tiro e a vontade de deus, me parece que é a intenção do Dário Inerente que conta aqui. Anos luz de distância de dizer que vai vencer e pipipopopo, ao longo do disco o artista deixa claro que sua intenção é viver com dignidade da sua arte, mas que entende como funciona a indústria e lança sua flecha para o universo, quem tiver condições que a aceite. 

Seguindo “Atento e Forte”, em mais um beat próprio e um dos que achamos mais foda no disco, o MC novamente não se contrapõe, convoca: “quero ver você” e enumera seus obstáculos e hábitos. “Eu já ganhei desde o começo ao entender que isso não é um jogo” canta Dário Inerente no loop de sua autoria e que fecha o disco: “Minha Arma (Outro)”.  “Enquanto eu passo é meu bloco” ele rima em outro momento numa faixa anterior. 

O fim do desfile não é a morte do movimento que percorre todo o excelente trabalho entregue pelo Dário Inerente em “Bloco na Rua”. Estamos de fato, diante de um disco de estreia que como dissemos no começo, se insere em uma tradição e nesse processo este disco é já um dos motores da cultura Hip-Hop no Brasil e em Itabuna. A riqueza que ele traz é também fruto do cenário em que se desenvolveu, e em um processo dialético e de formação, Dário coloca Itabuna no mapa do Rap no país. 

Como sabemos que há muitas vezes por má vontade, problemas de interpretação, vou reformular. Dário Inerente carrega em seu trabalho Itabuna, pois foi lá que ele se formou, junto a outros MC’s e como continuidade de uma tradição que lhe é anterior. “Bloco na Rua” é um disco que traz no nome esse movimento, o bloco posto – Tradição – foi colocado mais uma vez em movimento, e nos parece que o grande mérito desse desfile, além da grande qualidade individual e do esforço coletivo, foi trazer todos os seus e a sua cidade junto.    

-Dário Inerente em swingue crítico, “Bloco na Rua” é uma afirmação da força do Rap Baiano!

Por Danilo Cruz 

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Santa Cena, a importância da força coletiva negra e periférica no cenário do rap sergipano! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/04/santa-cena-a-importancia-da-forca-coletiva-negra-e-periferica-no-cenario-do-rap-sergipano/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/04/santa-cena-a-importancia-da-forca-coletiva-negra-e-periferica-no-cenario-do-rap-sergipano/#respond Mon, 04 Aug 2025 16:38:56 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38811 O coletivo Santa Cena no cenário do rap sergipano, nos convida a pensar sobre a importância da perspectiva coletiva no Hip-Hop!

Santa Cena

 

As últimas movimentações do Santa Cena, coletivo de Sergipe, deixam claro que o grupo segue firme na sua proposta de valorização da juventude preta periférica. Os laços que fizeram com coletivos de fora da capital são a prova cabal disso, Primeiro, com a Exorbitmob, mob de Itaporanga d’Ajuda, foi lançado o clipe de ‘Urubus’. Depois, com a Street79, da Barra dos Coqueiros, lançaram a cypher Tétano Clã. Em ambos os casos, o que o Santa Cena faz é juntar forças e recursos com verdadeiras potências do rap sergipano. Apesar disso, para entendermos melhor o que é o Santa Cena e a virada de chave que representa, analisaremos o primeiro álbum da mob.

Há pouco mais de um ano, no dia 13 de abril de 2024, foi lançado o álbum ‘Santa Cena é o trem’. O projeto contou com 10 faixas, além de uma introdução não musical e reuniu 19 artistas, de dentro e fora do Santa Cena. Só de mc’s, foram 10, DLOK, NDS Hiata, Black Ice, Manu Caiane, Dani DK, Mali, BW, Weiny, Lubrisa e NG Lampião da Rima (também responsável pela articulação).

O time ainda contou com a presença de Eufórico, Duck e Oldproduções na produção fonográfica, mix, master e captação de vozes; Camila Geovana e Precioza na produção geral; Felipe de Jesus na fotografia; Somb e Dalvam Dexter na capa; e, por fim, Luan Allen, responsável pelos setores de identidade visual, articulação e capa. Um projeto grandioso e que, apesar de jovem, tem entalhado no corpo as marcas de um passado mais longínquo.

Junto a faixas inéditas, o projeto reúne os sucessos já conhecidos. Por isso, a história do álbum é indissociável da história do próprio coletivo. E de fato, a ideia do álbum surge com o nascimento do próprio Santa Cena. É isso que nos diz Luan Allen: 

Santa Cena
NG Lampião da Rima durante gravações

“A ideia de criar o álbum surgiu logo nas primeiras reuniões entre eu e Lampião da Rima, ainda no início do Santa Cena. Esse conceito inicial foi tomando novas formas e possibilidades quando começamos a dialogar com outros agentes. Mas foi no terceiro momento, com a chegada da produção musical de Eufórico e Duck, que o projeto realmente alcançou sua forma definitiva.”. 

Assim, para entendermos o que o projeto representa, precisamos, antes, entender o que o Santa Cena representa. E para isso, as palavras de NG Lampião da Rima nos fornecem uma luz: 

“O Santa Cena representa a pura verdade, a pura garra, correria, vontade de viver de um sonho, um futuro novo, um novo amanhã. Santa Cena representa quem é descredibilizado pelos seus sonhos, pelo seu corre.”

E por isso, ainda nas palavras de Lampião, em entrevista para o podcast Desdobro: “Principalmente qualquer lugar do estado, qualquer lugar do nordeste, aonde tiver uma favela, aonde tiver uma quebrada, um sonho, ali vai ter um Santa Cena”.

Sediado no Santa Maria, o bairro que dá nome ao Santa Cena, alguns anos atrás sequer poderia ser chamado de bairro. Antigamente conhecida como Terra Dura, a localidade na qual se situa o bairro sempre foi alvo do descaso governamental e por isso sempre foi vista de forma estigmatizada por grande parcela da população aracajuana. O atual nome do bairro foi tirado do canal Santa Maria, que serviria de ligação entre os rios Poxim e Vaza barris, mas sua construção foi abandonada em 1902. Além disso, em 1988 o local passou a servir de aterro sanitário, suprindo a necessidade do município após a desativação da lixeira do bairro Soledade.

Em resposta ao estigma generalizado acerca da Terra Dura, o Santa Cena nasce como uma ferramenta de perspectiva. Não é proposta do coletivo mascarar a realidade do Santa Maria ou de qualquer outra quebrada dos seus integrantes, mas vê-las de um ângulo pessoal, que revela a beleza e potência desses lugares. A depender de com quem se converse, o Santa Maria sempre será lembrado como um aterro sanitário, mas se mudarmos nosso interlocutor, saberemos que a Terra Dura é terreno fértil e como disse o Racionais Mc’s: “Até no lixão nasce flor”. 

Santa Cena
Luan Allen

É daí que surgem Luan Allen e NG Lampião da Rima. Fundadores do Santa Cena, as  carreiras dessas duas potências da pretitude periférica se confundem com a história do Santa Cena. No caso de Luan, apesar de já trabalhar como videomaker de alguns nomes do rap sergipano, e de outros gêneros, é no Santa Cena que seu trabalho alcança um novo patamar técnico e de reconhecimento: 

“Depois que o Santa Cena nasceu, muitas responsabilidades surgiram junto, e outras demandas que fui entendendo durante o processo – desde questões de relações até burocracias voltadas a músicas, eventos e estratégias. Mas isso também trouxe muito retorno positivo enquanto movimento. Recebi muitas falas sobre como o Santa Cena trouxe uma nova perspectiva de organização, de visibilidade para artistas e conceitos. Minha carreira ganhou um novo peso depois de todos esses trabalhos.”. 

No caso de NG, um dos maiores nomes do rap sergipano, senão o maior, sua carreira já caminhava com rentabilidade antes do Santa Cena. O mc é cria das batalhas de rima, já foi campeão estadual e disputou o regional, já vinha consolidando o seu trabalho enquanto mc de estúdio e participou de músicas extremamente relevantes pra cena local, como Sergipe Gangstar da F.B.S. (Família Bocas Secas). É inegável, contudo, que seu trabalho é realçado a partir de sua parceria com Luan Allen. Se antes disso a sonoridade de NG já era impecável, agora também o seu audiovisual é. E isso permitiu a criação de clássicos instantâneos do rap Serigy: os clipes de ‘Flow Lampião’ e ‘É a rua’ e toda a união sonora e estética do álbum ‘NG tá em kasa’.

Apesar de sediado no Santa Maria, não é só de lá que os integrantes do Santa Cena vieram. Durante seus anos de existência, o grupo já contou com dezenas de artistas e colaboradores de diversos bairros e cidades do estado. como é o caso de BW e Mali. Vindo do Castelo Branco, BW é um dos artistas mais influentes da cena. Sua estética de drill seria exemplo para outros artistas e o mesmo pode ser dito de sua estética audiovisual, especificamente no clipe de Saweetie. O artista iniciou no Santa Cena logo no início da sua fundação e fala um pouco sobre o que o álbum representou para a sua carreira:

“O álbum reuniu artistas de cada uma das 4 zonas da cidade e estado, então são vários mundos, e a proposta do álbum era abranger diversas temáticas e permear várias estéticas, então foi algo realmente importante e notório para minha carreira. Máximo respeito, só colaboração incrível junta!” 

Santa Cena
BW

Mali, por sua vez, é natural de Estância e nos fala um pouco da importância do Santa Cena para sua carreira: 

“Entrei no Santa Cena a convite de NG e de Luan, e foi uma oportunidade do sonho de artista, trabalhar profissionalmente se tornar real, de não precisar produzir beat, me gravar e compor sozinha, pois era a perspectiva única de melhorar enquanto artista. Além disso, o reconhecimento da minha arte como potência pra compor o Santa Cena elevou minha auto-estima e afirmou minha identidade”. 

Santa Cena
Mali

Assim, fica evidente que o lugar no qual nasce o Santa Cena é muito mais espiritual que geográfico. A vivência no Santa Maria é experienciada para além do espaço no qual o bairro se localiza e isso permite que exista mais proximidade entre as vidas de jovens pretos periféricos do que distância entre suas moradias. Com isso, a sede do Santa Cena deixa de ser um lugar físico para se tornar um lugar interpessoal no qual coexistem artistas do Santa Maria, Castelo Branco, Rosa Elze, São Conrado, Barra dos Coqueiros e por aí vai. Porque, de certa forma, todos residem no mesmo bairro, cidade, estado ou país, que é a periferia, local ou globalmente! 

Santa Cena
Camila Giovana

Não é à toa que o álbum, e os visualizers que ele gerou, contou com a presença massiva de agentes periféricos em todas as etapas de produção, até os mais altos postos de articulação. Camilla Giovana é produtora executiva do Santa Cena, foi produtora geral do projeto e nos conta um pouco do que a concretização do álbum representa pra ela:

“Representa o poder da transformação de perspectivas em relação à história do Rap Sergipano e aos profissionais que atuaram na produção do álbum. Esse lançamento contribuiu para que eu me enxergasse enquanto uma real produtora e me fez sentir capaz de alcançar/almejar outras colocações.” 

Algo semelhante é dito por Precioza, que, junto com Camila, foi produtora geral do álbum: 

“O álbum teve um impacto positivo, principalmente por me fazer ser reconhecida dentro de um cenário majoritariamente masculino. Foi uma das primeiras vezes que isso aconteceu, ainda que de forma sutil.”

A importância do Santa Cena, então, é evidente. Não só por reunir agentes pretos periféricos em seu entorno, mas por possibilitar a existência de suas carreiras. E isso ocorre tanto no caso de quem fica por trás das produções, como quem fica à frente delas, e quanto a isto, eufórico (eufo) e NDS Hiata são ótimos exemplos. Para eufo, sua entrada no Santa Cena foi marcada pela insegurança: 

“Minha entrada no Santa Cena foi mais um desafio pra mim, porque eu entrei e não sabia nem pilotar o FL [programa de produção musical] direito. Na minha cabeça, eles iam ver que eu era amador pra carai no bagulho e me tirar.” 

Quanto a NDS, o artista já tinha um trabalho reconhecido como mc e produtor, chegando a fazer o beat de diversas músicas de Bidu, um dois maiores nomes do rap sergipano, mas é com sua entrada no Santa Cena que ele lança o grosso do seu trabalho enquanto mc. Singles, videoclipes, a participação no álbum do Santa Cena e o lançamento do seu primeiro álbum. O convite para participar do coletivo foi como um resgate da sua carreira artística:

 “No tempo eu tava também passando por alguns problemas e estava meio afastado da música. Eu digo que o Santa Cena me resgatou. E aí, mano, foi só sucesso. Vários projetos passaram pra nós tudo certinho. Saiu meu primeiro trampo que foi o  Cypher. Depois da Cypher foi só porradeiro.”

Quem já foi ao Bate Cabeça do Santa Cena sabe que “porradeiro” é a palavra mais certeira que NDS poderia ter escolhido. Capturado pela lente de Somb, o evento inunda a DOCA, não só de pessoas e de clássicos do coletivo, mas também de sentimento. A auto-estima e a euforia são registrados nos olhos, sorrisos e vestuários de quem participa do show. Ao som de ‘É a rua’, a DOCA treme como se uma locomotiva passasse por cima. E assim, o Santa Cena faz jus à alcunha que dá nome ao álbum. Sobre isso, o próprio SOMB nos relata o seguinte: 

“Eu enxergo que o Bate Cabeça do Santa Cena é algo muito importante pra nossa cena. É como se fosse uma voz, meio que pra dizer que estamos aqui, porque representa muito os artistas negros e periféricos. O que minha lente vê nesses Bate-Cabeça’s é essa forma de ocupar, essa forma de o Santa Cena mostrar que os jovens negros periféricos têm capacidade de ocupar todos os espaços.”

Não é difícil definir o Santa Cena, e justamente por isso é fácil perceber a sua força. Santa Cena é um coletivo de jovens pretos periféricos que viram na própria realidade à sua volta uma possibilidade de mudança e o álbum é um marco da operacionalização dessa mudança. 

Toda a representatividade periférica que o Santa Cena traz em tudo o que faz é fruto de um ideal comum, a vitória do povo preto periférico. Por isso, o Santa Cena é também um movimento, de corpos, sentimentos e ideias. Todos juntos com um único propósito e vontade, sem que isso ocasione a negação de suas raízes e as suas singularidades. Nessa perspectiva, Santa Cena é o futuro, o presente ou mesmo o passado, mas, antes de tudo, Santa Cena é o trem.

-Santa Cena, a importância da força coletiva negra e periférica no cenário do rap sergipano!

Por Marcos Roberto 

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