Single – Oganpazan https://homolog.oganpazan.com.br Oganpazan Fri, 22 Aug 2025 15:33:03 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 Oddish do velho testamento voltou, plantando a Dissgraça contra Baco Exu do Blues! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/oddish/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/oddish/#respond Fri, 22 Aug 2025 15:33:03 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38950 Oddish, MC conterrâneo de Baco Exu do Blues, retirou alguns esqueletos do armário e soltou uma diss pesada!
Oddish
Oddish

Oddish é um dos grandes nomes da história do Rap Baiano, o Mc possui uma caminhada oriunda das batalhas, onde durante anos foi um nome simplesmente imbatível. Em 2014, ele lançou seu primeiro disco solo: “Ponteiros Voam Como Jatos”, um disco sujo e cáustico, que deu o start para sua obra fonográfica de modo irremediavelmente baiano, trazendo samples do Igor Kanario e cuspindo barras. 

Integrando o bando “Fraternidade Maus Elementos”, Oddish foi uma das peças psicóticas utilizadas no clássico recente: “Eles Não Vão Perdoar” de 2015, e daí o MC seguiu trampando com seus parceiros de grupo e soltando diversos singles nos anos 2017-2018. Oddish retornou ao cenário em 2021, com o consistente disco Onironauta. O disco que chegou na pista com a produção do Degraus Beats, trouxe participações do Teagacê e do Dactes. 

Ao longo de sua obra, Oddish trabalha meio numa perspectiva o Médico & o Monstro. O Monstro é o que chamo de Oddish do velho testamento, cuspindo sujeira de modo muito único e com uma identidade muito baiana. O Médico é o Felipe Castro, lidando com os seus demônios internos, expondo-os em lírica numa pegada mais alternativa. Exemplo disso, é o seu EP lançado no ano passado: Âmago. 

Hoje ao meio dia, o Monstro ressuscitou e veio inclusive com as características iniciais, reeditando a sua inspiração em outro Parmalat: Igor Kannário. A faixa “Breja na Sacada” é um diss pesada ao rapper seu conterrâneo e desafeto: Baco Exu do Blues. Oddish tirou uns esqueletos do armário, algumas coisas que são comentadas na cena baiana, e produziu uma diss que dá gosto de ouvir pela já conhecida qualidade lírica do MC.

 

As linhas de soco que Oddish disparou atacam elementos diversos da construção artística do Baco Exu do Blues e a sua virada pop, como o seu novo Rebranding, mas vão além e expõem questões “supostamente” vivenciadas juntos, por isso o título “Breja na Sacada”. Além de usar os títulos de algumas das faixas do Baco como parte da construção da diss.   

Será que haverá resposta? Até hoje, Baco nunca respondeu as diversas linhas que recebeu e nem as diss abertas de ataque, então é aguardar!

-Plantando a disgraça? Oddish do velho testamento voltou com uma diss para Baco!

PorDanilo Cruz 

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Cocoa Tea, um dos grandes mestres do dancehall, lançava 5 pedradas há 40 anos! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/cocoa-tea-mestre-do-dancehall/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/22/cocoa-tea-mestre-do-dancehall/#respond Fri, 22 Aug 2025 07:11:56 +0000 http://oganpazan.com.br/?p=16131 Cocoa Tea Um dos grandes mestres do dancehall, em 1985 estreou com uma enxurrada de discos geniais mas que infelizmente são pouco conhecidos

Cocoa Tea

 

A rica história da música jamaicana tem em Cocoa Tea um capítulo importante e fundamental para todos os admiradores dessa cultura linda e resistente. Frutos que vem da pequena ilha que não cessa de nos dar presentes maravilhosos, apesar de tudo. Frutos que foram decisivos para o desenvolvimento da música mundial, algo reconhecido por todas as almas sensíveis a grande música negra proveniente da Jamaica que floresceu em diversos outros gêneros.

Mas por incrível que pareça, foram os branquelos do Sublime que nos levaram ao grande mestre do Dancehall. Cocoa Tea foi uma das muitas fontes nas quais a banda californiana bebeu, assim como Bob Marley e Toots & The Maytals, outras fortes influências jamaicanas em sua música.

O Sublime é uma banda californiana que apareceu pro mundo com o estouro da música Santeria na MTV, um clipe do excelente terceiro disco homônimo lançado em julho de 1996, três meses após o seu vocalista, guitarrista e compositor principal morrer. Foi através de uma música do excelente 40 Oz To Freedom (1992), que numa audição alguém – a memória queimou – citou Cocoa Tea, obrigado mesmo assim. 

Obviamente, tendo aprendido cedo a lição de que é preciso burlar a industria cultural e ir beber direto na fonte,  corremos atrás dessa referência, e nessa caminhada já se fazem algumas décadas que curtimos muito a música genial, feita por mais esse mestre jamaicano. 

Nascido como Calvin George Scott em 1959, em Rocky Point, Claredon, o jovem Calvin entrou para a escola primária em sua cidade e seguiu depois seus estudos, na escola secundária Bustamante Junior na localidade de Lionel Town. Já muito cedo o pequeno Calvin se destacou nos corais de igreja onde passou e essa exposição o levou a gravar a primeira música, Searching In The Hills (1974) com apenas 14 anos.

Essa estreia prematura, que não trouxe sucesso nem dividendos não lhe encorajou a seguir a carreira da música, e sendo assim Calvin Scott seguiu sua vida, exercendo as profissões de jockey e pescador durante os próximos 5 anos. Mas a música falou mais alto, e enquanto pescava ele começou a organizar sua carreira musical. Passou a escrever suas músicas e testá-las nos bailes, onde aos poucos começou a ser valorizado com sua arte. Cocoa Tea foi o nome artístico adotado pelo artista, proveniente de sua paixão por chocolate quente. 

Henry Junjo
Henry “Junjo Lawes & Barrington Levy

Mas foi o nascimento de sua primeira filha Rashane, que lhe trouxe à consciência a necessidade de firmar uma carreira profissional na música. Depois de muitos treinos e já escrevendo material próprio, em 1983 depois de esculachar numa apresentação épica num dos Dancehalls que frequentava, atraiu a atenção do produtor Henry “Junjo” Lawes. Dessa parceria nasceria logo a seguir grandes clássicos do Dancehall jamaicano. 

Entre os anos de 1982 e 1985, é possível afirmar que Cocoa Tea desenvolveu o seu estilo musical, e soltou uma excelente sequência de pedradas como singles. Grandes sucessos como Lost My Sonia(1982), Rocking Dolly (1983), Who A The Champion (1984) e Christmas Is Coming (1984), foram aos poucos moldando os ouvidos de geral para a arte que Cocoa Tea, firmaria definitivamente em 1985.

Ano importante profissional e espiritualmente, para o artista, foi exatamente no meio da década de 80 onde Cocoa Tea estreou com seus primeiros LP’s, ao mesmo tempo em que se convertia ao modo de vida Rastafari. E, não estamos falando de qualquer estreia, estamos falando de nada menos que 4 discos oficiais lançados em 1985 e mais uma copilação de batalhas. Essas cinco pedradas completam 40 anos de lançamento em 2025.

A cultura fonográfica jamaicana implica que muitos discos de um mesmo artista, às vezes sejam lançados como meras copilações de singles, e no caso de Cocoa Tea não foi diferente. Porém, desses 5 discos, apesar de termos alguns singles se repetindo de um disco para outro, para aproveitar a popularidade alta de alguns de seus hits, o material original se impõe entre esses lançamentos. 

R-1940150-1260955610.jpegCocoa Tea – I Lost My Sonia (1985)

Uma verdadeira copilação de grandes sucessos, certamente esse primeiro disco fruto da parceria entre Junjo Lawes e Cocoa Tea, é um dos discos mais marcantes da cultura dancehall. Daqueles álbuns, em que colocamos e seguimos ouvindo no repeat, pois além dos clássicos Rocking Dolly e Lost My Sonia temos outras grandes músicas, como Informer e Evening Time, por exemplo onde o grande mestre mescla com sua genialidade a rapidez no flow e a doçura de sua voz. 

Disco lançado pela pequena gravadora Volcano, operada naquela altura pelo produtor Henry “Junjo” Lawes, o selo que era distribuído pela Sony também gravou nomes importantes da cultura dancehall como Yellowman, Beenie Man e Eek-A-Mouse, entre outros grandes. Infelizmente, não conseguimos informações mais aprofundadas sobre a banda que o acompanha nas faixas que compõem o disco. Mas, apesar de muitos sites apontarem que a copilação, essa sim, uma coletânea Rocking Dolly (1986) ser o primeiro disco do artista. É aqui, que o mundo conheceu o primeiro disco cheio do mestre jamaicano. 

R-3474332-1466279928-7714.jpegCocoa Tea – Weh Dem A Go Do… Can’t Stop Coco Tea (1985)

Segundo disco em parceria com o Junjo Lawes, mais um lançamento pela Volcano, temos aqui a repetição de muitos dos sucessos presentes no disco anterior porém com o acréscimo de algumas faixas inéditas. Entre essas músicas inéditas, um excelente exemplo da delicia que é ouvir a música de Cocoa Tea, é a terceira faixa, Jah Made Them That Way. Um reggae mais tradicional, onde a doçura da voz do jamaicano vem a tona com uma força incrível, daqueles reggaes feitos pra dançar coladinho no amor. Outra pedrada hipnótica, é a quinta faixa presente no disco, Can’t Stop Cocoa Tea, que deixa-nos bastante claro, o porque. Rimando com suavidade e muita malemolência, o mestre vai nos envolvendo com uma tranquilidade deliciosa.

Um single não inserido na sua estreia, On Top Of The World, chega pesado nesse disco, originalmente lançado num 12″ junto a Christmas Is Coming em 1984, aparece somente aqui como a penúltima faixa da bolacha. Fechando a sequência de 10 pedradas na sequência, o nosso capacete é atingido por outra pequena perola com Chalice Nuh Fi Ramp With. Um segundo disco que mesmo que contando com pelo menos metade das músicas já lançadas no album anterior, não pode ser visto como apenas mais uma coletâneas.   

As quatros músicas inéditas contidas na bolacha já são mais do que motivos suficientes para se apreciar essa maravilha sem moderação. Além do fato, de que esse é um dos poucos discos que estão presentes na integra nos tão festejados streamings e com uma boa qualidade de remasterização. 

CapaTenor Saw / Cocoa Tea – Clash (1985)

As batalhas, as disputas são algo fundamental dentro da cultura da reggae music, desde as disputas dos sound systems que buscavam esconder, uns dos outros os selos dos discos que tocavam ali pelos anos 50 e 60 até as batalhas dentro dos mesmos bailes. E obviamente, os deejays não ficariam de fora, e é dentro desses contextos que surgem os discos de Clash (batalhas), onde performances de dois ou mais artistas do dancehall são copiladas.

Aqui, Coco Tea possui 3 músicas e o outro grande nome do dancehall Tenor Saw, outras três cançoes, onde as músicas são intercaladas por performances dub de artistas não identificados. Os riddims utilizados aqui por Cocoa Tea, diferentemente dos dois primeiros discos, já possuem muitos elementos da música eletrônica que então começava a ser a base para os riddims originais.

O disco lançado originalmente pelo selo inglês Hawkeye Records, é ao que consta o terceiro lançamento desse ano mágico para o artista. As músicas presentes do mestre Cocoa Tea são: Nah Give Up, You and I e My Time, e são exemplos de sua grande qualidade e originalidade, pouco conhecidas as faixas, mas facilmente encontráveis em programas P2P de download de mp3.

R-1430821-1439320237-2588.jpegCocoa Tea – Mr. Cocoa Tea (1985)

Terceiro disco do mestre “Calvin Scott” e primeiro de uma sequência de três que gravaria junto ao produtor King Jammy’s, Mr. Cocoa é mais uma coleção impressionante de grandes pedras do dancehall. Nas mãos do grande produtor King Jammy, Cocoa Tea recebeu nos riddims que utilizou aqui, toques de dub e outras timbragens que podem ser facilmente identificadas pelo ouvinte. Marcando assim uma nova fase em sua carreira.

Lançado pela Corner Stone, gravadora do King Jammy’s, é também de algum modo o primeiro disco onde Cocoa Tea começa a trazer em suas letras a força da sua conversão ao Rastafarianismo. Aqui vale a pena notar, que os dois primeiros discos lançados em 1985 traziam ainda composições mais antigas de 82 a 85, e nesse sentido, Mr. Cocoa Tea, é o primeiro disco do mestre a refletir de modo sincronizado seu momento politico e espiritual.

As canções deste disco não tiveram o grande sucesso, das que estão presentes nos dois primeiros discos, mas são pedradas de igual valor, com destaque para as linhas de baixo ressaltadas nas produções do King Jammy’s. Músicas como Come Back, We Haffi Leave e I’ve Got To Love You Jah, mostram isso na aproximação ao classic reggae.

Destaque para Sweet Coco Tea, novamente uma daquelas onde as qualidades mais fortes do canto e do flow do artista jamaicano ficam mais aparentes. Outra nessa linha é a Try a Thing, que é só chuva de groove fechando o disco com metais adicionados, é prova de que o mestre não viveu neste começo de poucos hits, mas sim de uma obra muito consistente.

R-5081249-1449363365-7709.jpegCocoa Tea – Settle Down (1985)

Segundo lançamento pela Corner Stone e com produção do King Jammy’s, que ainda produziria Come Again (1987). Esse é oficialmente o quarto disco da carreira de Cocoa Tea, e é surpreendente o quanto esse artista produziu e lançou em apenas um ano. Durante esse passeio pelos seus quatro discos oficiais e mais a copilação junto ao Tenor Saw, a impressão que fica é que Cocoa passou seu tempo enquanto pescava planejando com maestria os caminhos que seguiria. Pois, com quatro lançamentos oficiais, o artista não deixa a peteca cair em momento algum, a qualidade e a variedade de sua arte não conhecem meio termo, pelo contrário, disparando para todos os lados, trabalhando com grandes produtores, ele firmou seu nome na história do reggae de modo definitivo.

Don’t Be Shy é certamente um exemplo de que hits são construções feitas por muitos fatores que estão além da música, pois essa é uma canção que esta no mesmo nível de suas mais conhecidas produções. Outra música presente nesse disco e que confirma a mesma linha de pensamento, é a maravilhosa I’ve Got To love You, uma pérola que reflete o momento de conversão do músico. Música que nomeia o disco, Settle Down também é outra pedrada que traz fortes mensagens sobre a religião rastafari.

Ao longo das oito canções presentes em Settle Down (1985), mas sobretudo durante a audição desses primeiros discos do mestre Cocoa Tea, é indelével a certeza que esse é um artista que precisa ser redescoberto. E que fique bem escuro, aqui estamos apenas diante da estreia, o primeiro ano de lançamentos de discos cheios do artista jamaicano, que ainda estouraria pro mundo inteiro e que seguiria produzindo a todo vapor. Infelizmente, esse grande mestre faleceu no dia 11 do mês de março deste ano, mas obviamente sua obra é imortal.

Desejamos que essa introdução a obra do Cocoa Tea lhes instigue a descobrir mais outras pérolas desse grande artista jamaicano:

-Cocoa Tea, um dos grandes mestres do dancehall, lançava 5 pedradas há 40 anos!!

Por Danilo Cruz 

 

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Cidade dos Normais e a poesia distópica da Escambau https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/cidade-dos-normais-e-a-poesia-distopica-da-escambau/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/15/cidade-dos-normais-e-a-poesia-distopica-da-escambau/#respond Fri, 15 Aug 2025 15:22:48 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38901 No clipe Cidade dos Normais, a banda paranaense Escambau celebra 15 anos de carreira com uma crônica urbana irônica e distópica, gravada ao vivo no Teatro Paiol, em Curitiba.

A celebração de uma resistência

Vou começar a resenha propondo que você tente imaginar seria viver numa cidade onde tudo parece perfeito, mas nada é real? Será mesmo, que esse exercício de imaginação nos coloca diante de uma realidade ainda por vir? Ou será que já estamos inseridos nessa realidade social?

É nesse cenário que a banda paranaense Escambau ambienta Cidade dos Normais, canção transformada em um clipe visualmente arrebatador, gravado ao vivo no histórico Teatro Paiol. E que fará parte do novo álbum da banda que celebra o tempo de existência da banda. 

Completando 15 anos de estrada e uma trajetória marcada pela resistência da música independente, o grupo entrega uma crônica urbana afiada, que mistura poesia, ironia e a tensão silenciosa das grandes distopias.

O clipe que revela o show

O álbum recebe o nome “Escambau – Acústico 15 anos no Teatro Paiol”. Acho que a partir daqui, tendo o título revelado, inferir se tratar de um álbum ao vivo, no formato acústico, o local do show e gravação do álbum é o Teatro Paiol em Curitiba.

Seu lançamento acontece hoje, 15 de agosto, a partir das 19 horas no SESC Paco da Liberdade, em Curitiba. Será feita uma audição pública do álbum, que estará disponível em todas as plataformas de streaming a partir do dia 18 de agosto.

A banda lançou uma das faixas, “Cidade dos Normais”, no formato single no final de abril deste ano. Recentemente lançaram o clipe da faixa e ali se revelou a beleza visual da gravação em vídeo do show. 

“Cidade dos Normais”, portanto, pode ser visto no formato de clipe, no YouTube, e já nos mostra a qualidade da produção do show.

Distopia em forma de canção

“Cidade dos Normais” elabora uma crítica sutil e irônica a uma sociedade caracterizada pelo conformismo, pela superficialidade e pelo controle simbólico — algo próprio das distopias presentes em obras literárias como 1984, de George Orwell; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; ou na trilogia distópica de Ignácio de Loyola Brandão: Zero, Não verás país nenhum e Desta terra nada vai sobrar.

A letra descreve uma cidade que, a partir de um ponto de vista distraído, parece tranquila e sob a “proteção” de uma força maior. Contudo, trata-se apenas de uma impressão fabricada. O que existe, de fato, é o exercício de controle social sobre os habitantes dessa localidade.

Nesse sentido, “Cidade dos Normais” nos surge como uma alegoria da realidade social, existente por trás de um verniz de aparência que sugere organização e normalidade.

Essa alegoria remete ao filme Eles Vivem, do diretor norte-americano John Carpenter. No longa, um óculos especial, quando usado, revela a realidade por trás da camada aparente utilizada para camuflar uma estrutura opressora de profundo controle sobre as decisões e ações dos indivíduos.

A normalidade descrita na música não passa de um estado de anestesia coletiva, tal qual o causado pelo consumo da droga “soma” na sociedade apresentada por Huxley em Admirável Mundo Novo. Dessa forma, os governantes podem induzir ações e decisões dos “cidadãos” dessa sociedade controlada.

Podemos identificar uma ironia no fato de que a cidade é aparentemente segura, até previsível, mas é justamente essa previsibilidade que a transforma em uma imagem distópica de sociedade.

Na linhagem da MPB crítica

Outra forma de compreender a crítica presente na música é pelo seu formato de crônica urbana, que se encaixa na tradição da MPB mais crítica — aquela que recorre a harmonias ambíguas, aliadas a melodias sedutoras e letras irônicas, para abordar uma realidade política e social marcada pelo signo da passividade.

Nessa tradição, podemos incluir compositores do quilate de Chico Buarque, Caetano Veloso, Itamar Assumpção e Belchior. Duas imagens presentes na letra da música representam bem seu caráter metafórico e satírico: “olho de vidro” e “prefeito quadrado”.

Essas expressões reforçam o tom de metáfora e sátira, lembrando algumas fábulas urbanas da canção brasileira dos anos 1970, período em que a crítica social precisava se disfarçar de ironia para escapar dos aparelhos de repressão e censura.

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Alra Alves e a laje da “Ruera”, “Nosso Lugar” como território de uma festa do real Hip-Hop! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/12/alra-alves-e-a-laje-da-ruera-nosso-lugar-como-territorio-de-uma-festa-do-real-hip-hop/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/12/alra-alves-e-a-laje-da-ruera-nosso-lugar-como-territorio-de-uma-festa-do-real-hip-hop/#respond Tue, 12 Aug 2025 13:40:16 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38862 Alra Alves é uma das grandes no Rap feito no Vale do Paraíba, aliando produção ao fomento da cultura Hip-Hop!
Alra Alves
Os dois discos da Alra Alves

Alra Alves proporcionou no último domingo, no dia 10 de agosto ocorreu a comemoração de um ano do Estúdio Ruera, e através das dezenas de vídeos nos stories dos participantes da festa em sua 3º edição, a sensação era de que a Cindy Campbell reencarnou em São José dos Campos, no Vale do Paraíba. Porém, não se trata de imitação e sim da continuidade da cultura Hip-Hop em suas bases mais essenciais. A festa contou com a discotecagem do Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops, do DJ Loucas e do DJ Diniz, e a participação dos e das MC’s Mattenie, Killabi, Janvi e Meire D’origem. 

Em uma época onde muitos curtem mega festivais, festas em clubes luxuosos, a Laje da Ruera carrega o DNA de uma festa onde a comunhão é visível, mesmo a pouco mais de 2.000 km de distância. E isso não é por acaso, mas é o fruto de uma caminhada que começou em 2016 e que tornou o sonho e as dificuldades em combustível de luta para que em 2024 a MC e produtora cultural conseguisse construir o primeiro estúdio de uma mulher no Vale do Paraíba. 

Em uma conversa por telefone, alguns meses atrás, Alra Alves nos contou que começou a rimar em 2016 em rodas de freestyle na porta do Sesc de sua cidade. Já em 2017 ela participa da Cypher Mente Milionária junto às MC’s Preta Ary, Thamara e Eliza Branca. No ano seguinte, foi a vez de participar do último episódio do projeto de Cyphers do beatmaker Símio, “Bruxaria”, dessa vez ao lado de Wicca, Ninah, Laís, Gabi Killabi e da Meire D’origem. E como é bom ver registro mais antigos e sobretudo do início de carreira de artistas. Ali, já é fácil perceber a destreza de Alra tanto junto à MC’s contemporâneas suas, como diante de suas influências.  

Ainda em 2018, Alra Alves deu o start no seu primeiro projeto solo com o clipe single da faixa Ruera, onde conseguiu em um videoclipe com direção do Silvio Cesar, plasmar uma espécie de carta de intenções. Abordando suas origens no pixo e a “facilidade” em escolher e ser escolhida pelo underground, como local de criação e estética.  

Infelizmente, nesta altura não a conhecíamos, e nem sempre o que entra no nosso radar se transforma em texto, porém em 2019 ouvimos muito o disco de estreia da Alra Alves: “Ruera”, que se transformou em 2025 em uma marca. Com beats do Noise System, Tio Galera, Raul Rondé, Símio, Veiga e Murilo Beats, Alra Alves impressionava com um disco de boombap under na melhor tradição do Vale. 

Dona de um flow e de uma voz capaz de cantar as partes melódicas com excelência, as 8 faixas que compõem esse disco de estreia apresentam a afirmação de um feminino combativo, denunciando diversas opressões. Em “Ruera”, Alra Alves trouxe a essência do rap de rua e suas vivências, sem apelo pop, mas também abordando questões que lhe atravessam, como as questões referentes a violência contra mulheres, a violência policial, questões de opressão de classe e de saúde mental. 

Influenciada por nomes como Meire D’origem e Preta Ary MC’s próximas, Alra Alves esperou e sobretudo trabalhou por 5 anos desde o lançamento de “Ruera” para construir o seu Estúdio. E nesse processo encetar e oportunizar alguns projetos que são os mais importantes para a nossa cultura, pois formam uma base sólida de produção de arte e de público. Muitos não percebem, mas existem os produtores e mantenedores da cultura e ao mesmo tempo, artistas mais sólidos, onde suas linhas são bio-grafias (linhas escritas de vida) contra culturais, e existem as vedetes do mainstream. 

Alra Alves Essa distinção é de fundamental importância, para compreendermos a cultura Hip-Hop hoje, em um momento de investida da indústria cultural que visa sobretudo diluir até o nível de água de salsicha, uma arte que surge da combatividade. E neste sentido, não há apenas um privilégio masculino, isso também vem ocorrendo – como não poderia ser diferente – com o rap feito por mulheres. Outra é a vertente de uma MC como Alra Alves, que sem milhões na conta, construiu para a cultura o que nenhuma das MC’s que estão no Hype construiu. 

Sem se curvar para falar a língua da cultura dominante e os seus tiques nervosos, onde muitas outras, se comprazem em falar das “vadias invejosas”, Alra Alves oportuniza e visibiliza outras MC’s. Produtora e também beatmaker, Alra Alves criou o Projeto Guia que tem apresentado jovens nomes como Azurah, Baloo, Jéssica Sales e a Nwazz. Porque é como disse o Don L: “se você não traz ninguém, não fala que você é Hip-Hop”.

Superando a falta de grana e acesso, Alra Alves tem feito micro revoluções, e o seu disco lançado este ano: “Nosso Lugar” é mais do que um mero objeto estético, mas condensa a essência de sua trajetória de valorização do seu lugar no mundo e na cultura Hip-Hop. Mas ao mesmo tempo, a construção de uma perspectiva de horizonte aberto, que lhe dê e que ela possa partilhar com os seus e as suas noções de progresso coletivo. 

Neste novo EP, composto por 5 faixas produzidas por DJ Kaizen, Marci VSR, Kadow, Jazzkey, GAD e Blaze Boy e traz feats com a MC Janvi e o trompetista Rafael Jarcem. Como já deveria ser de conhecimento público, a Alra Alves alia a militância coletiva no Hip-Hop à excelência como MC e atualmente beatmaker e produtora cultural. Neste novo EP ela se apresenta em outra faceta diferente do trabalho anterior, aqui a MC do Vale se mostra menos agressiva mais ainda assim com uma contundência proveniente da força dos seus versos. 

Progresso coletivo e paz, lutas diárias pela sobrevivência sempre em vistas de criar condições de dignidade, amor e diversão, a manutenção de sua criança interior como impulso brincante e lúdico para seguir criando. “Calma e Elegante” rimando e cantando, seja na parceria com a Janvi, ou no duelo de flows com o trompetista Rafael Jarcem na faixa que encerra o EP, “Zona Sul”, Alra Alves entrega excelência em seu trabalho. Esta última faixa ganhou um videoclipe do grande Jean Furquim nomes por nós já conhecido há alguns anos. 

O audiovisual é um excelente resumo semiótico de tudo dito até aqui, com cenas de dentro do estúdio Ruera onde a MC é captada escrevendo e rimando, mas sobretudo pelas ruas de sua quebrada. Cenas de feira livre, de apresentação da MC na rua, churrasco rolando, da turma no campinho do bairro. A rua é a mãe do Hip-Hop, e ainda no clipe, uma imagem icônica coloca a Alra Alves em uma bifurcação de ruas, dois caminhos, com ela de um lado e o trompetista Rafael Jarcem do outro. A representação imagética que nós entendemos como a cultura Hip-Hop de um lado e a música rap do Outro. Sem possibilidade de escolha, Alra faz o rap do lado da cultura Hip-Hop… 

-Alra Alves e a laje da “Ruera”, “Nosso Lugar” como território de uma festa do real Hip-Hop!

Por Danilo Cruz 

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“Ágil”, Áurea Semiseria segue altiva ao longo de uma trajetória de 10 anos no rap! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/11/agil-aurea-semiseria-segue-altiva-ao-longo-de-uma-trajetoria-de-10-anos-no-rap/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/11/agil-aurea-semiseria-segue-altiva-ao-longo-de-uma-trajetoria-de-10-anos-no-rap/#respond Mon, 11 Aug 2025 21:57:27 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38851 Em um belo audiovisual, Áurea Semiseria apresenta uma reflexão sobre o seu corre nesses últimos 10 anos no rap e na cultura Hip-Hop.

Áurea Semiseria

Eu nunca vou esquecer do vozeirão que me arrepiou no Pelourinho cantando Zé do Caroço da mestra Leci Brandão, então chamada Áurea Maria. Era 2016 e de lá pra cá, pude acompanhar o desenvolvimento muitas vezes atomizado, dela que se tornou Áurea Semiseria. Muitas participações, cypher’s, e o primeiro EP Roxo GG (2017) – minha camisa segue aqui. Ser uma MC preta, gorda, LGBTQIA+ e nordestina não a impediu de chegar na Letônia, com escala na Inglaterra. 

Porém, é uma luta que muitas vezes parece ser inglória, sobretudo por conta de uma indústria que visa apagar produções como as de Áurea Semiseria, em uma cidade como Salvador que está mais para túmulo da música. Mas também, porque a maioria das pessoas tendem a esquecer o “corpus” de um trabalho construído ao longo de uma década, sem investidores e sem hype algum. 

Nestes últimos dez anos, tendo acompanhando de perto os movimentos do Rap baiano, não é exagero algum dizer que Áurea Semiseria é um dos nomes que foram responsáveis pela qualidade e diversidades de produções. Não é preciso lembrar que durante à última década surgiram e sumiram diversos artistas, talentosos também, mas que não seguraram o rojão da invisibilidade e não foram se ligaram para a necessidade de ser “Ágil”, neste jogo. 

Com uma rápida passagem pela Balostrada Rec., onde gravou e lançou duas track: Onze (prod. Owé) e o clássico contemporâneo TUDUDUDU (prod. 2Kike), Áurea veio se movimentando, buscando saídas para não estagnar e murchar. No ano passado lançou o seu primeiro álbum “Semiseria” com beats do El Lif Beatz, ÉoCROSSS e do Mu540. O disco trouxe feats da Iza Sabino, da Una e do Big Bllakk e apresentou uma concepção estética sólida e a sua versatilidade como MC capaz de rimar em qualquer tipo de beat. 

-Leia a resenha da nossa colunista Mara Mukami sobre o último disco da Áurea Semiseria!

Versatilidade que levou a artista baiana ao Brasil Grime Show, que esse ano a colocou no single “Isqueiro” junto a lenda Deize Tigrona. É essa a definição sobre ser “Ágil” e é de certa forma o tema do bonito audiovisual recém lançado por Áurea Semiseria e gravado no ancestral parque São Bartolomeu tendo a Pedra de Xangô como “cenário”. Com direção de Paulo Jordan e produção musical da dupla Saboya & OG Bahia, o single nos relembra que a MC de Cajazeiras pulou de revelação à veterana sem escalas, mas com muita luta.

O videoclipe publicado no canal da produtora Complexo Nine, é simples e certeiro, com uma produção muito bem feita. A música é uma reflexão destes últimos 10 anos no cenário do rap baiano e brasileiro, sobre as oportunidades e as concessões negadas pela artista. Ao mesmo tempo, afirma-se na luta apesar da vontade de desistir – algo que tenta a muitos artistas independentes – e a dificuldade de se manter no jogo.  

O beat swingado chegado pro boombap, linha na qual Áurea Semiseria começou, dialoga musicalmente com o jogo de cintura necessário para se manter na ativa, para enfrentar as dificuldades. E o que podemos concluir disso tudo é que a MC já está há muito tempo escolada, e seguirá dando aulas.  

-“Ágil”, Áurea Semiseria segue altiva ao longo de uma trajetória de 10 anos no rap!

Por Danilo Cruz 

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Bagum: entre o soul, a psicodelia e a dança https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/08/bagum-entre-o-soul-a-psicodelia-e-a-danca/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/08/bagum-entre-o-soul-a-psicodelia-e-a-danca/#respond Fri, 08 Aug 2025 14:39:56 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38836 A banda baiana Bagum lançou dois singles, unindo psicodelia, groove e parcerias marcantes, dando o tom do que vem por aí com o lançamento de seu primeiro álbum
Bagum
Capa do single “A Lua que Foi Meu Lençol”.

Agosto começou há menos de uma semana. Mês alvo de piadas relacionadas à sensação de sua demora em se findar, traz consigo o lançamento do álbum Coração; Batalha; Celebração, da banda Bagum.

Este será o primeiro álbum da banda baiana. A notícia do lançamento gera expectativa entre as pessoas (eu entre elas) que acompanham a trajetória do grupo. Isso porque os caras vêm lançando material desde 2018, entre singles e EPs.

Portanto, não se trata de uma experiência nova. Considerando o histórico da banda e a qualidade dos materiais lançados anteriormente, espera-se um álbum que não apenas traga novidades, mas também apresente modos novos de se expressar através das faixas.

E por falar em histórico de lançamentos, cabe lembrar que dois singles — músicas que farão parte do setlist do álbum — já foram lançados, dando uma noção do que teremos no material completo.

Bagum
Arte de Capa do single “Sol e Ares”.

A Bagum produz uma sonoridade bastante atmosférica, com altas doses de psicodelia, que permitem ao ouvinte atento se enroscar em seus sons. Outra característica marcante da banda reside no hábito de convidar artistas de gêneros musicais distintos para participar de seus projetos.

Entre as colaborações mais interessantes está a participação do rapper soteropolitano Vandal, tanto em shows com a banda quanto na parceria no single BIKINIH E CEROLH, lançado em 2022. E tem mais: a cantora Lívia Nery também contribuiu em faixas de EPs e singles do grupo.

O primeiro single lançado em 2025, A Lua Que Foi Meu Lençol, traz a voz marcante da cantora baiana Liz Kaweria. A música apresenta um arranjo primoroso, que imprime sensualidade ao som, gerando uma brisa envolvente e se apresentando como um soul cheio de balanço.

A entrada da voz de Liz conduz a música para um viés mais intimista, dando mais movimento à melodia, complementada pelo groove das linhas de baixo e da levada da bateria. O teclado, usado para complementar o arranjo, oferece elementos cuidadosos, “pincelados” com efeitos que funcionam como detalhes, dando mais consistência à composição.

Logo depois, a banda lançou o single Sol e Ares. Essa música chamou bastante minha atenção pela levada dançante, numa pegada de dance music, na melhor aura das pistas de dança das discotecas.

O guia dessa faixa é o órgão, que conduz a música por solos oníricos e bases expansivas. A guitarra funciona como uma espécie de interlocutor, preenchendo com respostas pontuais — ora com staccatos, ora com frases que se harmonizam com a melodia principal feita pelo órgão.

Ambos os singles apontam para caminhos que parecem conduzir para um álbum pautado pela black music das décadas de 60 e 70. Resta-nos aguardar o lançamento de Coração; Batalha; Celebração e verificar se as especulações aqui levantadas irão se confirmar ou não. 

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Dário Inerente em swingue crítico, “Bloco na Rua” é uma afirmação da força do Rap Baiano! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/06/dario-inerente-em-swingue-critico-bloco-na-rua-e-uma-afirmacao-da-forca-do-rap-baiano/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/06/dario-inerente-em-swingue-critico-bloco-na-rua-e-uma-afirmacao-da-forca-do-rap-baiano/#respond Wed, 06 Aug 2025 14:37:10 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38823 Diretamente do sul da Bahia, Dário Inerente lançou seu primeiro álbum, “Bloco na Rua”, em conexão com grandes nomes do Rap no Brasil!
Dário Inerente
Foto por Augusto Santos aka @method_av

Por mais que não se perceba, todo artista se insere em uma tradição e quando no ano passado ouvi as guias de “Bloco na Rua”, duas percepções distintas me assaltaram. A primeira delas é a óbvia associação com Sérgio Sampaio e o clássico de 1973, “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”. A segunda dizia respeito à diferença do Dário que conheci em 2020, por ocasião do lançamento de sua mixtape “Eterna Odisseia para a Luz”. 

No primeiro caso, Dário Inerente se insere em duas tradições, na rica história do boombap feito na Bahia e consequentemente no Brasil, e na relação virtual que o título do seu disco pode suscitar. Porém, ao ouvir “Bloco na Rua” e mesmo já no título, há uma diferença patente e de saída, algo que de certo modo atravessa todo o trabalho e que diz respeito a uma afirmação por parte do MC de Itabuna. Ninguém poderá dizer que ele dormiu de touca, que ele perdeu a boca, que ele fugiu da briga, que ele caiu do galho e não viu saída, ou que ele tenha morrido de medo quando o pau quebrou. 

A uma afirmação e não um desejo em “Bloco na Rua”, ele não quer colocar ele botou – lá ele – o seu bloco na rua, brincando, botando pra gemer, e sobretudo gingando. As 13 faixas que compõe o disco, das quais duas assinadas pelo Jedi, Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops, uma do Gxtv, uma do pedrvso e uma do Neto (Síntese) transpiram uma afirmação alegre, swingada e séria. 

O Dário Inerente de 5 anos atrás com 18 anos se transformou muito em termos estéticos e pessoais, perdeu o pai nesse ínterim, mas se conservou inteiro e se expandiu, encontrando conexões fora de sua cidade, Itabuna. Com seu primeiro álbum, o MC grapiúna nos mostra não somente a sua, como a riqueza e as possibilidades, muitas vezes não percebidas nem por quem está ao lado, do rap feito no sul da Bahia. 

Há uma tônica: “Boas ideias, diversão levada a sério”, que está presente neste “Bloco na Rua” enquanto uma busca de si mesmo em relação com o mundo. Algo que contagia o ouvinte atento, porque as boas ideias aqui estão a serviço de uma diversão que não seja uma alegria no vácuo, pelo contrário o bloco apresentado é um concentrado de poesia e rima, com swingue, com perspectivas de luta e sobretudo ancoradas no coletivo: “Hip-Hop com a mesma essência, mesma classe, uma nova roupagem”. 

-Leia a matéria que fizemos sobre a primeira Mixtape de Dário Inerente

Tem quem separe alegria de reflexão, corpo e espírito, estudo de diversão, dicotomias que ocidente implantou nos corpos colonizados. E obviamente, a indústria cultural faz uma festa, diante da fragilidade de concepção de que a arte pode e deve ser sempre alegria e reflexão, porque não existe arte que entristece, porque mesmo que ela cause incômodo, ela potencializa o nosso viver se estivermos abertos a pensar o que foi recebido.    

Com a potência do coletivo, perceba como Dário Inerente rima a morte do pai com o pandeiro e o passo bêbado de tristeza do equilibrista, e seguiu, “sem pedir, sem me humilhar, sem atrasar o lado dos outros”. Se isso não é uma bela afirmação de vida, eu não sei mais o que é. Esse é o seu “Abre Alas” onde o MC reza e assopra vida no loop do Barba Negra. E o bloco segue desfilando dessa vez em um beat elegantérrimo do Gvtx, um groove jazzy em “Saber Chegar”, onde o ethos da prudência diante da “Vida Puta” é a malandragem que faculdade não ensinam, mas que é extraída das ruas e sobretudo de uma relação diante da alteridade. 

Dário Inerente
Foto por Augusto Santos aka @method_av

A costura do caos, ao “Estilo do Bairro” produção do Neto (Síntese), traz um beat mais cadenciado, onde o Dário Inerente mostra que também compõe bons refrãos: 

A verdade na pupila, identidade não tá no RG, a minha ira, não paga pra ver, o hype vai o real fica, o instinto e a malícia, pra esquivar da maldade, muita ginga

Em seus versos, Dário Inerente consegue – sem didatismos – entregar pensamentos profundos com uma leveza poucas vezes vista, e que não são frases soltas: “ele tem tudo orquestrado, o fundamento, um pensamento blindado”. Aqui em “Estilo do Bairro”, a estrutura dos versos, vai entregando ao ouvinte a formação e as intenções do MC em um pêndulo que trabalha em um zigue-zague temporal, enquanto o beat marca não somente o tempo, mas também o espaço. Note como ele começa com tudo pronto, mas volta pra infância adolescência (meu jeito estranho, me fez muito mais ágil) e segue nessa toada. 

Apesar de contar com o reforço de grandes produtores, Dário Inerente também produz e o beat de “A Todo Vapor” é dele. Essa é mais uma faixa presente no disco que o amarra tematicamente, hoje é comum ver e até mesmo, se tornou uma distinção simbólica anunciar álbuns conceituais. Muito crítico, bunda mole, e uma parte incauta do público ao ouvir conceitual se mija de emoção. Mas muitas vezes são incapazes de julgar a adequação entre o proposto e o executado, por outro lado essa mesma classe não consegue apreender as soluções de continuidades bem construídas, quando não se fala conceitual.

Neste disco, o conceito – apesar de não ter sido anunciado – avança não apenas com jargões mas através da construção poética e rítmica, como um glorioso desfile da cultura Hip-Hop. A rigor, não existe disco conceitual, pelo menos não na música pop, o conceitual foi utilizado para dar conta de disco que possuíam uma unidade estética e narrativa, que se distinguia dos discos como mero agrupamento de singles. Dário Inerente, com o seu “Bloco na Rua” transforma a poesia das ruas em cordão que unifica o seu/nosso movimento de escuta. 

-Leia no site a matéria que fizemos sobre os singles audiovisuais lançados pelo Dário Inerente 

Os riscos do DJ Noé, a cadência contagiante do beat, mas sobretudo a poética do Dário nos carrega por entre sua vida e sua arte, nos colocando na posição de foliões deste Bloco. Note-se novamente e perceba-se como o movimento é algo sempre constante, quando novamente Dário cita a morte do pai não em termos de fim, mas de partida – para o mistério e o desconhecido – que lhe alimentou a ser esse que por onde passa, bagunça, e que faz da vida esse caminho de quedas e vôos, de coletas e entregas, porém “A Todo Vapor”, independente das velocidades ou lentidões.

Dário Inerente
Barba Negra aka O Terrível Ladrão de Loops aka MC Ralph

Prova disto é a faixa seguinte “Nas Esquinas”, mais uma cortesia do Barba Negra, onde Dário Inerente prossegue blindado em suas palavras por um universo de referência que vai do escancarado Chico Science – já na intro –  a reelaborações poéticas: “a minha fé que eu amolei tal qual a faca mais fina” – “Fé Cega, Faca Amolada”. Diretamente do underground do underground, ou seja, do interior de um estado nordestino, o movimento prossegue e a substância é o carnaval, a força festiva supramencionada, que Dário Inerente toma de empréstimo, para o seu “Bloco na Rua” de afectos e perceptos. De ideias críticas e de construção poética que não almeja o hype, mas a verdade. 

Uma boombpera nojenta, com acentos jazzy, cortesia do monstrinho pedrvso que sobe novamente os bpm’s, é a avenida em “Camisa 10”. Longe de atualizar inimigos imaginários, como muitos rappers fazem hoje, nesta faixa Dário Inerente aponta sua caneta como vendeta, contra uma pá de otário plastificado, e a polícia genocida. Mas, perceba que é o movimento que conduz a crítica, com os riscos do DJ Noé que presentifica nomes como Marcelo D2, Parteum, OQuadro e GOG. 

Único feat do disco com um MC, Dário Inerente convida Davzera, em um diálogo entre Itabuna e a capital, banhado de “Dendê”. Em mais um beat de sua própria autoria, o grapiúna tempera suas rimas com bastante apuro e a força dos orixás. O já conhecido e aclamado no underground brasileiro flow e construção do Davzera se faz presente. No skit que se segue, tem uma reprodução de uma fala de Elis que é famosa: “Eu dou o tiro, quem mata é deus”. 

Dário Inerente
Foto por Augusto Santos aka @method_av

O Skit em questão chama-se “Coisa de Espírito”, e pescando essa frase de Elis, mais do que concordar com a relação possível de causa e efeito, entre o tiro e a vontade de deus, me parece que é a intenção do Dário Inerente que conta aqui. Anos luz de distância de dizer que vai vencer e pipipopopo, ao longo do disco o artista deixa claro que sua intenção é viver com dignidade da sua arte, mas que entende como funciona a indústria e lança sua flecha para o universo, quem tiver condições que a aceite. 

Seguindo “Atento e Forte”, em mais um beat próprio e um dos que achamos mais foda no disco, o MC novamente não se contrapõe, convoca: “quero ver você” e enumera seus obstáculos e hábitos. “Eu já ganhei desde o começo ao entender que isso não é um jogo” canta Dário Inerente no loop de sua autoria e que fecha o disco: “Minha Arma (Outro)”.  “Enquanto eu passo é meu bloco” ele rima em outro momento numa faixa anterior. 

O fim do desfile não é a morte do movimento que percorre todo o excelente trabalho entregue pelo Dário Inerente em “Bloco na Rua”. Estamos de fato, diante de um disco de estreia que como dissemos no começo, se insere em uma tradição e nesse processo este disco é já um dos motores da cultura Hip-Hop no Brasil e em Itabuna. A riqueza que ele traz é também fruto do cenário em que se desenvolveu, e em um processo dialético e de formação, Dário coloca Itabuna no mapa do Rap no país. 

Como sabemos que há muitas vezes por má vontade, problemas de interpretação, vou reformular. Dário Inerente carrega em seu trabalho Itabuna, pois foi lá que ele se formou, junto a outros MC’s e como continuidade de uma tradição que lhe é anterior. “Bloco na Rua” é um disco que traz no nome esse movimento, o bloco posto – Tradição – foi colocado mais uma vez em movimento, e nos parece que o grande mérito desse desfile, além da grande qualidade individual e do esforço coletivo, foi trazer todos os seus e a sua cidade junto.    

-Dário Inerente em swingue crítico, “Bloco na Rua” é uma afirmação da força do Rap Baiano!

Por Danilo Cruz 

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Santa Cena, a importância da força coletiva negra e periférica no cenário do rap sergipano! https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/04/santa-cena-a-importancia-da-forca-coletiva-negra-e-periferica-no-cenario-do-rap-sergipano/ https://homolog.oganpazan.com.br/2025/08/04/santa-cena-a-importancia-da-forca-coletiva-negra-e-periferica-no-cenario-do-rap-sergipano/#respond Mon, 04 Aug 2025 16:38:56 +0000 https://oganpazan.com.br/?p=38811 O coletivo Santa Cena no cenário do rap sergipano, nos convida a pensar sobre a importância da perspectiva coletiva no Hip-Hop!

Santa Cena

 

As últimas movimentações do Santa Cena, coletivo de Sergipe, deixam claro que o grupo segue firme na sua proposta de valorização da juventude preta periférica. Os laços que fizeram com coletivos de fora da capital são a prova cabal disso, Primeiro, com a Exorbitmob, mob de Itaporanga d’Ajuda, foi lançado o clipe de ‘Urubus’. Depois, com a Street79, da Barra dos Coqueiros, lançaram a cypher Tétano Clã. Em ambos os casos, o que o Santa Cena faz é juntar forças e recursos com verdadeiras potências do rap sergipano. Apesar disso, para entendermos melhor o que é o Santa Cena e a virada de chave que representa, analisaremos o primeiro álbum da mob.

Há pouco mais de um ano, no dia 13 de abril de 2024, foi lançado o álbum ‘Santa Cena é o trem’. O projeto contou com 10 faixas, além de uma introdução não musical e reuniu 19 artistas, de dentro e fora do Santa Cena. Só de mc’s, foram 10, DLOK, NDS Hiata, Black Ice, Manu Caiane, Dani DK, Mali, BW, Weiny, Lubrisa e NG Lampião da Rima (também responsável pela articulação).

O time ainda contou com a presença de Eufórico, Duck e Oldproduções na produção fonográfica, mix, master e captação de vozes; Camila Geovana e Precioza na produção geral; Felipe de Jesus na fotografia; Somb e Dalvam Dexter na capa; e, por fim, Luan Allen, responsável pelos setores de identidade visual, articulação e capa. Um projeto grandioso e que, apesar de jovem, tem entalhado no corpo as marcas de um passado mais longínquo.

Junto a faixas inéditas, o projeto reúne os sucessos já conhecidos. Por isso, a história do álbum é indissociável da história do próprio coletivo. E de fato, a ideia do álbum surge com o nascimento do próprio Santa Cena. É isso que nos diz Luan Allen: 

Santa Cena
NG Lampião da Rima durante gravações

“A ideia de criar o álbum surgiu logo nas primeiras reuniões entre eu e Lampião da Rima, ainda no início do Santa Cena. Esse conceito inicial foi tomando novas formas e possibilidades quando começamos a dialogar com outros agentes. Mas foi no terceiro momento, com a chegada da produção musical de Eufórico e Duck, que o projeto realmente alcançou sua forma definitiva.”. 

Assim, para entendermos o que o projeto representa, precisamos, antes, entender o que o Santa Cena representa. E para isso, as palavras de NG Lampião da Rima nos fornecem uma luz: 

“O Santa Cena representa a pura verdade, a pura garra, correria, vontade de viver de um sonho, um futuro novo, um novo amanhã. Santa Cena representa quem é descredibilizado pelos seus sonhos, pelo seu corre.”

E por isso, ainda nas palavras de Lampião, em entrevista para o podcast Desdobro: “Principalmente qualquer lugar do estado, qualquer lugar do nordeste, aonde tiver uma favela, aonde tiver uma quebrada, um sonho, ali vai ter um Santa Cena”.

Sediado no Santa Maria, o bairro que dá nome ao Santa Cena, alguns anos atrás sequer poderia ser chamado de bairro. Antigamente conhecida como Terra Dura, a localidade na qual se situa o bairro sempre foi alvo do descaso governamental e por isso sempre foi vista de forma estigmatizada por grande parcela da população aracajuana. O atual nome do bairro foi tirado do canal Santa Maria, que serviria de ligação entre os rios Poxim e Vaza barris, mas sua construção foi abandonada em 1902. Além disso, em 1988 o local passou a servir de aterro sanitário, suprindo a necessidade do município após a desativação da lixeira do bairro Soledade.

Em resposta ao estigma generalizado acerca da Terra Dura, o Santa Cena nasce como uma ferramenta de perspectiva. Não é proposta do coletivo mascarar a realidade do Santa Maria ou de qualquer outra quebrada dos seus integrantes, mas vê-las de um ângulo pessoal, que revela a beleza e potência desses lugares. A depender de com quem se converse, o Santa Maria sempre será lembrado como um aterro sanitário, mas se mudarmos nosso interlocutor, saberemos que a Terra Dura é terreno fértil e como disse o Racionais Mc’s: “Até no lixão nasce flor”. 

Santa Cena
Luan Allen

É daí que surgem Luan Allen e NG Lampião da Rima. Fundadores do Santa Cena, as  carreiras dessas duas potências da pretitude periférica se confundem com a história do Santa Cena. No caso de Luan, apesar de já trabalhar como videomaker de alguns nomes do rap sergipano, e de outros gêneros, é no Santa Cena que seu trabalho alcança um novo patamar técnico e de reconhecimento: 

“Depois que o Santa Cena nasceu, muitas responsabilidades surgiram junto, e outras demandas que fui entendendo durante o processo – desde questões de relações até burocracias voltadas a músicas, eventos e estratégias. Mas isso também trouxe muito retorno positivo enquanto movimento. Recebi muitas falas sobre como o Santa Cena trouxe uma nova perspectiva de organização, de visibilidade para artistas e conceitos. Minha carreira ganhou um novo peso depois de todos esses trabalhos.”. 

No caso de NG, um dos maiores nomes do rap sergipano, senão o maior, sua carreira já caminhava com rentabilidade antes do Santa Cena. O mc é cria das batalhas de rima, já foi campeão estadual e disputou o regional, já vinha consolidando o seu trabalho enquanto mc de estúdio e participou de músicas extremamente relevantes pra cena local, como Sergipe Gangstar da F.B.S. (Família Bocas Secas). É inegável, contudo, que seu trabalho é realçado a partir de sua parceria com Luan Allen. Se antes disso a sonoridade de NG já era impecável, agora também o seu audiovisual é. E isso permitiu a criação de clássicos instantâneos do rap Serigy: os clipes de ‘Flow Lampião’ e ‘É a rua’ e toda a união sonora e estética do álbum ‘NG tá em kasa’.

Apesar de sediado no Santa Maria, não é só de lá que os integrantes do Santa Cena vieram. Durante seus anos de existência, o grupo já contou com dezenas de artistas e colaboradores de diversos bairros e cidades do estado. como é o caso de BW e Mali. Vindo do Castelo Branco, BW é um dos artistas mais influentes da cena. Sua estética de drill seria exemplo para outros artistas e o mesmo pode ser dito de sua estética audiovisual, especificamente no clipe de Saweetie. O artista iniciou no Santa Cena logo no início da sua fundação e fala um pouco sobre o que o álbum representou para a sua carreira:

“O álbum reuniu artistas de cada uma das 4 zonas da cidade e estado, então são vários mundos, e a proposta do álbum era abranger diversas temáticas e permear várias estéticas, então foi algo realmente importante e notório para minha carreira. Máximo respeito, só colaboração incrível junta!” 

Santa Cena
BW

Mali, por sua vez, é natural de Estância e nos fala um pouco da importância do Santa Cena para sua carreira: 

“Entrei no Santa Cena a convite de NG e de Luan, e foi uma oportunidade do sonho de artista, trabalhar profissionalmente se tornar real, de não precisar produzir beat, me gravar e compor sozinha, pois era a perspectiva única de melhorar enquanto artista. Além disso, o reconhecimento da minha arte como potência pra compor o Santa Cena elevou minha auto-estima e afirmou minha identidade”. 

Santa Cena
Mali

Assim, fica evidente que o lugar no qual nasce o Santa Cena é muito mais espiritual que geográfico. A vivência no Santa Maria é experienciada para além do espaço no qual o bairro se localiza e isso permite que exista mais proximidade entre as vidas de jovens pretos periféricos do que distância entre suas moradias. Com isso, a sede do Santa Cena deixa de ser um lugar físico para se tornar um lugar interpessoal no qual coexistem artistas do Santa Maria, Castelo Branco, Rosa Elze, São Conrado, Barra dos Coqueiros e por aí vai. Porque, de certa forma, todos residem no mesmo bairro, cidade, estado ou país, que é a periferia, local ou globalmente! 

Santa Cena
Camila Giovana

Não é à toa que o álbum, e os visualizers que ele gerou, contou com a presença massiva de agentes periféricos em todas as etapas de produção, até os mais altos postos de articulação. Camilla Giovana é produtora executiva do Santa Cena, foi produtora geral do projeto e nos conta um pouco do que a concretização do álbum representa pra ela:

“Representa o poder da transformação de perspectivas em relação à história do Rap Sergipano e aos profissionais que atuaram na produção do álbum. Esse lançamento contribuiu para que eu me enxergasse enquanto uma real produtora e me fez sentir capaz de alcançar/almejar outras colocações.” 

Algo semelhante é dito por Precioza, que, junto com Camila, foi produtora geral do álbum: 

“O álbum teve um impacto positivo, principalmente por me fazer ser reconhecida dentro de um cenário majoritariamente masculino. Foi uma das primeiras vezes que isso aconteceu, ainda que de forma sutil.”

A importância do Santa Cena, então, é evidente. Não só por reunir agentes pretos periféricos em seu entorno, mas por possibilitar a existência de suas carreiras. E isso ocorre tanto no caso de quem fica por trás das produções, como quem fica à frente delas, e quanto a isto, eufórico (eufo) e NDS Hiata são ótimos exemplos. Para eufo, sua entrada no Santa Cena foi marcada pela insegurança: 

“Minha entrada no Santa Cena foi mais um desafio pra mim, porque eu entrei e não sabia nem pilotar o FL [programa de produção musical] direito. Na minha cabeça, eles iam ver que eu era amador pra carai no bagulho e me tirar.” 

Quanto a NDS, o artista já tinha um trabalho reconhecido como mc e produtor, chegando a fazer o beat de diversas músicas de Bidu, um dois maiores nomes do rap sergipano, mas é com sua entrada no Santa Cena que ele lança o grosso do seu trabalho enquanto mc. Singles, videoclipes, a participação no álbum do Santa Cena e o lançamento do seu primeiro álbum. O convite para participar do coletivo foi como um resgate da sua carreira artística:

 “No tempo eu tava também passando por alguns problemas e estava meio afastado da música. Eu digo que o Santa Cena me resgatou. E aí, mano, foi só sucesso. Vários projetos passaram pra nós tudo certinho. Saiu meu primeiro trampo que foi o  Cypher. Depois da Cypher foi só porradeiro.”

Quem já foi ao Bate Cabeça do Santa Cena sabe que “porradeiro” é a palavra mais certeira que NDS poderia ter escolhido. Capturado pela lente de Somb, o evento inunda a DOCA, não só de pessoas e de clássicos do coletivo, mas também de sentimento. A auto-estima e a euforia são registrados nos olhos, sorrisos e vestuários de quem participa do show. Ao som de ‘É a rua’, a DOCA treme como se uma locomotiva passasse por cima. E assim, o Santa Cena faz jus à alcunha que dá nome ao álbum. Sobre isso, o próprio SOMB nos relata o seguinte: 

“Eu enxergo que o Bate Cabeça do Santa Cena é algo muito importante pra nossa cena. É como se fosse uma voz, meio que pra dizer que estamos aqui, porque representa muito os artistas negros e periféricos. O que minha lente vê nesses Bate-Cabeça’s é essa forma de ocupar, essa forma de o Santa Cena mostrar que os jovens negros periféricos têm capacidade de ocupar todos os espaços.”

Não é difícil definir o Santa Cena, e justamente por isso é fácil perceber a sua força. Santa Cena é um coletivo de jovens pretos periféricos que viram na própria realidade à sua volta uma possibilidade de mudança e o álbum é um marco da operacionalização dessa mudança. 

Toda a representatividade periférica que o Santa Cena traz em tudo o que faz é fruto de um ideal comum, a vitória do povo preto periférico. Por isso, o Santa Cena é também um movimento, de corpos, sentimentos e ideias. Todos juntos com um único propósito e vontade, sem que isso ocasione a negação de suas raízes e as suas singularidades. Nessa perspectiva, Santa Cena é o futuro, o presente ou mesmo o passado, mas, antes de tudo, Santa Cena é o trem.

-Santa Cena, a importância da força coletiva negra e periférica no cenário do rap sergipano!

Por Marcos Roberto 

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